Um tipo particularmente problemático de talento desviado de sua verdadeira vocação é o romancista. Enquanto na Idade Média os romances ainda se inspiravam em mitos, lendas, ideais religiosos e cavalheirescos, a partir de uma certa época tornaram-se cada vez mais profanos 1
, ou mesmo tagarelas e insignificantes: os seus autores, em vez de viverem as suas próprias vidas, viviam sucessivamente as vidas das suas personagens imaginárias. Um Balzac, um Dickens, um Tolstói, um Dostoiévski viviam à margem de si mesmos, davam seu sangue a fantasmas e incitavam seus leitores a fazer o mesmo, a fracassar em suas vidas mergulhando nas dos outros, com a circunstância agravante de que esses outros não eram nem heróis nem santos e que, aliás, eles nunca existiram. Essas observações podem ser aplicadas a todo esse universo de sonhos que é a “cultura”: à força de ópio literário, cantos de sereias, objetivações vampíricas e, no mínimo, inúteis, vivemos à margem do mundo natural e de suas exigências e, portanto, à margem — ou no antípoda — da “única coisa necessária”. O século XIX — com seus romancistas tagarelas e irresponsáveis, seus “poetas malditos”, seus criadores de óperas envenenadoras, seus artistas infelizes, enfim, com toda a sua idolatria inútil e todos os seus becos sem saída de desespero — o século XIX, digamos, estava fadado a se chocar contra uma parede, fruto de sua própria absurdidade; assim, a Primeira Guerra Mundial 2
foi para a “belle époque” o que foi o naufrágio do “Titanic” para a sociedade elegante e decadente que se encontrava a bordo, ou o que foi Reading Gaol para Oscar Wilde, analogamente falando.
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Cervantes é, em certos aspectos, uma exceção — certamente não a única — pelo fato de sua obra veicular elementos de filosofia e simbolismo que lembram Shakespeare. Como gênero literário, o teatro é muito menos problemático do que o romance, mesmo que seja apenas por seu caráter mais disciplinado e menos exigente. As peças de Calderón prolongam os “mistérios” da Idade Média — em vários graus — e exercem uma função didática e espiritual, à semelhança das tragédias antigas, que pretendiam provocar uma catarse.
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Da qual a Segunda Guerra Mundial foi apenas uma continuação tardia e o ponto final.