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id da página: 7507 Paul Vulliaud – Cântico dos Cânticos – Targum

Vulliaud Cantico Targum

VULLIAUD, Paul. Le Cantique des Cantiques. D’Après la tradition juif. Paris: PUF, 1925

1. Introdução: Os Dez Cânticos

Vulliaud inicia situando, com base no Targum, o Cântico dos Cânticos como a obra prima de Salomão, composta sob inspiração divina. Ele não é apenas mais um cântico, mas o ápice de uma tradição de dez cânticos históricos que marcam momentos cruciais da relação entre Deus e Israel:

  1. Adão: Após o perdão de seu pecado, no primeiro Sábado.
  2. Moisés e Israel: Após a travessia do Mar Vermelho.
  3. Israel: Pelo dom da água do poço no deserto.
  4. Moisés: Um cântico de advertência antes de sua morte.
  5. Josué: Quando o sol e a lua pararam.
  6. Débora e Baraque: Após a vitória sobre Sísera.
  7. Ana: Pelo nascimento de seu filho Samuel.
  8. David: Por todos os milagres que Deus operou para ele.
  9. Salomão: O Cântico dos Cânticos.
  10. Os exilados: O cântico futuro, quando Israel for redimido da última dispersão.

Esta lista estabelece uma linha do tempo da redenção, onde o Cântico de Salomão ocupa um lugar central, mas aponta para um cântico final e definitivo.


2. A Outorga da Lei e a Relação Especial com Deus

Aqui, o Targum interpreta as metáforas de amor do Cântico como referências à outorga da Torá no Monte Sinai.

  • Eleição Divina: Deus não apenas deu a Lei, mas o fez de forma íntima, "face a face, como um homem que abraça seu amigo". Isso contrasta com a relação de Deus com as outras 70 nações.
  • Respeito das Nações: Os atos poderosos de Deus (o Êxodo, as pragas) fizeram com que Seu Nome e Seu povo fossem temidos e respeitados internacionalmente.
  • A Recompensa dos Justos: Seguir a "boa via" de Deus garante ao fiel a recompensa tanto neste mundo quanto no Mundo Vindouro.

3. O Êxodo do Egito e a Proteção Divina

As metáforas de perseguição e proteção no Cântico são lidas como o cerne da narrativa do Êxodo.

  • Guia no Deserto: A coluna de nuvem e fogo é um sinal visível do cuidado e da liderança divina.
  • O Milagre no Mar Vermelho: O texto detalha a cena: os israelitas estão encurralados pelo Faraó, pelo mar e por desertos perigosos. Deus não apenas abre o mar, mas seca o fundo de forma milagrosa. A narrativa inclui até a zombaria dos egípcios, que acreditavam que Deus podia secar a água, mas não a lama.
  • Intercessão: Moisés não apenas age, mas intercede para que a ira de Deus não destrua até mesmo os egípcios, demonstrando um princípio de misericórdia.

4. A Revelação no Sinai e a Quebra da Aliança

Este é um dos pontos mais dramáticos do comentário, que vê no Cântico um reflexo do auge e do vale da relação divina.

  • As Tábuas da Lei: São descritas com uma beleza e preciosidade transcendentais, talhadas da safira do próprio trono de Deus.
  • A Infidelidade do Bezerro de Ouro: Enquanto Moisés está no monte, o povo se corrompe. O texto é vívido: sua "boa fragrância" (reputação) se transforma em "mau odor", e são fisicamente afetados.
  • A Quebra e a Restauração: A quebra das tábuas é uma consequência direta do pecado. A intercessão de Moisés, invocando o mérito dos patriarcas (especialmente o Akedah, o sacrifício de Isaac), é o que faz Deus revogar a sentença de aniquilação. A construção do Tabernáculo é o sinal final da reconciliação.

5. A Relação de Amor e Infidelidade

O Targum alterna entre visões idealizadas e os momentos de crise, personificando Israel como a noiva de Deus.

  • O Elogio Mútuo: Deus elogia Israel quando este estuda a Torá e cumpre os mandamentos, comparando-o a um lírio do Éden. Israel, por sua vez, louva a beleza da presença de Deus (a Shekinah) no meio dele.
  • A Queda e o Arrependimento: A "negrura" de Israel (Ct 1:5) é interpretada como a consequência do pecado do bezerro de ouro, que os deixou com a face escurecida "como a dos etíopes". No entanto, o arrependimento genuíno não apenas restaura, mas aumenta o seu esplendor.
  • A Confissão: Israel admite culpa, reconhecendo que sua idolatria foi uma imitação dos costumes pagãos dos povos ao seu redor.

