Atitude de súplica: necessariamente deve-se se virar para outra coisa que não a si mesmo, já que se trata de ser libertado de si mesmo.
Simone Weil
WEIL, Simone. La pesanteur et la grâce. Paris: Librairie Plon, 1947
Aqueles que caíram tão baixo têm piedade de si mesmos?
A piedade desce até um certo nível, e não abaixo. Como a caridade faz para descer abaixo?
Uma desgraça grande demais põe um ser humano abaixo da piedade: nojo, horror e desprezo.
Abaixar-se, é subir com relação ao pesadume moral. O pesadume moral nos faz cair para o alto.
A graça, é a lei do movimento descendente.
A criação é feita do movimento descendente do pesadume, do movimento ascendente da graça e do movimento descendente da graça à segunda potência.
Descer por um movimento onde o pesadume não tem nenhuma parte... O pesadume faz descer, a asa faz subir: que asa na segunda potência pode fazer descer sem pesadume?
Nenhum outro bem que esta capacidade.
"Meu alimento é fazer a vontade daquele que me envia."
Não julgar. Todas as faltas são iguais. Há apenas uma falta: não ter a capacidade de se nutrir de luz. Pois, sendo essa capacidade abolida, todas as faltas são possíveis.
Um único remédio para isso: uma clorofila permitindo se nutrir de luz.
O homem tem a fonte da energia moral no exterior, como a da energia física (alimentação, respiração). A encontra geralmente, e é por isso que tem a ilusão — como no físico — que seu ser porta em si o princípio de sua conservação. A privação sozinha faz sentir a necessidade. E, em caso de privação, não se pode se impedir de se virar para qualquer coisa comestível.
Então se liberta em si energia por uma violência que a degrada mais. Compensação no sentido da termodinâmica, círculo infernal do qual só se pode ser libertado de cima.
Tentar esta libertação por meio da própria energia, seria como uma vaca que puxa a amarra e cai assim de joelhos.
Todos os movimentos naturais da alma são regidos por leis análogas às do pesadume material. A graça, somente, é exceção.
Várias vezes nesse estado, cedi pelo menos à tentação de dizer palavras dolorosas. Obediência ao pesadume. O maior pecado. Corrompe-se assim a função da linguagem, que é a de exprimir as relações das coisas.
Desejos análogos, muito frequentes entre os homens.
Não esquecer que em certos momentos de minhas dores de cabeça, quando a crise aumentava, tinha um desejo intenso de fazer sofrer outro ser humano, atingindo-o precisamente no mesmo lugar da fronte.
Filas de alimentação. Uma mesma ação é mais fácil se o móvel é baixo do que se é elevado. Os móveis baixos encerram mais energia do que os móveis elevados. Problema: como transferir aos móveis elevados a energia devotada aos móveis baixos?
É um caso particular da lei que geralmente põe a força do lado da baixeza. O pesadume é como um símbolo.
Se é verdade que a mesma dor é bem mais difícil de suportar por um motivo elevado do que por um motivo baixo (as pessoas que ficavam de pé, imóveis, da uma às oito da manhã para ter um ovo, o teriam feito muito dificilmente para salvar uma vida humana), uma virtude baixa é, talvez, sob certos aspectos, mais à prova das dificuldades, das tentações e dos infortúnios do que uma virtude elevada. Soldados de Napoleão. Daí o uso da crueldade para manter ou reelevar o moral dos soldados. Não o esquecer em relação à deficiência.
O baixo e o superficial estão no mesmo nível. "Ele ama violentamente, mas de modo baixo": frase possível. "Ele ama profundamente, mas de modo baixo": frase impossível.
É preciso fazer tal coisa. Mas onde buscar a energia? Uma ação virtuosa pode rebaixar se não houver energia disponível no mesmo nível.
O objeto de uma ação e o nível da energia que a alimenta, são coisas distintas.