Recuperamos o dia que corre. A vida que nos cerca não tem conceitos de ordem. Os fatos do passado, os fatos das ciências particulares e os fatos da vida nos envolvem sem qualquer ordem. A filosofia popular e a discussão do dia contentaram-se com restos liberais de uma crença infundada na razão e no progresso, ou inventaram os fetiches familiares da época, da nação, da raça, do catolicismo e do homem da intuição, todos os quais têm em comum, do ponto de vista negativo, uma forma sentimental de denegrir o intelecto e, do ponto de vista positivo, a necessidade de um ponto de apoio, de gigantescos esqueletos fantasmáticos em que possamos pendurar as impressões, que são as únicas coisas de que ainda éramos constituídos. (...) Ao fazê-lo, tornamo-nos tão pouco corajosos no julgamento e na construção diretos, que adquirimos o hábito de ver até mesmo o presente de maneira histórica; tão logo surge um novo ismo, acreditamos haver nele um novo homem e, no fim de cada ano letivo, começa uma nova época!
(Robert Musil, Das hilflose Europa oder Reise vom Hundersten ins Tausendste, 1922.)