ABHINAVAGUPTA. La lumière sur les tantras: chapitres 1 à 5 du Tantrāloka. Lilian Silburn; André Padoux. Paris: De Boccard, 1998.
Tantraloka (resumo capítulo 1, vv. 22-51)
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A Natureza da Ignorância e do Conhecimento como Causas do Devir e da Libertação
- A ignorância constitui a causa incitadora fundamental do fluxo universal, denominado samsara, enquanto o conhecimento se estabelece como a causa única e exclusiva da libertação, uma premissa amplamente proclamada pelos tratados e corroborada pelo Malinivijayottaratantra; tal ignorância não deve ser compreendida como uma substância material, tese refutada por Abhinavagupta, mas sim como a impureza fundamental que dá origem ao broto do devir.
- Esta ignorância é descrita como trevas e conhecimento limitado, originada pelo ato de livre ocultação da própria essência pelo Senhor, resultando em uma concepção errônea que confunde o eu com o não-eu; trata-se da impureza atômica ou de finitude, o anavamala, e não de uma impureza substancial que exigiria ritos de ação para sua remoção, conforme esclarece Utpaladeva ao definir a dupla impureza como conhecimento sem liberdade e liberdade sem conhecimento.
- Abhinavagupta e seu comentarista Jayaratha elucidam que a ignorância apontada como raiz do samsara é a espiritual e não a intelectual, visto que a ignorância intelectual, residente no intelecto, é posterior ao corpo e ao próprio samsara; o corpo, formado por órgãos sensoriais e intelectuais, é causa da ação e manifestação da impureza de ilusão, ou mayiyamala, tornando o conhecimento intelectual uma consequência e não a causa primária do aprisionamento existencial.
- A simples remoção da ignorância intelectual não garante a libertação, pois mesmo que surja um conhecimento intelectual dotado de puras construções mentais, ou vikalpas, o fluxo do devir pode persistir se a ignorância espiritual não for erradicada; a iniciação visa purificar os laços espirituais, garantindo que, independentemente das imperfeições remanescentes no pensamento, a libertação final seja alcançada, pois o conhecimento espiritual é, por essência, a perfeita compreensão e a massa densa de luz consciente e felicidade.
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Definição de Ignorância e Interpretação dos Sivasutras
- O termo ignorância não designa uma mera ausência de conhecimento, o que acarretaria uma definição excessivamente ampla aplicável a objetos inanimados que não transmigram, mas refere-se, antes, a um conhecimento incompleto e imperfeito que não ilumina a realidade a ser conhecida em sua totalidade, conforme a exegese dos Sivasutras proposta por Abhinavagupta.
- A análise dos aforismos dos Sivasutras, especificamente "o Ser é consciência" (caitanyam atma) e "o conhecimento é o laço" (jnanam bandhah), confirma a concepção de ignorância como conhecimento limitado; no primeiro aforismo, o termo caitanya implica uma liberdade pura e absoluta, sem distinções, enquanto no segundo, o conhecimento vinculado à dualidade e à ação instrumental revela-se como um laço que deve ser cortado, pois a ignorância nada mais é do que o desdobramento da dualidade vazia de realidade.
- Jayaratha observa que, ao se interpretar o segundo sutra como "ajnanam bandhah" ou não-conhecimento, reafirma-se que a dualidade, ao separar agente, objeto e atividade, oculta a essência plena e não-dual da consciência, fazendo com que os mundos e corpos sejam percebidos como produções mentais múltiplas; essa limitação do conhecimento constitui a tripla impureza que deve ser abandonada para que a verdadeira natureza se revele.
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A Totalidade do Conhecimento e a Crítica às Doutrinas Parciais
- A libertação, ou moksha, não é uma entidade particular separada do Eu que é liberdade, mas sim o desdobramento progressivo e perfeito do conhecimento sobre os níveis do cognoscível, que elimina gradualmente os aspectos correspondentes do fluxo do devir; seguindo o sistema dos seis caminhos cósmicos, ou sadadhvan, a consciência ilumina e reabsorve em si as energias, os princípios constitutivos e os mundos.
