VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925
1. Defesa da Interpretação Alegórica e Mística
Vulliaud defende vigorosamente a interpretação tradicional do Cantique des Cantiques como uma alegoria do amor divino, contra as leituras puramente literais ou “sensualistas”. Ele argumenta que a linguagem sensível e amorosa do texto é um recurso simbólico universalmente reconhecido para expressar realidades espirituais.
- Princípio do simbolismo: “On ne parle pas des choses intellectuelles, sinon métaphoriquement par les choses sensibles” (Abarbanel).
- Universalidade do simbolismo amoroso: O amor humano é usado como símbolo do amor divin em diversas tradições (judaica, cristã, platônica, mística).
2. Crítica aos Opositores da Leitura Espiritual
Vulliaud critica a falta de “cultura geral” dos críticos que rejeitam a dimensão espiritual do Cantique. Ele acusa esses críticos (como Renan e Albert Réville) de:
- Ignorarem a tradição simbólica universal.
- Superficialidade na leitura do texto.
- Hipocrisia ao condenar o Cantique por sua linguagem, enquanto aceitam passagens semelhantes em outros textos bíblicos (como Ezequiel).
3. Comparação com Outras Tradições Místicas
Vulliaud rejeita comparações simplistas entre o Cantique e textos como o Gita-Govinda indiano, que ele considera genuinamente erótico e não místico. Ele defende que:
- O Cantique é mais sóbrio e espiritual.
- A intenção dVulliaud (Jayadéva, no caso do Gita-Govinda) é crucial para determinar o caráter místico ou não de um texto.
4. A Tradição Judaica e a Kabbalah
Vulliaud recorre à tradição judaica e à Kabbalah para sustentar a leitura alegórica:
- A Kabbalah vê no Cantique um comentário sobre a união entre Deus (o Noivo) e Israel (a Noiva).
- A linguagem corporal e conjugal é usada para descrever relações metafísicas entre as Sefirot (atributos divinos).
5. Resposta às Objeções Rationalistas
-
Objeção: “Não há indícios de uma intenção alegórica no Cantique.”
- Resposta: Muitos textos judaicos (como a Haggadah de Páscoa) são simbólicos sem o declararem explicitamente.
-
Objeção: “A alegoria não se aplica consistentemente a todos os versículos.”
- Resposta: Isso também ocorre com as interpretações racionalistas, que falham em explicar todos os detalhes.
6. Conclusão: O Cantique como Obra Mística e Profunda
Vulliaud conclui que:
- O Cantique é uma obra de profunda espiritualidade, destinada a leitores maduros (como indicado pela tradição judaica de só permitir sua leitura após os 30 anos).
- Sua linguagem, embora sensível, é sempre séria e nunca licenciosa.
- A interpretação alegórica é não apenas válida, mas necessária para compreender sua mensagem central: o amor entre Deus e sua criação.