Lê-se no Sahih (d'Al-Bukhari) que, quando da construção da Caba, Muhammad, ainda muito jovem, achava-se ali em companhia de seu tio Al-Abbas. Ao levar a Pedra Negra2 (para colocá-la no devido lugar, no novo edifício), Muhammad teve que servir-se de sua capa, com o que se descobriu pondo a nu parte de seu corpo, o que lhe motivou a perda dos sentidos, voltando a si somente depois que lhe cobriram o corpo. Convidado a um banquete de bodas onde não faltavam os divertimentos, caiu num sono profundo, acordando só com o levantar do sol, de modo que não tomou parte na festa. Evitou esta tentação, graças a uma disposição natural dada por Deus. Com os tempos, chegou ao ponto de se abster de alimentos que podiam ser desagradáveis ao próximo; jamais tocou em cebola ou alho. Ao perguntarem-lhe a razão, respondia: "Muitas vezes tenho que me entreter com pessoas diferentes daquelas com quem tendes o hábito de falar". Vejam-se as indicações que dá a sua mulher, Khadija, no momento em que o Profeta recebia inesperadamente a primeira revelação. Querendo saber o que de fato se passava com ele, disse-lhe: "Coloca-me entre ti e tua capa". Mal acabou de fazê-lo, o mensageiro (celeste) afastou-se. "Com certeza, disse ela então, ele não é um demônio; certamente é um anjo", querendo significar que os anjos não se aproximam das mulheres. Perguntou ela ainda: "Quando o anjo vem visitar-te, qual o traje de que ele gosta? — O branco e o verde, respondeu Muhammad. — "Certamente que é um anjo", disse ela. Por estas palavras, Khadija lembrava que o verde e o branco são cores próprias de tudo que é bom e dos anjos, enquanto que o preto convém somente ao que é mau e aos demônios. Poderíamos citar muitos outros traços semelhantes.
Um outro sinal que caracteriza as pessoas inspiradas é seu zelo em recomendar aos homens a oração, a esmola, a pureza dos costumes e outras obras de religião. Khadija, tendo visto o Profeta assim proceder, ficou convencida da veracidade de sua missão. Procede da mesma origem a convicção de Abu Bacr. Ambos, para se certificarem da veracidade da missão de Muharnmad, nunca procuraram outra prova senão a tirada da conduta do Profeta e de seu carácter. Lemos no Sahih que Heráclio, ao receber a mensagem em que o Profeta o convidava a abraçar o Islame, mandou vir a Abu Sufian e os outros Coraixitas de passagem na sua cidade, para interrogá-los sobre Muharnmad. Entre outras coisas, perguntou o que (o novo reformador) os mandava fazer. Respondeu Abu Sufian: "Ele nos recomenda a oração, a esmola, a liberalidade e a pureza dos costumes". Acabando suas indagações, o Imperador Bizantino disse, concluindo: "Se isto for verdade, não há dúvida que Muharnmad é profeta e sua dominação estender-se-á sobre tudo o que tenho agora debaixo de meus pés"! A pureza de costumes a que alude Heráclio3 , é o sinônimo de "Ismat" (ou cuidado de evitar o pecado). Vê-se por aí que este príncipe achava que o procedimento virtuoso de Muharnmad, o seu zelo em propagar a religião e a sua piedade bastavam para demonstrar a veracidade de sua missão. Para crer, Heráclio não pedia milagres. O que prova que a virtude e o zelo, relativamente à religião, constituem sinais para reconhecer os homens que possuem o dom da profecia.
O alto conceito que eles desfrutam entre seus compatriotas, é outro sinal que serve para distingui-los. Lê-se no Sahih: "Deus nunca mandou aos homens um profeta que não dispusesse de forte apoio por parte de seu povo" ou, segundo outra versão: "que não tivesse bastante fortuna entre os seus". Esta última lição é fornecida por Al-Hákim4 , numa correção ao texto do Sahih de Al-Bukhari e ao de Muslim. O Sahih nos ensina que, no interrogatório feito por Heráclio a Abu Sufian, o príncipe perguntou-lhe: "Que caso fazem de Muhammad, entre vós? — É tido em alta consideração", respondeu o Coraixita. — "De certo! exclamou Heráclio; os profetas recebem sua missão quando cercados pela estima de seus compatriotas", isto é, quando têm um partido bastante forte para protegê-los contra as violências dos infiéis, e para apoiá-los, até que tenham cumprido sua missão e satisfeito a Deus lutando até o final triunfo da religião e do partido que a professa.
Outro sinal, são as manifestações que vêm confirmar a veracidade dos convidados. Consistem em ações acima do poder humano e, com razão, são chamados "Mujizat", isto é, coisas que desafiam o poder do homem. Não pertencem à categoria das coisas que Deus pôs ao alcance do homem, mas sim, a um domínio fora da influência de suas forças.
NOTAS: