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Literatura

Um reacionário da língua

JGR: Esta reputação não me desagradaria; e mesmo, já disse antes, gostaria de ser considerado . Sou precisamente um escritor que cultiva a ideia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro.Vão juntos. A música da língua deve expressar o que a lógica da língua obriga a crer. Nesta Babel espiritual de valores em que hoje vivemos, cada autor deve criar seu próprio léxico, e não lhe sobra nenhuma alternativa; do contrário, simplesmente não pode cumprir sua missão. Estes jovens tolos que declaram abertamente que não se trata mais da língua, que apenas o conteúdo tem valor, são pobres coitados dignos de pena. O melhor dos conteúdos de nada vale, se a língua não lhe faz justiça. O caso de Zola prova isso. E o conteúdo mais perigoso chega a ter uma função humana, se estiver expresso em uma linguagem poética, isto é, humana; Asturias é a prova. Esta língua, assim como o provam Asturias,Thomas Mann e Musil, esta língua atualmente deve ser pessoal, produto do próprio autor; porque o material linguístico existente e comum ainda basta para folhetos de propaganda e discursos políticos, mas não para a poesia, nem para pronunciar verdades humanas. Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica. Cada palavra é, segundo sua essência, um poema. Pense só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário.Talvez um pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia.

Guimarães Rosa. Excertos da entrevista de Guimarães Rosa a Günter Lorenz, constante da Introdução de Eduardo F. Coutinho da Obra Completa I, p. xxxi-lxv.