ABHINAVAGUPTA. La lumière sur les tantras: chapitres 1 à 5 du Tantrāloka. Lilian Silburn; André Padoux. Paris: De Boccard, 1998.
A Graça Divina e a Natureza da Liberação no Tantraloka
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Embora as cinco funções de Siva sejam aspectos indissociáveis de sua atividade, a graça (anugraha) é considerada a mais elevada, sendo a essência mesma do Senhor, que jamais pode ser concebida separada de sua energia. Esta energia é definida como uma consciência viva que é graça para com o mundo (lokanugrahavimarshamayi), permitindo que sujeitos conscientes dignos alcancem a liberação nesta vida ao serem absorvidos na energia divina. A graça é independente do karman e das ações humanas, procedendo unicamente do favor divino (prasada), sendo frequentemente designada por Abhinavagupta como shaktipata (queda ou descida da energia) para enfatizar sua natureza inopinada, imprevisível, livre e gratuita. Essa energia, que pode ser entendida como a descida de forças pacíficas e propícias que revelam o Ser, não vem apenas do exterior, mas nasce subitamente nas profundezas do coração para desabrochar em uma consciência inseparável da Consciência divina, pois nada existe fora de Siva. É a própria liberdade de Deus que, após se ocultar por jogo sob formas limitadas, toca novamente sua própria essência e a revela em toda a sua pureza.
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A graça de Siva, embora gratuita e incondicionada, manifesta-se com intensidades variadas, classificando-se em três graus principais (intensa, média e fraca), cada um subdividido em três, totalizando nove tipos de descida de energia.
- A graça muito intensa (tivrativra) confere espontaneamente a liberação na morte do corpo e independe do esforço humano, relacionando-se com a "não-via" (anupaya) onde não se aspira a nenhum meio, sendo um movimento onde a alma, idêntica a Siva, retorna a ele.
- A graça intensa mas moderada (tivramadhya) elimina a ignorância e concede a Grande Consciência iluminadora (pratibham mahajnanam) sem a necessidade de mestres externos, tornando o indivíduo um mestre "espontâneo" (svayambhu) ou não formado por outrem.
- A graça intensa mas suave (tivramanda) faz nascer o desejo de encontrar um mestre verdadeiro que concederá a iniciação, levando à liberação em vida (jivanmukti) e à identificação imediata com Siva.
- A graça média (madhya) exige esforço pessoal e não surge espontaneamente; seus subgraus determinam se a convicção da identidade com Siva ocorrerá na morte, ou após o desfrute de experiências mundanas nesta ou em outras vidas.
- A graça fraca (manda) implica um desejo de fruição crescente e depende de ritos e práticas para que o indivíduo se identifique com Siva após numerosos renascimentos, correspondendo aos meios do anavopaya.
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Toda a experiência mística está intrinsecamente ligada à graça, pois é ela que determina a via percorrida, o mestre encontrado, a iniciação recebida e até o sistema religioso adotado. Uma graça intensa corresponde a uma via sem gradação, enquanto uma graça menos intensa estabelece vias progressivas (krama) cujas etapas devem ser percorridas até a fulguração da intuição iluminadora. A progressão nos níveis cósmicos, desde a maya até os planos da manifestação pura e de Siva, obedece à intensidade dessa queda de energia. Consequentemente, os ritos e as diversas formas de iniciação (como a do samayin, putraka ou sadhaka) dependem da graça para sua eficácia e para a velocidade com que o adepto atinge os planos elevados ou a condição de mestre. Até mesmo a pertinência a uma tradição específica, como a do Trika, é resultado de uma graça superior.
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A onipresença de Siva e o fato de ele ser o único ator no mundo implicam que a graça está operando em toda parte e que a liberação depende exclusivamente dela, o que, na perspectiva do não-dualismo, não torna o ser humano um joguete passivo, mas afirma radicalmente sua liberdade. Siva está no coração da realidade humana, e a consciência individual atinge a plenitude ao se reconhecer como autora das cinco atividades divinas (emissão, conservação, reabsorção, obnubilação e graça) que ocorrem constantemente em si mesma. Para o yogin, a adoração e o yoga são atos perpétuos onde ele se percebe como o agente livre dessas atividades, identificando toda a sua vida com a vida divina. A liberação é plenitude e não apenas emancipação, consistindo no desdobramento da própria essência e na consciência de Si em todas as manifestações do jogo divino, sem abandono do mundo.
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As vias descritas no Tantraloka não devem ser concebidas como caminhos externos que param no limiar do objetivo, mas sim como totalidades onde a distinção entre meio (upaya) e fim (upeya) desaparece na intuição da Consciência indiferenciada. A distinção entre via e meta é um erro do conhecimento empírico, pois Siva ilumina e constitui a própria via. Seguir uma das vias é, portanto, já participar da liberação, a qual é o conhecimento experiencial da Realidade suprema como pura Luz-Consciência (prakasha-samvit).
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O Absoluto é caracterizado por uma energia (shakti) essencialmente viva, dinâmica e livre, que possui três aspectos hierarquizados: vontade (iccha), conhecimento (jnana) e ação (kriya).
- Iccha é o impulso criador inicial, não discursivo e espontâneo, que o yogin deve reencontrar na via de Siva (shambhavopaya).
- Jnana é a tomada de consciência lúcida e global daquilo que foi desejado, tendendo à não-discursividade, predominante na via da energia ou do conhecimento (shaktopaya).
- Kriya é a concretização do que foi desejado e conhecido, estendendo-se do conhecimento discursivo à ação ritual e yogica, sendo o campo da via do indivíduo (anavopaya ou kriyopaya).
- Abhinavagupta organiza o sistema dessas vias baseando-se no Malinivijayottara Tantra (MVT) e no ensinamento de seu mestre Sambhunatha, sendo possivelmente o primeiro a estruturar formalmente o sistema dos três upaya precedidos pelo anupaya. Existe ainda a menção a energias supremas de pura Consciência (cit) e Felicidade (ananda), completando cinco energias correlatas às cinco funções.