SHAYEGAN, Daryush. Les Relations de l’hindouisme et du soufisme: d’après le “Majma 'al-bahrayn” de Dârâ Shokûh. Paris: Éditions de la Différence, 1979.
🕌 O Dhikr no Islã e a Busca por Deus
- O dhikr, na gnose islâmica, é a menção, a lembrança e a invocação do nome de Deus, baseado no dito corânico: "Invocai-Me! e Eu Me lembrarei de vós" (II: 152).
- Segundo Najmoddin Razi, o véu da inconsciência provém de um esquecimento que se originou na pré-eternidade, quando o Espírito foi criado, e acentuou-se com as descidas da alma para o mundo material (mundo da multiplicidade), levando ao esquecimento total de Deus.
- O esquecimento é uma doença no coração, e o Corão (IX: 125) diz: "Enquanto aqueles em cujo coração há um mal, acrescentam sujidade à sua sujidade", e a cura administrada na "Casa de Cura do Corão" (Shafakhane-ye Qoran) é a menção e a lembrança de Deus, o antídoto do esquecimento.
- O Corão (XXXIII: 41) ordena: "Ó vós que credes! invocai muito Allah", e o dhikr é o remédio prescrito por Deus para curar o mal primordial que obscurece o olho do coração e impede a participação nos desvelamentos luminosos da visão de Deus.
- A forma por excelência do dhikr, segundo Najm Razi, é a primeira parte da shahada: La illaha illa'llah ("Não há Deus senão o Próprio Deus"), uma "Palavra excelente" que se eleva a Ele (Corão XXXV: 10).
- A shahada tem uma parte negativa (la ilaha) que nega tudo-o-que-não-é-Deus, e uma parte positiva (illa'llah) que afirma exclusivamente a lembrança de Deus.
- O dhikr deve atuar como um tratamento alquímico, negando o sabor do vinagre com o la ilaha para revelar o gosto do açúcar com o illa'llah, curando a secreção biliosa da inconsciência.
- Pela afirmação positiva de Deus, os laços que unem o Espírito a tudo-o-que-não-é-Deus são cortados, e a beleza de illa'llah se manifesta por trás dos véus da glória divina.
- O resultado do remédio "Invocai-Me! e Eu Me lembrarei de vós" é que "Toda coisa perece exceto Sua face" (Corão XXVIII: 88); o místico que pratica o dhikr se separa do revestimento das letras e do som, e o mistério desse versículo lhe é revelado na teofania da luz gloriosa da divindade.
🔑 Dhikr e a Transmissão Iniciática
- Najm Razi distingue dois tipos de dhikr: o dhikr imitado (ouvido e praticado por representação mental, com pouco efeito) e o dhikr real da Palavra divina, que floresce no coração do místico.
- O dhikr real é obtido pela iniciação (instrução esotérica) de um mestre espiritual que é ele próprio detentor da walayat (iniciação).
- O dhikr transmitido pelo mestre é o fruto da árvore de sua iniciação, cuja semente ele recebeu de um mestre anterior e cultivou até que atingiu o crescimento pleno da "árvore da iniciação".
- Quando o shaykh atinge a perfeição, ele planta uma semente no coração do discípulo, que passará pelas etapas de crescimento espiritual até florescer como a árvore da gnose.
- A transmissão iniciática é de importância primordial no dhikr, assim como a iniciação por um guru é a condição indispensável no Yoga.
- O ciclo de iniciação, que culmina na união com Deus, é comparado a uma árvore, e o mestre, no ápice da gnose, planta a semente da walayat no coração do discípulo.
- Essa cadeia ininterrupta de iniciação remonta ao Espírito da walayat, que, no Xiismo e nas ordens iniciáticas sufis, é o Primeiro Iman, Ali ibn Abi Talib, de quem todo shaykh espiritual deriva sua iniciação.
- Molla Sadra explica que a raiz da árvore do paraíso, o Tuba, está na casa de Ali ibn Abi Talib, e ele é o Detentor da ciência do ta'wil (hermenêutica espiritual), sendo todas as ciências esotéricas os frutos de sua "árvore de iniciação".
- O "árvore cósmica" (símbolo do universo) segundo Ibn Arabi, que tem suas raízes voltadas para o céu e se estende até a terra, assemelha-se ao Asvattha indiano (árvore invertida).
- Para Ibn Arabi, os frutos dessa árvore cósmica representam a "Realidade mohammadiana" (o Espírito da iniciação profética), que, segundo Molla Sadra, está na Casa de Ali, a "porta" da cidade do conhecimento, simbolizando a walayat.