- Abhinavagupta rejeita as visões parciais dos idealistas budistas Yogacara e Madhyamika, bem como o dualismo do Samkhya, argumentando que afirmações como "não sou maculado", "sou vazio" ou "sou desprovido de atividade" libertam apenas de aspectos específicos do samsara e de erros isolados, não conferindo a verdadeira libertação que exige a isenção de toda e qualquer limitação.
- O verdadeiro liberado é aquele que possui o conhecimento da totalidade dos níveis do cognoscível sem restrições, não admitindo ignorância sobre nenhum aspecto da realidade; Jayaratha complementa opondo os atos de tomada de consciência da objetividade, que causam contração, à tomada de consciência da subjetividade suprema, que é a única verdadeiramente libertadora.
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As Duas Formas de Ignorância e Conhecimento: Espiritual e Intelectual
- Conforme o ensinamento de Siva, tanto o conhecimento quanto a ignorância apresentam-se sob duas formas distintas: a espiritual, ou paurusa, e a intelectual, ou bauddha; a ignorância espiritual é identificada como a impureza ou mala, um véu que encobre a natureza sivaica de plenitude e atividade, decorrente da condição natural do ser limitado e não de um contato impuro externo.
- A ignorância intelectual manifesta-se através de noções determinadas e limitadas, como "conheço isto assim", causadas pelo reflexo da luz no indivíduo entravado pelas seis couraças ou kancukas (tempo, restrição, apego, saber limitado, limitação e ilusão), situando-se no nível do intelecto; existe um reforço mútuo entre a ignorância espiritual e a intelectual, assim como ocorre entre os conhecimentos correspondentes.
- Quando as tendências inconscientes do ser asservido se esgotam, o conhecimento espiritual floresce como uma consciência indiferenciada capaz de apagar a dualidade; paralelamente, o conhecimento intelectual, ou bauddhavijnana, é definido como a construção mental ou vikalpa que se desdobra em harmonia com o conhecimento do Eu, permitindo a percepção da identidade com o universo mesmo diante do fluxo dos pensamentos.
- A destruição da ignorância espiritual ocorre por meio da iniciação e outros meios, mas seu efeito pleno de conhecimento revela-se claramente apenas na dissolução do corpo após a morte; contudo, a libertação em vida, ou jivanmukti, é alcançada quando, além da remoção da ignorância espiritual, a ignorância intelectual é também erradicada, permitindo que a libertação esteja presente de forma tão tangível quanto um fruto na palma da mão.
- A iniciação torna-se verdadeiramente libertadora quando precedida ou acompanhada pelo conhecimento intelectual, pois embora o rito destrua a impureza espiritual, é o conhecimento intelectual, obtido pelo estudo dos tratados que indicam a natureza real do cognoscível, que extirpa as construções mentais enraizadas; somente o mestre que conhece perfeitamente os textos pode conferir tal iniciação completa.
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Testemunho das Escrituras e Conclusão sobre a Libertação
- Veneráveis mestres como Khetapala e obras sagradas como os agamas Raurava, Svayambhuvama e Matanga confirmam a doutrina da dupla ignorância e conhecimento, atestando que o estado de servidão provém da impureza humana sem começo e que a condição humana é um conjunto de laços devidos à ignorância do poder da natureza verdadeira; o conhecimento de Siva é o que prevalece quando se está livre dos laços da ação e da ilusão.
- O Matangaparamesvaragama descreve o conhecimento verdadeiro como a eclosão do estado de Siva que consome a ignorância como fogo em feno seco, permitindo aos seres realizados ver o domínio livre de todo mal; assim, se a ignorância espiritual desaparece pela iniciação mas a intelectual persiste, o indivíduo permanece sujeito aos vikalpas até a morte, momento em que obtém a libertação.
- Por outro lado, quando a ignorância intelectual cessa e as construções mentais são extirpadas pela raiz através do estudo e da compreensão, a libertação é obtida imediatamente ainda nesta vida; esta constatação é finalizada com a citação do venerável Nisatanatantra, que distingue aquele cuja consciência permanece ligada aos vikalpas e só atinge Siva após a morte, daquele cuja consciência livre de vikalpas vê o Eu imutável e é libertado instantaneamente.