Excertos de toda obra de Guénon, por termos relevantes
Nenhuma distinção (relativa a modificações contingentes, como a distinção do agente, da ação e do objetivo ou resultado desta ação) invalida a unidade e a identidade essenciais de Brahma como causa (karana) e efeito (karya). O mar é o mesmo que suas águas e não é diferente (em natureza), embora as ondas, a espuma, os jatos, as gotas e outras modificações acidentais que estas águas sofrem existam separadamente ou conjuntamente como diferentes umas das outras (quando consideradas em particular, seja sob o aspecto da sucessão, seja sob o da simultaneidade, mas sem que sua natureza deixe de ser a mesma por isso). Um efeito não é outro (em essência) que sua causa (embora a causa, por outro lado, seja mais que o efeito); Brahma é um (enquanto Ser) e sem dualidade (enquanto Princípio Supremo); ele mesmo, não é separado (por limitações quaisquer) de Suas modificações (tanto formais quanto informais); Ele é Atma (em todos os estados possíveis), e Atma (em si, no estado incondicionado) é Ele (e não outro que Ele). A mesma terra oferece diamantes e outros minerais preciosos, rochas de cristal, e pedras vulgares e sem valor; o mesmo solo produz uma diversidade de plantas apresentando a maior variedade em suas folhas, suas flores e seus frutos; a mesma comida é convertida no organismo em sangue, em carne, e em excrescências variadas, tais como os cabelos e as unhas. Como o leite se muda espontaneamente em coalhada e a água em gelo (sem que esta passagem de um estado a outro implique, por sua vez, nenhuma mudança de natureza), assim Brahma Se modifica diversamente (na multiplicidade indefinida da manifestação universal), sem a ajuda de instrumentos ou meios exteriores de alguma espécie que seja (e sem que Sua Unidade e Sua identidade sejam afetadas, portanto sem que se possa dizer que Ele seja modificado na realidade, embora todas as coisas só existam efetivamente como Suas modificações). Assim a aranha forma sua teia de sua própria substância, os seres sutis tomam formas diversas (não corporais), e o lótus cresce de pântano em pântano sem órgãos de locomoção. Que Brahma seja indivisível e sem partes (como ele o é), não é uma objeção (a esta concepção da multiplicidade universal em Sua unidade, ou melhor, em Sua “não-dualidade”); não é Sua totalidade (eternamente imutável) que é modificada nas aparências do Mundo (nem alguma de Suas partes, já que Ele não as tem, mas é Ele mesmo encarado sob o aspecto especial da distinção ou da diferenciação, ou seja, como saguna ou savishesa; e, se Ele pode ser encarado assim, é porque Ele comporta em Si todas as possibilidades, sem que estas sejam de modo algum partes de Si mesmo). Diversas mudanças (de condições e de modos de existência) são oferecidas à mesma alma (individual) sonhando (e percebendo neste estado os objetos internos, que são os do domínio da manifestação sutil); diversas formas ilusórias (correspondendo a diferentes modalidades de manifestação formal, outras que a modalidade corporal) são revestidas pelo mesmo ser sutil sem alterar em nada sua unidade (uma tal forma ilusória, mayavi-rupa, sendo considerada como puramente acidental e não pertencendo em próprio ao ser que se reveste dela, de sorte que este deve ser considerado como não-afetado por esta modificação toda aparente). Brahma é todo-poderoso (já que Ele contém tudo em princípio), próprio a todo ato (embora “não-atuante”, ou antes por isso mesmo), sem órgão ou instrumento de ação qualquer; assim nenhum motivo ou objetivo especial (tal como o de um ato individual), outro que Sua vontade (que não se distingue de Sua onipotência), não deve ser atribuído à determinação do Universo. Nenhuma diferenciação acidental deve ser-Lhe imputada (como a uma causa particular), pois cada ser individual se modifica (desenvolvendo suas possibilidades) de acordo com sua própria natureza; assim a nuvem chuvosa distribui a chuva com imparcialidade (sem levar em conta os resultados especiais que provirão de circunstâncias secundárias), e esta mesma chuva fecundante faz crescer diversamente diferentes sementes, produzindo uma variedade de plantas segundo suas espécies (em razão das diferentes potencialidades respectivamente próprias a estas sementes). Todo atributo de uma causa primeira é (em princípio) em Brahma, que (em Si mesmo) é entretanto desprovido de toda qualidade (distinta). (Guénon HDV)