- A transmissão do dhikr é comparada, por Najm Razi, à polinização das flores fêmeas da tamareira com o pólen das flores machos, fecundando a alma do discípulo com a semente da iniciação do mestre, o que requer diligência e perseverança espiritual para que a árvore floresça e permaneça eternamente verde.
- O Corão (XIV: 24) compara uma "Palavra excelente" a uma "árvore excelente cuja raiz é sólida, a ramagem em pleno céu", sendo essa palavra o la ilaha illa'llah.
- Essa Palavra (o dhikr) enraíza-se no coração e em todas as partes do corpo, infiltrando cada átomo do ser, e quando a árvore atinge sua perfeição, florescem as apercepções visionárias e amadurecem os frutos dos desvelamentos místicos e das ciências divinas, sendo o fruto da união divina o mistério supremo.
📿 As Condições e Práticas do Dhikr
- As condições do dhikr listadas por Najm Razi, como a regularização do sopro, a regulamentação das posturas corporais e a concentração no coração, são semelhantes ao método yogue.
- Para desfrutar da intimidade do dhikr, o invocador deve se recolher em um aposento escuro, abstrair os sentidos, eliminar os pensamentos e estar em estado de pureza ritual (ablução de todo o corpo ou a ablução para a oração), o que irradia uma luz que incendeia o diabo, segundo Najm Razi.
- O dhakir (aquele que faz o dhikr) deve se vestir com uma roupa simples e limpa, estar isento de impurezas corporais e espirituais, sentar-se de pernas cruzadas voltado para Meca, com as mãos nas coxas, e iniciar a invocação com a shahada la ilaha illallah.
- Deve expirar com la ilaha e inspirar com illa'llah, um movimento do sopro que se assemelha ao método yogue de japahamsamantra e pranayama.
- Ele não deve invocar em voz alta, mas sim reprimir o som, para manter a invocação ininterrupta e alcançar a concentração do sentido íntimo do dhikr no coração, eliminando os pensamentos.
- O dhakir deve meditar profundamente no sentido de la ilaha, eliminando todo pensamento estranho, e afirmar com illa'llah a plenitude luminosa da presença de Deus como seu único fim.
- Pela expiração e la ilaha, ele afasta toda ideia à qual a alma está ligada, e pela inspiração e illa'llah, substitui-a pela presença única de Deus, cortando os laços com outras coisas e substituindo-os pelo amor exclusivo do ser divino.
- O dhikr estabelece uma correspondência entre os estados mentais e o sopro, onde a regularização do sopro harmoniza os estados mentais e prepara o fluxo uniforme da concentração.
- Para alcançar o "não-pensamento" (continuidade da concentração), é necessário um esforço sustentado que leva ao colapso do pensamento e à aniquilação do dhakir no dhikr, isolando-o dos apegos mundanos.
- O dhikr polirá o coração (o centro do mistério sirr), tornando-o apto a refletir as imagens e mistérios do malakut, manifestar os raios das contemplações místicas e receber as teofanias dos atributos divinos.
- Somente quando todo pensamento estranho à Essência divina for extirpado do coração, o místico poderá esperar a chegada do Soltan de illa 'llah.
- O coração deve ser absolutamente purificado pela chama de la ilaha para que Deus possa se estabelecer nele, sendo a chegada do Soltan anunciada em um coração deserto do pensamento de tudo-o-que-não-é-Deus.
- O mestre espiritual desempenha um papel de mediador para o discípulo; Najm Razi recomenda que o discípulo medite no rosto do mestre e peça a ajuda de seu coração para beneficiar-se das conquistas espirituais e das graças divinas que lhe serão transmitidas.
- A conceptualização do rosto do mestre (que está localizado no mundo material) serve como suporte para a concentração do discípulo, orientando-o em sua disciplina.
- À medida que o coração do mestre está voltado para Deus e recebe efusões misericordiosas, os socorros divinos são transmitidos para o coração do discípulo através dele, até que o discípulo progrida espiritualmente para receber as operações divinas diretamente.
- A conceptualização do rosto do mestre é um contato com o mundo espiritual, pois ele serve como substituto para o amor divino (uma vez que o mestre participa desse amor), e o discípulo receberá o amor divino através do amor que devota a seu mestre.
- No final, o amor do mestre se aniquila no amor divino, e o invocador, o invocado e a invocação se tornam um, permitindo ao discípulo desfrutar das teofanias diretas de Deus.
✨ Manifestações e Visões do Dhikr
- A concordância entre o ritmo do sopro e as duas metades da shahada no dhikr verbal esvazia o coração de todo pensamento alheio a Deus: a expiração (com la ilaha) esvazia o coração de imagens e pensamentos, e a inspiração (com illa'llah) a substitui pelo pensamento único de Deus.
