De fato, o conceito metafísico de Perfeição visualiza um estado de existência que não é desumano, pois sabemos que tal estado é sempre acessível em toda parte para qualquer pessoa que se forçar a atingir o ponto central interno da própria consciência e existir em qualquer região ou plano de existência; nem é "sem coração", a não ser que com coração queiramos indicar a sede da alma e da sentimentalidade; mas garantidamente não é humano. Por exemplo, em Chandogya Upanixade V.10.2 é exatamente como amanava purusha (pessoa não-humana) que o Filho e avatara eviterno que é Agni supostamente conduz para a frente Aquele Que Compreende e através do Sol Supernal encontrou o próprio caminho para o lado mais afastado dos mundos, caminho que é o "percurso dos Anjos" (devayana), em contraste com o dos Patriarcas (pitryana), que não vai além do Sol, mas conduz à recorporificação num modo de ser humano. E prevê-se que, mais cedo ou mais tarde, esse devayana possa levar ao que no misticismo doutrinário se chama "morte final da alma" ou "afogamento" da alma, que é o al-fana 'an al-fana dos sufistas; isso implica uma passagem (que vai até além da percepção consciente de uma divindade como ato) para um Supremo (para, paratpara em sânscrito) que fica além de todos os traços ou mesmo de uma multiplicidade exemplar, de modo nenhum inteligível. E lá, tão longe isso está de qualquer "reminiscência" possível daquelas que foram conhecidas ou amadas em outro ser, nas palavras de Eckhart, "ninguém me perguntará de onde vim nem para onde fui"; ou, nas palavras de Rumi, "ninguém tem conhecimento de cada um que entra, se é Fulano ou Beltrano".
Obviamente, isso ocorreu basicamente na Europa a partir do século XIII. No hinduísmo um homem é considerado um verdadeiro mestre que dá a qualquer indivíduo um acesso melhor às escrituras desse próprio indivíduo; pois "o caminho que os homens tomam de todos os lados é Meu" (Bhagavad Gita IV. 11). Clemente de Alexandria concede que "sempre houve uma manifestação natural do único Deus Todo-Poderoso entre todos os homens que pensam direito" (Mise. V); quase nas mesmas palavras do Bhagavad Gita citadas acima, Eckhart diz: "Qualquer que seja o caminho em que melhor encontrares Deus, segue esse caminho"; Dante não exclui do céu todos os filósofos pagãos; na tradição do Graal, Malory diz: "Merlyn made the round table in tokenyng of the roundenes of the world for by the round table is the world sygnifyed by ryghte. For ail the world crysten and hethen repayren into the round table" (Mort d'Arthur, XIV.2); todos estes podem ser contrastados com a Canção de Roland em que, quando Saragoça foi tomada, "mil francos entram nas sinagogas e nas mesquitas, cujas paredes com martelos e machados destroem. . . os pagãos são levados em multidões para a pia batismal para receber o jugo de Cristo".
A Escuridão e a Luz pertencem respectivamente ao asuratva e ao devatva d'Ele e permanecem n'Ele, que é asura e deva, Titã e anjo, sarpa e aditya; enquanto isso, do ponto de vista do Orientador do Caminho, os reflexos de todos eles no espaço e no tempo são o mal e o bem. No hinduísmo, "a Escuridão que existe n'Ele chama-se Rudra" (MU. VI.2) e está representada nos nomes e tons de Kali e Krsna; na yoga cristã, o Raio Negro ou Escuridão Divina, que é a "tranquilidade da cor negra" e "o escuro imóvel que não é conhecido por ninguém a não ser por Ele, em quem o escuro reina, de Eckhart (cf. "nuvens e escuridão profunda", no Deuteronômio, 4,11), já é mencionado no Codex Brucianus e por Dionísio e passa a ser o tema da contemplado in caligine. Quanto à propriedade da expressão "yoga cristã", temos de observar apenas que as consideratio, contemplatio e excessus ou raptus de São Bernardo correspondem exatamente a dhrana, dhyana e samadhi.