Minhas opiniões, Meus pensamentos, Minhas ações, Meu corpo, Minha mente. Mas onde está o proprietário?
(Wu Hsin)Frithjof Schuon – Cartas
Um homem vê um belo jardim, mas sabe: não verá sempre esse jardim, pois um dia morrerá; e sabe também: o jardim não existirá sempre, pois este mundo um dia desaparecerá. E sabe ainda: esse parentesco com o belo jardim é o dom do destino, pois, se um homem se encontrasse no meio de um deserto, não veria o jardim; ele o vê apenas porque o destino colocou-o, homem, aqui e não em outro lugar.
Mas na região mais íntima de nossa alma habita o Espírito, e nele está contido o jardim, por assim dizer, como uma semente; e, se amamos esse jardim — e como não amá-lo, já que é de uma beleza celestial? — faríamos bem em procurá-lo ali onde sempre esteve e sempre estará, isto é, no Espírito; mantém-te no Espírito, em teu próprio centro, e possuirás o jardim e, além disso, todos os jardins possíveis. Do mesmo modo: no Espírito não há morte, porque aqui és imortal; e, no Espírito, a relação entre o contemplador e o contemplado não é apenas uma possibilidade frágil; ao contrário, é parte da própria natureza do Espírito e, como ele, é eterna.
O Espírito é Consciência e Vontade: Consciência de si mesmo e Vontade dirigida a si mesmo; o Espírito puro é inseparavelmente uno com o Nome Supremo; por isso, a Oração é o caminho para o Si. Mantém teu si no Espírito pela Consciência e aproxima-te do Espírito pela Vontade ou pelo Amor; então, nem a morte nem o fim do mundo poderão tirar-te o jardim ou destruir tua visão. Tudo o que és agora no Espírito permanecerá assim após a morte; e tudo o que é teu agora no Espírito será teu também após a morte. Diante de Deus, não há ser nem posse senão no Espírito; tudo o que era exterior deve tornar-se interior, e tudo o que era interior tornar-se-á exterior: procura o jardim em ti mesmo, em tua indestrutível Substância divina; então isso te concederá um novo e imperecível jardim. Tudo o que amas exteriormente encontra-se na Oração, portanto prende-te a ela, habita nela e vive nela. A Oração é a semente de nossa eternidade.
É isto o que diz o Realizado: a verdadeira afirmação, a individualidade absoluta, não são a afirmação nem a individualidade conhecidas pelos homens; estas, ao contrário, pertencem à via da ilusão e da corrupção. As pessoas falam de possuir, e não sabem o que é a posse. Falam de “força”, mas o que nomeiam é apenas uma fábula. O Realizado diz: somente perdendo-se pode o Si tornar-se individualizado, deixando de “afirmar-se” para realmente ser indivíduo e Senhor de Si mesmo. Não se pode possuir enquanto se agarra; não se pode tornar mais agudo ao segurar. O Realizado desaparece — assim revela; esvazia-se — assim alcança o ser absoluto. Para atingir o cume, oculta o seu Si. Ao doar, adquire; ao doar, é rico. Solta, dissolve-se e ascende. Abandona o raio, abole o esplendor e fixa-se na origem invisível. Concentrado, realiza — disperso, fracassa. Da plenitude passa ao “vazio”. Aí reside a essência da plenitude, assim como no centro reside a essência da roda. Do movimento, passa àquilo que, sendo a causa real do movimento, é ele próprio imóvel. Do ser, àquilo que, em sua incorporeidade, é não-ser. “Si”, “não-Si”, “vontade” — todas manias! O ganho converte-se em perda. Quem se põe na ponta dos pés não cresce mais alto, nem o caminhar é um mero agitar de pernas. Quem se põe em evidência permanece na obscuridade; quem pensa ter chegado descobre-se repelido; mostrar-se é ser dependente; cuidar de si é corromper-se; fazer esforço é inútil, insensato e conduz ainda mais longe do caminho. Quanto mais “afirma” e quanto mais se exterioriza, tanto mais afirma o nada.
