O Novo Mundo passa a se tornar o símbolo de toda descoberta, Francis_Bacon inscreve o signo desta nova aventura do ocidente, fazendo gravar sobre a página título de seu Novum Organum, publicado em 1620, uma caravela com as velas ao vento, atravessando as colunas de Hércules, limite tradicional do Velho Mundo. Numa época de antagonismo aberto ao pensamento escolástico, e em particular aristotélico, Bacon afirma a sua intenção de renovar.
No afã de materializar seus sonhos, seus mitos, suas profecias o Ocidente projeta sobre o Novo Mundo, sua visão do Paraíso. O nenhum lugar, a Utopia, tem agora suas coordenadas espaciais e temporais. Em meio a força deste imaginário surgem os primeiros grandes escritos utópicos do século XVI, mas com uma grande diferença, Tomas More e seus êmulos (Francis Bacon, Johannes_Valentinus_Andreae, Campanella, entre outros) insistem na irrealidade e na gratuidade de seus quadros sociais.
A imaginação utópica, no entanto, vem contaminada pela descoberta do Novo Mundo. A representação das cidades ideais tem lugar dentro de uma cartografia que entremeia ficção e ciência, tradição simbólica e viagens históricas. A nova atualidade geográfica pela conquista do Novo Mundo sustenta o décor dos espaços sociais imaginados pelos utopistas do séc. XVI e XVII.
Tomemos como exemplo a Utopia de Tomas More, jurista, magistrado, membro do conselho privado do rei, tesoureiro da Coroa, chanceler da Inglaterra, enfim amigo de Henrique VIII. Por sua desaprovação ao comportamento do rei, More foi demitido e obrigado a prestar juramento contra o sumo pontífice. Por sua recusa foi condenado ao enforcamento e ao esquartejamento, sentença substituída pela clemência de Henrique VIII, pela simples decapitação. Esses detalhes de sua vida, servem para demonstrar sua coragem e determinação, tão bem retratadas em sua obra.
A Utopia foi publicada pela primeira vez em Louvain, em novembro de 1516. Sendo acolhida entusiasticamente pelos humanistas entre os quais Erasmo, que viram nesta obra as influências de Platão e de Santo Agostinho. Com efeito, em 1496 More deu em Oxford uma série de conferências sobre a Cidade de Deus. Em 1499, encontrou Erasmo com quem traduziu os Diálogos de Luciano de Samozate cuja leitura lhe despertou o estilo crítico aplicado em sua Utopia.
Falta ainda um ingrediente, para completar a receita final de sua Utopia. Em 1515, More tem um encontro importante com um navegador quando de sua missão à anvers para negociar a reabertura das transações comerciais entre a Inglaterra e os Países Baixos.
A Utopia é uma ilha. Esta dividida em 54 cidades, como a Inglaterra da época, em 54 condados. Como a Inglaterra também sua capital está atravessada por um rio, e é povoada por marinheiros e comerciantes. O sistema político é uma espécie de monarquia patriarcal, a agricultura ocupa um lugar privilegiado por sua pureza e sua “naturalidade”.
A Utopia não é uma cidade terrestre em busca da cidade de Deus, nem a arca da salvação da humanidade. Ela quer apenas garantir sobre a terra uma vida decente para o homem, condenando o espírito de lucro, a competição e o comércio interior. Propondo a Utopia como tema de reflexão, Thomas More convida os homens responsáveis da sociedade à uma reforma em conformidade com a razão, infundindo um espírito novo. Em sintonia com a República de Platão, a Utopia foi concebida pela visão de um homem de ação do século XVI, preocupado em conciliar as tradições do ocidente com os ensinamentos da filosofia grega com o espírito do século.
Por último, um outro elemento merece ser assinalado na Utopia de Tomas More, o impacto da aventura marítima do ocidente e da descoberta do Novo Mundo. Se os primeiros navegadores pensavam ter encontrado ao final de seus périplos uma humanidade original, recém saída das mãos do Criador e estranha às preocupações da Europa, eles se desencantaram rapidamente. Suas descrições com o passar do tempo caíram no descrédito, embora permanecesse a ideia de estruturas sociais perfeitas.
Durante muito tempo, a descoberta do novo mundo continuará a exercer sua influência sobre o pensamento europeu. Campanella denominará Cidade do Sol, o seu sonho de uma sociedade melhor, Bacon o denominará Nova Atlântida, e Johann Valentin Andreae vai reconhecê-la em seu manifesto Rosa-Cruz.
Entretanto com o reconhecimento dos próprios navegadores de que não haviam alcançado o Paraíso terrestre, já fez dirigir no século XVII o pensamento utópico a imaginar viagens interplanetárias, como a do pároco Godwin em seu livro As aventuras de Domingo Gonzáles, e do pároco Wilkins, O descobrimento de um mundo na lua, ambos publicados em 1698
BIBLIOGRAFIA
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SERVIER, Jean (1967), Histoire de l’utopie. Paris, Gallimard.
WUNENBERGER, Jean-Jacques (1979), L’utopie ou la crise de l’imaginaire. Paris, Jean Pierre Delarge.