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id da página: 7743 Xivaísmo Retorno Fonte

Xivaísmo Retorno Fonte

Manifestação e retorno à fonte: o jogo divino

Em Paramashiva — o Todo indiferenciado, indizível — Shiva é indissoluvelmente unido à energia mas esta, no curso da manifestação, parece se separar dele para assumir aspectos mais e mais distintos e determinados. A livre energia faz surgir as outras energias que ela guarda ainda indivisas nela mesma, as revelando cada uma por seu turno: primeiro a energia de consciência emerge; em seguida se insinua a beatitude no seio da união de Shiva e de sua energia; se desdobram em seguida as energias de vontade, de conhecimento; enfim, quando aparece a energia de atividade, as primeiras não se encontram mais senão latentes nela. A livre energia se obscurece para manifestar o universo, sua manifestação sendo sua ocultação mesma.

Estas energias, inicialmente dotadas de uma perfeita pureza, a perdem pouco a pouco. A energia iccha, desejo ou vontade, que na origem não senão aquiescência à plenitude se torna um desejo definido; o conhecimento (jhana) que não é senão Luz consciente de Si aparece como um conhecimento distinto em sujeito e objeto; a atividade (kriya) de simples sacudidela ou desenvolvimento em si mesmo na plenitude do Eu absoluto, se desdobra em movimentos dispersos e alcança à ação escravizadora. A vida é então cristalizada ao redor do eu, e este eu, doravante separado do Todo, percebe o universo como fragmentado em inumeráveis sujeitos e objetos enquanto a diversidade de seus estados de consciência lhe escondem o ser único que é por essência.

Assim, fazendo jogo de soldado, o soberano se prende a seu jogo. Esquecido de toda soberania, sua liberdade perdida, se apega a seu estado de simples soldado e aí se aprisiona, prisioneiro da impotência.

Lallesvari se queixa amargamente:

«Não há nem Tu nem eu, nem contemplado nem contemplação, mas somente o criador do universo que se perdeu no esquecimento dele mesmo... (59).» (Bh., p17.)

«Ó minha alma, a atração mentirosa do mundo te fez em partilha... Enfim! porque esquecestes a natureza do Si? (67).» (Bh., p. 21)

Alguns séculos antes, Utpaladeva insistia sobre o terrível paradoxo:

«Aqui em baixo, diz à Shiva, nada é separado de Ti. Nada há que não seja beatitude posto que modelado por Ti. E no entanto não reinam em todos os lugares senão diferenciação e dor. Ó morada de uma perplexidade sem igual, Te saúdo.» (S.U., XCIII. 18.)

Desde doloroso paradoxo dá uma explicação:

«O colar de pérolas de Teu amor é enfim mergulhado em meu pensamento impuro e, embora inato, o Esplendor de sua glória sobrenatural não irradia.» (XV. 15.)

E no entanto, àqueles que o adoram Shiva oferece sua própria Essência luminosa com generosidade e sem nada guardar para si:

«Glória a Ti, Senhor Todo-Poderoso, mestre do universo, a Ti que vai até a dar teu Si (atman).» (XIV. 12.)

Qual portanto o segredo desta adoração? Como o soldado encontra sua soberania, o colar de pérolas, seu esplendor sobrenatural? Da consciência ou da atividade do soldado não pode nascer uma consciência real, nem do pensamento instável ou da imaginação, a consciência de Si.

Mas que o soldado reencontre um soberano e o reconheça como tal, ou que a soberania surja nele e se revele espontaneamente, então, em um desprendimento extraordinário que o arranca de seu eu, sua consciência limitada se abole na emergência do Si universal. No brilho intenso de uma livre tomada de consciência, ele reconhece o soberano que é, que sempre foi. É então na plenitude da felicidade e do conhecimento que desfruta de sua soberania reencontrada; exerce plenamente e, por tê-la esquecido na exuberância de seu jogo, dela sabe o preço.

Assim a energia que manifesta o universo é também, enquanto graça, a artesã do retorno. Como o soldado recupera a consciência de sua natureza real, aquele que se toma por um eu isolado e aí se aprisiona, acede à identidade ao Todo desde que retoma consciência de Si.

«O Si cuja maravilhosa essência é Luz, Shiva soberanamente livre, pelo jogo impetuoso de sua liberdade, mascara a princípio sua própria essência em seguida a revela de novo em sua plenitude, de um só golpe por graus. E esta graça é inteiramente independente.» Abhinavagupta (Bh., p. 24)

Suscitando o universo múltiplo pela magia de sua força criadora, Shiva se oculta a ele mesmo; se amparando de força do coração obscuro onde reside, Shiva se revela a ele mesmo.

Livre ou acorrentado, é Shiva sempre idêntico a ele mesmo, maravilhoso mago do grande Jogo divino que engloba a emissão integral do universo e seu retorno à fonte.