René Guénon
Excertos da tradução em português de Daniel Camarinha de "A GRANDE TRÍADE"
É necessário ainda acrescentar o seguinte: dois termos contrários ou complementares (e que, no fundo, são sempre mais complementares do que contrários em sua realidade essencial) podem estar, conforme o caso, em oposição horizontal (oposição da direita e da esquerda) ou em oposição vertical (oposição de alto a baixo), assim como já indicamos noutro lugar1
. A oposição horizontal é a de dois termos que, situando-se num mesmo grau de realidade, são, poder-se-ia dizer, simétricos em todos os aspectos; a oposição vertical assinala, ao contrário, uma hierarquização entre os dois termos, que, mantendo-se ainda simétricos e complementares, são, no entanto, tais que um deve ser considerado superior e outro inferior. Importa notar que, nesse último caso, não se pode situar o primeiro termo de um ternário do primeiro gênero entre os dois complementares ou no meio da linha que os junta, mas apenas o terceiro termo de um ternário do segundo gênero, pois o princípio não pode, de nenhum modo, se encontrar num nível inferior ao de um dos dois termos que se originam nele, mas é necessariamente superior a um e ao outro, enquanto a resultante, ao contrário, é verdadeiramente intermediária nesse sentido igualmente; e esse último caso é o da Tríade extremo-oriental, que pode, desse modo, ser disposta segundo uma linha vertical (Fig. 6)2
. Com efeito, a Essência e a Substância universal são, respectivamente, o pólo superior e o pólo inferior da manifestação e pode-se dizer que uma está propriamente acima e outra abaixo de toda existência; ademais, quando as designamos como o Céu e a Terra, isso traduz-se até, de modo muito exato, nas aparências sensíveis que lhes servem de símbolos3
. A manifestação situa-se, portanto, inteiramente, entre esses dois polos. E o mesmo se dá naturalmente com o Homem, que não só faz parte dessa manifestação, mas que constitui simbolicamente o próprio centro dela e, por essa razão, a sintetiza em sua integralidade. Assim, o Homem, colocado entre o Céu e a Terra, deve ser considerado, primeiramente, o produto ou a resultante de suas influências recíprocas, mas, em seguida, pela dupla natureza que ele tem de um e de outro, torna-se o termo mediano ou "mediador" que os une e que é, por assim dizer, segundo um simbolismo a que voltaremos, a "ponte" que vai de uma ao outro. Podemos exprimir esses dois pontos de vista através de uma simples modificação da ordem, na qual são enumerados os termos da Tríade: se a enunciamos na ordem "Céu, Terra, Homem", o Homem aparece nela como o Filho do Céu e da Terra; se a enunciamos na ordem "Céu, Homem, Terra", ele aparece nela como o Mediador entre o Céu e a Terra.
NOTAS