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id da página: 6186 HOMOOUSIOS = CONSUBSTANCIAL, COESSENCIAL

homoousios

HOMOIOSISOUSIA — HOMOOUSIOS = CONSUBSTANCIAL, COESSENCIAL


BORELLA, Jean. Ésotérisme guénonien et mystère chrétien. Lausanne: L’Age d’Homme, 1997

As Origens do Termo "Consubstancial" Niceno

  • O Símbolo de Nicéia e o Papel dos "318 Padres":

    • Formulação do Símbolo de Nicéia pelos "318 Padres" do mais célebre Concílio de toda a história da Igreja.
    • Necessidade de questionamento sobre o Concílio como ato oficial de uma exoteriação dogmatista da Igreja.
    • A resposta à questão da exoteriação dogmatista não pode ser senão negativa.
  • Instituição Canônica e Interpretação Ortodoxa do Concílio de Nicéia:

    • O Sínodo reunido em Nicéia em 325 tornou-se "o" Concílio de Nicéia somente em consequência dos Concílios de Constantinopla (381), de Éfeso (431) e sobretudo de Calcedônia (451).
    • Estabelecimento do Concílio de Nicéia pelos Concílios ulteriores como referência e norma doutrinal maior.
    • Definição progressiva da interpretação ortodoxa das formulações nicenas pelos Concílios ulteriores.
    • Existência provável de significações bastante divergentes por parte daqueles que subscreveram às formulações nicenas, comprovada incontestavelmente pela história pós-nicena do arianismo.
  • Contexto Imperial e a Tese Guénoniana:

    • Adoção das fórmulas conciliares desejada pelo poder imperial.
    • Correspondência da adoção das fórmulas, para Constantino, ao desejo de pacificar o Império, ainda que ao preço de um compromisso, e não ao desejo de fixar exotericamente a doutrina, bem ao contrário.
    • A refutação da tese guenoniana requereria a admissão de que Nicéia inaugura uma nova apresentação oficial da fé, o que não se verifica.
  • Continuidade e Não-Inovação do Credo de Nicéia:

    • Unanimidade dos historiadores: Aloys Grillmeier, autor da mais recente e mais importante estudo dedicada à história da teologia cristológica, afirma: "Para o essencial, ele (o credo de Nicéia) não marca nenhum progresso por relação aos primeiros credos cristãos".
    • O Concílio, longe de inovar, apenas retoma "os Símbolos de fé das grandes Igrejas do Oriente", conforme declara o P. Amann.
  • A Origem do Símbolo de Nicéia: Uma Questão Debatida:

    • Questão ainda debatida sobre de qual Igreja o Símbolo foi retomado, com a solução prevalecente sendo pouco compatível com as afirmações de Guénon.
    • Declaração de Eusébio de Cesaréia, personagem importante do Concílio (embora de um anti-arianismo bastante hesitante), em uma Carta aos fiéis de sua Igreja, de que o Símbolo niceno é uma retomada daquele em uso em Cesaréia.
    • A confrontação minuciosa dos textos não autoriza a conclusão de Eusébio, que tinha interesse em fazê-la admitir.
    • Estimativa dos historiadores atuais de que se trata mais provavelmente do Símbolo batismal em uso na Igreja de Jerusalém.
    • Relevância da Igreja de Jerusalém por ser herdeira das tradições judaico-cristãs e por ter guardado por muito tempo costumes e fórmulas litúrgicas muito primitivas.
  • A Introdução do Termo Homoousios:

    • O surgimento do termo homoousios pela primeira vez neste texto particularmente solene da Igreja.
    • O termo homoousios tornou-se o sinal de reconhecimento e de agrupamento da ortodoxia católica, ordinariamente traduzido por "consubstancial", podendo ser também traduzido por "coessencial".
    • Origem do termo pela junção de homo = mesmo, e ousia = substância ou essência.
    • Recomendação da adoção do termo, de origem não-escritural, por Constantino com uma intenção irênica e, sem dúvida, por instigação de um Ocidental.
    • Instigação de Ossius, Bispo de Córdoba e conselheiro de Constantino, homem de grande reputação de santidade.
    • A adoção do termo não se deu sem reticência, explicável pela origem de um termo que podia parecer suspeito (embora por razões diversas) a certos Padres nicenos.
  • O Dossiê Filosófico-Teológico do Homoousios:

