Skip to main content
id da página: 9880 sequidões da alma

sequidões da alma

FOME E SEDE — SEQUIDÕES DA ALMA

ASCETISMO E MISTICISMO

Tanquerey: COMPÊNDIO DE TEOLOGIA ASCÉTICA E MÍSTICA

Das securas

Para nos firmar na virtude, de tempo em tempos envia-nos Deus securas. Exponhamos: 1.º a sua natureza; 2.º o seu fim providencial; 3.º a maneira de proceder a seu respeito.

925. 1.º Natureza. As securas são uma privação das consolações sensíveis e espirituais, que facilitavam a oração e a prática das virtudes. Apesar de esforços muitas vezes renovados, não se sente gosto na oração, experimenta-se nela até enfado, cansaço, e o tempo parece que não tem fim; dir-se-iam adormecidas a fé e a esperança, e a alma, privada de toda a alegria, vive numa espécie de torpor; não opera já senão a golpes de vontade. É este, sem dúvida, um estado sumamente penoso; mas também tem suas utilidades.

926. 2.º Fim providencial, a) Quando Deus nos envia securas, é para nos desprender de tudo quanto é criado, até mesmo da doçura que se encontra na piedade, para aprendermos a amar a Deus só, e por si mesmo.

b) Quer também humilhar-nos, mostrando-nos que as consolações nos não são devidas, antes são favores essencialmente gratuitos.

c) Com elas também nos purifica mais, tanto das faltas passadas como das afeições presentes e de qualquer inclinação egoísta: quando se tem de servir a Deus sem gosto, por convicção e vontade, sofre-se muito, e este sofrimento é expiatório e reparador.

d) Robustece-nos, enfim, na virtude: porquanto, para continuar a orar e a praticar o bem, é preciso exercitar com energia e constância a vontade, e por meio deste exercício é que se fortifica a virtude.

927. 3.º Maneira de proceder. a) Como as securas vêm às vezes das nossas faltas, é preciso, antes de tudo, examinar seriamente, mas sem excessiva inquietação, se delas não somos responsáveis: 1) por certos movimentos mais ou menos consentidos de vã complacência e de orgulho; 2) por uma espécie de preguiça espiritual, ou, ao contrário, por uma contensão de espírito intempestiva; 3) pela busca das consolações humanas, de amizades demasiado sensíveis, de prazeres mundanos, porque Deus não quer nada dum coração dividido; 4) pela falta de lealdade com o diretor; «porquanto, uma vez que mentis ao Espírito Santo, diz S. Francisco de Sales, não é maravilha que Ele vos recuse a sua consolação» — E, encontrada a causa destas aridezes, é humilhar-se e esforçar-se por suprimi-la.

928. b) Se não lhes demos causa, importa utilizar bem esta provação. 1) O melhor meio para o conseguir, é persuadirmo-nos que servir a Deus sem gosto e sentimento é mais meritório que fazê-lo com muita consolação; que basta querer amar a Deus, para o amar, e que, enfim, o ato mais perfeito de amor é conformar a própria vontade com a de Deus. 2) Para tornar este ato mais meritório ainda, não há nada melhor que unir-se a Jesus que, no Jardim das Oliveiras, se dignou sentir o tédio e a tristeza por amor de nós, e repetir com Ele: «verumtamen non mea voluntas sed tua fiat». 3) Mas o que sobretudo importa é não perder nunca o ânimo, nem cercear nada dos seus exercícios, dos seus esforços, das suas resoluções; antes imitar a N. S. Jesus Cristo que, mergulhado na agonia, orou mais longamente, «fatus in agonia prolixius orabat».

929. Conselho ao diretor. Para ser bem compreendida pelos dirigidos esta doutrina sobre as consolações e securas, é necessário repeti-la muitas vezes; porque, apesar de tudo, eles creem que vão muito melhor, quando tudo corre à medida dos seus desejos, do que quando é necessário remar contra a corrente. Pouco a pouco, porém, faz-se luz; e as almas, que já não se envaidecem no momento da consolação, nem perdem o ânimo no tempo da secura, estão dispostas para fazerem progressos muito mais rápidos e constantes.