6. Profecias, Exílio e Arrependimento

O comentário projeta a aliança para o futuro, prevendo seus fracassos e a esperança final.

  • A Profecia de Moisés: Moisés, prevendo o exílio futuro, pergunta a Deus como o povo sobreviverá entre nações hostis e idólatras.
  • A Resposta de Deus: A sobrevivência no exílio se dará através da manutenção da identidade: estudo da Torá, oração e liderança dos sábios. O exílio tem um prazo, que será terminado com a vinda do Rei-Messias.
  • O Diálogo do Exílio: Num tom comovente, Deus e Israel debatem quem deve dar o primeiro passo para a reconciliação, cada um argumentando que se afastou por causa do outro.

7. Oração, Estudo e Esperança na Redenção

Esta seção descreve a vida religiosa que sustenta o povo durante o exílio.

  • A Rotina de Fé: O povo é descrito se levantando de madrugada para ir à sinagoga e à casa de estudo (medrasha). Sua vida gira em torno do estudo da Lei e da esperança ativa pela redenção.
  • O Papel dos Sábios: Eles são os guardiões do conhecimento e da esperança, constantemente interrogados sobre se os sinais do tempo messiânico já estão presentes.
  • O Chamado do Messias: Num momento climático, Deus anuncia ao Messias que o mérito dos justos e a devoção dos que estudam a Torá "cheiraram bem" diante dEle, e que é o momento de ele assumir seu reino.

8. A Era Messiânica e a Redenção Final

O comentário expande-se numa vívida descrição escatológica.

  • A Reunião: O povo chama o Messias de "irmão" e sobe com ele a Jerusalém, onde se dedicará totalmente ao estudo da Torá.
  • O Banquete Escatológico: É descrito o banquete messiânico, com a carne do Leviatã e o vinho velho preservado desde a criação.
  • A Ressurreição: O Monte das Oliveiras se fenderá e os mortos de Israel ressuscitarão por ele. Os justos do exílio virão por túneis subterrâneos. É uma imagem física e poderosa da vitória final sobre a morte.
  • O Fim do Exílio: Israel pede para ser colocado como um "sinete no braço" de Deus, um símbolo de união permanente e indissolúvel.

9. Provações Finais e a Vitória de Israel

Antes da paz final, há uma última batalha.

  • Gog e Magog: São as nações reunidas que tentarão destruir Israel no fim dos tempos.
  • A Intercessão Angelical: Os anjos no céu debatem a fragilidade de Israel. O anjo Miguel (o defensor de Israel) argumenta que, apesar de suas falhas, o povo se mantém firme em sua fé e no estudo da Torá. Ele promove cercar Israel com uma "torre de prata" (sua oração e mérito) para protegê-lo.
  • A Autoconfiança de Israel: Fortalecido pela Lei, Israel se declara um "muro" inexpugnável, confiante de que encontrará misericórdia divina.

10. Conclusão: A Vinha do Senhor e a Oração Final

O comentário termina com uma metáfora agrícola e uma oração comovente.

  • Israel como Vinha: Deus é o proprietário que plantou uma vinha (Israel) em Jerusalém e a confiou à casa de David. A história subsequente (a divisão do reino sob Roboão e Jeroboão) é vista como uma consequência do pecado, prevista pelo profeta Aías.
  • A Oração Final dos Anciãos: É uma das passagens mais poéticas. Os anciãos, reconhecendo a impureza do mundo no exílio, pedem a Deus que recue para o céu. No entanto, eles imploram que, de lá, Ele olhe para o sofrimento do povo como um cervo ou um filhote de gazela que, mesmo em fuga, olha para trás para ver sua cria. É um pedido para que Deus nunca deixe de lançar um olhar de compaixão sobre Israel, até que a redenção final seja completada e o culto no Templo seja restaurado.

Este resumo mostra como o Targum transforma o Cântico dos Cânticos de um poema de amor individual em um épico nacional, abrangendo toda a história de Israel, desde a criação até o fim dos tempos, sempre centrada na aliança, às vezes quebrada, mas sempre restaurada, entre Deus e seu povo.