A menos que abandones o jogo da resistência, da propriedade e da tua vontade, não deixarás de ser enganado: o Caminho é outra coisa. Querer sem querer querer; agir sem querer agir; alcançar sem fazer; fazer sem ser o fazedor; elevar-se sem dominar. Reto, porém flexível; claro, embora não resplandecente — é isto o que diz Lao-tzu. Ser verdadeiramente consiste em não desejar ser. Lao-tzu inverte todos os “valores” humanos. Sorri-te, como a uma criança pequena, quando usas a máscara do “conquistador”, do “super-homem” ou daquele que “quebra mas não se curva”. Que ingenuidade! Ele diz acerca da água: nada há no mundo semelhante à água, pronta a assumir qualquer forma — e, contudo, nada é mais capaz de vencer o que é forte e rígido. A água não pode ser domada porque se adapta a todas as coisas; porque não oferece resistência, não pode ser capturada. A “virtude” do Céu imita-a. O flexível triunfa sobre o rígido, e o fraco triunfa sobre o forte. As ferramentas da morte são fortes e duras; as ferramentas da vida são sutis e flexíveis. As primeiras estão abaixo, as últimas estão acima. As últimas dirigem as primeiras; o incorpóreo penetra a impenetrabilidade da matéria.
O ponto importante a ser compreendido aqui é que é o apego à noção de propriedade individual das obras que atua como obstáculo à verdade suprema; pois esse apego constitui uma fortificação da particularidade, tanto subjetiva quanto objetivamente: subjetivamente, intensifica a consciência de um eu individual que trabalha para o Divino, mas que, não obstante, permanece separado d’Ele; e objetivamente, a própria obra é concebida em modo de separação, atada a um tempo particular e presumida como destinada a gerar, no futuro, uma recompensa determinada e proporcionalmente concebida.
Mesmo que alguém não aja em vista da recompensa, sua ação pode ainda ser qualificada como “apegada” na medida em que é realizada em conformidade com uma consciência fixa dessa cadeia de causalidade temporal e no quadro de uma relação ato-recompensa; tal consciência constitui um obstáculo à verdade suprema, a qual elimina essas distinções temporais por estar situada na eternidade, e que exclui a alteridade — a distinção entre o agente e Deus — porque é absolutamente Una.
P: Maharaj disse: permanece na “Eu-Souidade”, na Eu-Souidade pessoal...
K: Não, sê a Eu-Souidade. Ele nunca falava a uma pessoa. Ele não era um mestre. Sê consciência, não conhecendo a consciência, não possuindo a consciência. Isso é sempre romper o nó do Coração, o nó da propriedade. Ele jamais alimentava a ideia de que se deve possuir algo. Era a quebra permanente da posse. Não há dono da existência, isso é tudo. Sendo o que tu és, nada possuis, nem mesmo o nada. Pois nem sequer conheces o dono. Naquilo que tu és, não há dono nem nada a possuir.
P: Estou olhando a partir de meu ponto de vista, e Deus não tem ponto de vista...
K: Claro que tem, quando Ele olha a partir de teu ponto de vista, Ele tem um ponto de vista, mas isso não importa. Teu ponto de vista não é diferente do ponto de vista de Deus. És tu quem te faz diferente de Deus: “meu ponto de vista” – esse senso de propriedade, eis a raiz de todo desconforto.
Sonho de um meditador, sonho de minha ação pessoal. Isso é uma falsa evidência, porque há medo.
É uma falsa evidência pensar que é tua ação, que é teu corpo, tua existência; é uma mente ilusória, porque há uma experiência de mente e a propriedade de meu corpo, a propriedade de meu espírito, a propriedade de minha consciência. Mas tudo isso depende do pensamento-raiz “eu”, o qual já é uma falsa evidência de que há alguém que realmente existe.
Tudo começa falso, e o que deriva disso é falso. Falso, falso, falso. Mas, para que o falso possa ser, já é necessário que sejas Aquilo que és, para que o falso possa manifestar-se. Para que haja um “eu” duvidoso, duvidando ou não de si mesmo, Aquilo que tu és deve estar presente, tua natureza deve estar presente tal como é. Chama-a de natureza, chama-a de Coração, chama-a de aquilo que és — ela deve existir antes mesmo de o falso poder ser, e isso tanto com quanto sem o falso, com e sem qualquer coisa.