    • A primeira atestação do termo encontra-se na Carta a Flora (cerca de 160), um escrito de Ptolomeu, gnóstico Valentiniano da Escola Itálica.
    • Ptolomeu declara que "está na natureza do Bem de engendrar (...) seres semelhantes e consubstanciais a ele".
    • Origem do termo a partir de um certo "esoterismo" cristão reputado heterodoxo, apesar da reavaliação atual da gnose Valentiniana pelos especialistas.
    • Difusão do termo na literatura gnóstica, como testemunham as citações transmitidas pelo Adversus Haereses de S. Irineu de Lyon ou pelos Extratos de Teódoto compostos por Clemente de Alexandria.
    • Presença nos textos do esoterismo hermetista, em particular no Poimandrès (século II), e nos escritos de Plotino e de Porfírio (século III), para marcar o parentesco da alma com o divino.
    • Uso do termo por Orígenes na mesma época, primeiramente para criticar o emprego feito pela gnose heterodoxa do valentiniano "oriental" Heracleão, e depois, de forma normal, para designar a comunidade de essência que une o Pai e o Filho.
  • O Dossiê Eclesiástico do Homoousios:

    • Ocorrência do homoousios no dossiê eclesiástico em boa acepção, embora com hesitação.
    • Declaração de Atanásio sobre um debate levado perante o Papa Dionísio de Roma pelos cristãos de Alexandria por volta de 260: "bispos antigos, de Roma a Grande e da nossa própria cidade (Alexandria), há cerca de cento e trinta anos, incriminaram em seus escritos aqueles que diziam que o Filho era uma obra e não era consubstancial ao Pai".
    • O texto prova que homoousios era considerado uma marca da fé ortodoxa setenta anos antes de Nicéia por um certo número de Igrejas.
    • Significado de que o Filho era realmente Deus como o Pai, possuindo uma só e mesma ousia (realidade divina e absoluta), e não uma ousia "semelhante" (tese dos homé-ousianos).
  • Duplo Sentido e Ambivalência do Termo Homoousios:

    • Possibilidade de uso do homoousios para significar algo bastante diferente, além do sentido metafísico e erudito de identidade de essência.
    • Existência de um sentido popular que designava uma simples comunidade de matéria (o que Guénon chamaria uma comunidade de substância), como dois pedaços do mesmo pão ou do mesmo tecido.
    • Uso do homoousios por certos heréticos que negavam a distinção real do Pai e do Filho, em virtude da acepção popular, para significar essa não-distinção.
  • A Condenação do Homoousios e o Sabelianismo:

    • O caso de Paulo de Samósata, Bispo (escandaloso) de Antioquia: diz-se que o Concílio reunido naquela cidade em 268, ao mesmo tempo que o depôs, teria condenado o emprego de homoousios.
    • O caso dos sabelianos: o sacerdote Sabélio, o representante mais ilustre de uma escola teológica conhecida como monarquianismo ou modalismo (mais comumente designada como sabelianismo) no início do século III em Roma.
    • A doutrina sabeliana: há um único Deus, o Pai, que se encarna sob o nome de Filho, que morre na cruz e se espalha na Igreja sob o nome de Espírito Santo, negando a distinção das Pessoas e, com ela, a Trindade.
    • Apelo dos sabelianos ao termo homoousios para exprimir a não-distinção das Pessoas, tornando-o o sinal de agrupamento e a marca terminológica da heresia.
  • A Oposição Ariano-Sabeliana ao Homoousios:

    • Rejeição do termo homoousios por Ário em oposição aos sabelianos.
    • Reivindicação de Ário para Cristo de uma existência pessoal distinta do Pai, mas uma existência criada e ontologicamente diferente da ousia divina do Pai.
    • O dilema conforme Ário: ou o Cristo é Deus com os sabelianos, mas não é uma Pessoa (distinta do Pai); ou o Cristo é uma pessoa distinta com Ário, mas não é Deus e não pode ser dito "consubstancial" ao Pai.
    • Argumentação de Ário: declarar o Cristo "consubstancial" ao Pai não só o tornaria Deus por essência (sendo que ele é "Deus" por participação, como toda criatura), mas também dividiria a ousia divina em partes.
    • Ário declara que Maniqueu (Manès) explica que "o Filho é uma parte consubstancial (méros homoousion) do Pai".
    • Concepção de Ário no seu racionalismo antimetafísico: consubstancialidade unicamente no sentido de uma "comunidade de matéria" (dois fragmentos do mesmo pão são consubstanciais), rejeitando o uso teológico como afirmação inaceitável de uma divisão concreta da ousia divina.
    • Situação antes da abertura do Concílio em 325: homoousios era corrente, vindo de doutrinas esotéricas do gnosticismo e do hermetismo, usado em sentido decisivo por teólogos ortodoxos e representantes da Igreja magisterial, condenado por outros por implicar sabelianismo, e rejeitado pelos arianos pela mesma razão e para afastar qualquer risco de divinização ontológica do Filho.
  • A Decisão Nicena e a Incongruência da Hipótese Exotérica:

    • Acordo dos Padres nicenos em reter o homoousios após hesitação, desafiando a hostilidade de alguns, rompendo a indecisão prudencial de muitos e levantando para sempre a suspeita sobre o termo.
    • Incongruência da hipótese de que o Concílio visava inaugurar a era exotérica das formulações dogmáticas e oficializar o declínio da doutrina cristã em tais condições.

O Exaltamento Teologal dos Conceitos

  • A Dificuldade de Determinar o Significado do Homoousios para os Padres de Nicéia:

    • Relembrança da dificuldade em determinar a significação que o homoousios tinha para os Padres de Nicéia (e não a significação ulterior de unicidade de substância das Pessoas divinas).
    • Essa dificuldade, resultante dos dados incontestáveis da literatura pós-nicena, não faria sentido no caso de uma exoteriação formalmente declarada e constatável.
    • Admissão de que a dificuldade e a complexidade das discussões subsequentes à adoção do homoousios são normais se o Concílio convidou a inteligência teologal a um exaltamento especulativo inusitado.
    • Lentidão do espírito humano em compreender e a paciência de Deus, ensinamentos da história neste domínio.
  • A Reserva de São Atanásio e a Ausência de Dogmatismo:

    • S. Atanásio, campeão da ortodoxia nicena, demonstrou por muito tempo alguma reserva em relação ao "consubstancial".
    • Preferência de S. Atanásio por dizer que o Filho é "o engendrado da substância do Pai".
    • Recusa de S. Atanásio em condenar como heréticos aqueles que não conseguiam aceitar o homoousios, desde que aceitassem o seu sentido e aderissem à fé assim expressa.
    • Onde está o dogmatismo neste caso.
  • A Função de "Repere" e a Transposição Metafísica do Homoousios:

    • Admissão de que os Padres nicenos escolheram homoousios não para "encerrar" a fé, mas para "pontuar", "assinalar" e significar a fé analogicamente através da ideia de uma "identidade de substância".
    • O propósito não era "bloquear" o esforço da inteligência, submetendo-a a uma categoria definida (vulgarmente ou filosoficamente) do pensamento grego.
    • O propósito mais profundo e forte era chamar a inteligência a uma "transposição metafísica" do conceito de substância (ousia) na linha de sua significação mais ontológica e mesmo supra-ontológica.
    • A identidade de ousia in divinis só faz sentido sob a condição de liberar homoousios de sua significação ordinária de "comunidade de matéria" ou "de tecido", aquela que o racionalismo ariano lhe atribuía.
    • A necessidade de liberar homoousios de sua significação estritamente "ôntica", aquela que a filosofia corrente lhe atribuía.
    • Chegou-se ao ponto de se poder falar de uma verdadeira "deselenização" do dogma, já que a linguagem filosófica do médio-platonismo "falada" pelos Padres do século IV mal lhes oferecia a possibilidade de pensar essa identidade de ousia.
  • A Conversão Metafísica e o Caráter Esotérico Atingido:

    • O homoousios "trabalha" a inteligência teologal e a conduz pouco a pouco a uma profunda mutação do seu universo mental.
    • O Concílio convidou a inteligência humana a um verdadeiro superamento analógico dos hábitos conceituais.
    • O Concílio convidou a inteligência humana a uma verdadeira conversão metafísica para a transcendência do mistério trinitário.
    • Essa conversão proposta ao conjunto de todos os cristãos é um exemplo único na história religiosa da humanidade.
    • A luz fecundante dessa conversão não cessou de supranaturalizar os espíritos dois mil anos depois.
    • O termo homoousios reencontrava, em sua consagração nicena, o caráter "esotérico" de suas origens, mas realizado e sobre-elevado além de toda medida, em conformidade com a obra própria da fé cristã de assumir em perfeição toda nobreza humana.
  • O Testemunho de Eusébio de Cesareia sobre o Sentido Esotérico:

    • Testemunho manifesto da exortação à elevação espiritual e interiorizante da conhecimento oferecido por Eusébio de Cesaréia na Carta aos seus diocesanos.
    • O objetivo da Carta de Eusébio era apresentar a introdução de homoousios no Símbolo de fé e levá-los a aceitá-lo.
    • Eusébio não apela à obediência sem compreensão, mas sim ao sentido das doutrinas esotéricas.
    • Eusébio explica, a propósito da procissão do Filho a partir da substância do Pai e do termo homoousios: "Para se colocar no espírito de tais mistérios, convém apelar às palavras divinas e secretas".
  • A Direção da Inteligência Teologal e o "Terceiro Testamento":

    • O Concílio não pretendia aprisionar a doutrina no carcan (restrição, jugo) dogmático.
    • O Concílio queria apenas determinar irrevogavelmente em qual direção a inteligência devia se orientar para ser teologal.
    • A possibilidade de se recusar, ainda hoje, a se deixar "orientar", à maneira de Ário.
    • A possibilidade de se recusar, por hábito especulativo, a se deixar desapossar do saber filosófico e operar o "renovamento do intelecto" de que fala S. Paulo (Rm., XII, 2).
    • A necessidade de entrar em uma "metamorfose" (ibid.) conceitual.
    • A ausência de necessidade da revelação se ela devesse sempre repetir sabiamente as "verdades" fixadas por uma certa filosofia.
    • O propósito de Deus de nos ensinar algo que não sabíamos.
    • Nenhuma metafísica pode pretender medir a Deus o seu direito à palavra.
    • Nenhum metafísico pode proibir ao Espírito Santo de se exprimir como Ele quis se exprimir.
    • O único testemunho da vontade de Deus é aquele dado pela Igreja em sua função magisterial.
    • O rechaço da declaração dos socinianos no seu Catecismo de Racóvia (1605): "O dogma da Trindade é contrário à razão. É absurdo pensar que, pela vontade de Deus, que é razão e ama as suas criaturas, os homens devem crer algo de incompreensível e de inútil à vida moral, portanto à salvação".
    • Reconhecimento da obra Daquele que o Cristo prometeu enviar à sua Igreja para lhe "ensinar todas as coisas" (Joa., XIV, 26) e, particularmente, para lhe "ensinar o que é preciso dizer" (Luc., XII, 12), nos quatro primeiros Concílios ecumênicos (tradicionalmente comparados aos quatro evangelistas).
    • O "Terceiro Testamento" do Divino Paráclito, que poderia ser nomeado o Testamento teologal da dogmática cristã, que é um fenômeno religioso único no conjunto das religiões conhecidas, independentemente de seu conteúdo.

A Novidade e a Autoridade Incomparável de Nicéia

  • A Não-Inovação da Formulação da Fé e da Prática Conciliar:

    • A grande novidade do Concílio de Nicéia não foi a formulação da fé.
    • A grande novidade não foi a realização de um concílio, visto que a prática conciliar (ou sinodal) da Igreja foi constante desde o fim do século II, sem remontar ao Concílio de Jerusalém dos Atos dos Apóstolos (XV).
    • A "rica experimentação" da Igreja, durante o século III, do que é um agrupamento de bispos e de doutores, segundo "tipologias conciliais bastante diversificadas".
  • A Verdadeira Novidade: O Caráter Ecumênico:

    • A novidade e a autoridade incomparável de Nicéia, em relação aos sínodos que o precederam, vêm do fato de ter reunido, pela primeira vez, não todos os bispos, mas bispos de toda a Igreja.
    • O merecimento, por esse motivo, do título de ecumênico.
    • A manifestação da universalidade de sua fé pela Igreja, que não sancionava nenhuma descida exotérica da doutrina.
  • Conjurar o Perigo da Exoteriação Radical do Arianismo:

    • O esforço da Igreja em recordar a fé tradicional para conjurar o perigo de uma exoteriação radical que o arianismo triunfante fazia correr à doutrina.
    • A redução da doutrina pelo arianismo a um monoteísmo racionalizante.
    • A natureza fortemente exoterizante do arianismo se manifesta no plano teológico, mas também no plano litúrgico e sacramental.
    • O arianismo rejeita a regra do arcano (disciplina do segredo) nas celebrações batismais e eucarísticas.
    • S. Atanásio testemunha essa rejeição, reprovando os arianos por quererem representar os santos mistérios diante dos catecúmenos ou mesmo diante dos pagãos.
    • A reação do Concílio contra o arianismo, impondo condições muito mais severas para a admissão dos neófitos ao batismo e dos batizados aos outros sacramentos, notadamente à ordenação sacerdotal e episcopal, o que deve ser matéria para reflexão.