Mas não é nem pessoal nem impessoal, pois não há ninguém que o defina como pessoal ou impessoal. Porém, esse definidor pode aparecer nisso e desaparecer nisso. É como um hóspede que vem e vai. É como um fantasma que vem e um fantasma que vai. Mas o que tu és é isso.
Assim, “Eu sou Aquilo” seria Aquilo. “Eu Sou o que Eu Sou”, para ser Aquilo que é o “Eu Sou”. A pergunta mais apropriada seria “Sou eu?” — e há o “Eu Sou” natural, sem qualquer dúvida, há um “Eu Sou” sem dúvida. Mas nem é necessário pronunciá-lo. É simplesmente Aquilo.
Mas não é como se fosses o fundo distinto do primeiro plano, como se fosses consciência e esta fosse diferente daquilo. Não há possibilidade de te fazer diferente de algo mais. Isso é como um holocausto para o pequeno fantasma que sempre necessita de comparação. Ele gosta de perguntar: “Sou eu a consciência? Estou agora alcançando a consciência?” Isso já estava antes do antes. Ele sempre precisa comparar: antes eu estava em dificuldade, e agora estou em menos dificuldade porque estou consciente. Tudo isso necessita de alguém que busque uma vantagem; mas o “Sou eu – Eu Sou” jamais necessita de vantagem. Está simplesmente aí, ininterrupto; não podes deixar de ser isso. Tu és Aquilo.
Não o ofereço como ferramenta, apenas aponto para Aquilo que tu és. Naturalmente, por meio da pergunta “Sou eu?”, surge o “Eu Sou”, normalmente, quando há presença. Na ausência, não há questão alguma.
Outro atributo associado ao “sujeito” e à “subjetividade” pelos filósofos ocidentais é a “titularidade” — o seu senso de possuir as próprias ações e experiências. Enquanto “sujeitos”, um aspecto de nossa “subjetividade” é definido — sob esse ponto de vista ocidental — como o sentimento de que uma ação ou experiência é “minha”.
O pensamento oriental também há muito reconhece uma estreita relação entre o que compreende como o eu limitado ou “sujeito” e esse sentimento de posse ou de “meu-idade”. No entanto, em contraste com o pensamento ocidental, a filosofia ióguica vê esse sujeito “titular” como o maior obstáculo no caminho para a realização de um sentido de si superior e vastamente ampliado — um si idêntico à pura consciência ou à subjetividade absoluta enquanto tal.
Por isso, o princípio fundamental da filosofia ióguica e o objetivo principal da prática ióguica consistem em superar o “Anavamala” — a “mancha” ou “impureza” básica da consciência, que provém da identificação ignorante de nós mesmos e da subjetividade enquanto tal com o “ego” ou “sujeito” finito (“Ahamkara”), o mesmo “ego” ou “sujeito” que o pensamento ocidental, em sua própria ignorância, considera como algo que “possui” a consciência ou a subjetividade como sua “propriedade” titular e privada.
A libertação (moksha) não é um deixar ir ou uma rendição do eu ao Divino, nem a sua dissolução neste. É, antes, simplesmente e puramente, a renúncia à “auto-posse” — ao senso de “possuir” ou “ter” um eu. A consciência não pode — em princípio — ser reduzida à propriedade privada de qualquer eu de que se tenha consciência ou que se pense como “nosso”.
Por isso, mesmo o eu “liberado”, “consciente”, “experienciador” ou “conhecedor” não é um eu de que se possa ter consciência — nem um eu que “tenha” ou “possua” consciência. Pode apenas ser aquele eu que é consciência — singular e divina.
A libertação significa renunciar e restituir a Deus a propriedade de nosso senso de eu — àquela Consciência Divina da qual unicamente emanam todos os elementos de nossa experiência de si. A consciência e a identidade egóicas limitadas, por outro lado, não são senão a ilusão obscurecedora que provém de identificar-se com os elementos de nossas experiências e tomá-los como “nossos” — como “eu” ou “meu”.
Crendo “possuir” um eu ou uma identidade, o ego vive em constante temor de perder a sua “auto-posse” ou de ser “possuído”.