- A continuidade dessa repetição verbal, aliada à reflexão e meditação, constitui a concentração, que, quando sustentada, se transforma em meditação.
- Quando o místico estabelece o nome Allah em seu coração, manifestam-se fenômenos visuais, acústicos e cromáticos que servem como critérios para medir seu progresso e as etapas espirituais alcançadas.
- Najm Razi analisa esses fenômenos nos estados de vigília e de sonho, indicando que a ascética e a purificação do coração permitem ao místico penetrar no malakut e participar de gozos espirituais.
- As apercepções visionárias podem ser vivenciadas tanto no estado intermediário entre vigília e sono (waqi'a) quanto em sonho (khab).
- Najm Razi classifica os sonhos em imaginativos (khab-e suri) e espirituais (khab-e ma'nawi).
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- Sonhos imaginativos (khab-e suri): Ocorrem quando os sentidos não alcançaram a abstração total, sendo o imaginário (khayal) dominante; a alma capta tentações satânicas e desejos sensuais que a imaginação configura em símbolos confusos e não interpretáveis (azghadh wa ahlam).
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- Sonhos espirituais (khab-e ma'nawi): Subdividem-se em a) sonhos bons, piedosos, virtuosos (salih) e b) sonhos verdadeiros, reais (sadiq).
- a) Sonhos Salih: Aparecem quando a alma está subjugada pelo espírito, a imaginação é conquistada pela dimensão divina e os sentidos alcançam a abstração total. Podem ser não interpretados (como o sonho de Abraão, que se realizou no futuro sem hermenêutica) ou interpretados (como o sonho de José, que se explicava por si mesmo e continha partes futuras). Esses sonhos são vistos por Enviados, Amigos de Deus (nabi-wali), gnósticos e crentes, e são da natureza das Revelações divinas (wahy).
- b) Sonhos Sadiq (Reais, Verdadeiros): São vistos por crentes, infiéis, brâmanes e ascetas indianos; podem se realizar no exterior e ser interpretados, mas o vidente desfruta da epifania do espírito (ruh) e não das epifanias divinas, como nos sonhos espirituais.
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- O estado intermediário entre vigília e sono (waqi'a) ou estado real (waqi'a) é semelhante ao real imaginativo (waqi'a-ye suri), onde os sentidos exteriores não estão totalmente subjugados, e engloba os fenômenos visuais durante a meditação.
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- O Real Imaginativo (waqi'a-ye suri): Inclui as visões que brâmanes, ascetas indianos e infiéis (segundo Najm Razi) têm de realidades suprassensíveis nesse estado intermediário. O espírito pode se libertar do véu da imaginação, manifestando raios de desvelamentos visionários e contemplações místicas do mundo dos mistérios. A ausência da verdadeira proximidade de Deus pode fazer com que essas visões atuem como véus, levando à infidelidade e à perdição da alma.
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- O Real Espiritual (waqi'a-ye ma'nawi): Compreende visões da beleza e majestade divinas no "espelho do coração", sinais, evidências e provas de Deus, e as inspirações (ilham) que descem ao coração. Nesse estado, os sentidos são subjugados pela visão mística do coração, e o espírito conhece as inspirações e as realidades sem a mediação da imaginação.
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- Enquanto o estado imaginativo pode causar aumento de infidelidade, o estado espiritual aumenta a fé e realiza a proximidade de Deus.
- A diferença reside no fato de que, no primeiro caso, o associador (moshrik) permanece cativo no véu da associação e da dualidade, sem beneficiar-se dos raios dos atributos da unidade divina, enquanto no segundo caso, o monista (mowahid) se liberta pela luz da unidade e "aniquila sua existência humana na teofania dos raios que vêm dos atributos da unidade divina".
- Os desvelamentos visionários têm três vantagens, segundo Najm Razi: Primeiro, o místico aprende sobre seus estados espirituais, disposições morais e os resultados de seus atos acumulados na alma (qualidades animais, satânicas, bestiais, angélicas e espirituais).
- As disposições louváveis ou condenáveis são vistas simbolizadas: inveja como ratos, cólera como cães e macacos, orgulho como tigres, disposições diabólicas como demônios, e astúcia como raposas.
- As formas que o sufi vê em vida são as mesmas que o comum dos mortais verá no barzakh (intermundo post-mortem, Jabarso), as formas simbolizadas de nossos hábitos, comportamentos realizados, e resultados de nossos atos.
- O místico vê essas formas em suas contemplações, enquanto o comum dos mortais só as vê na "ressurreição menor" (qiyamat-e soghra) após a morte.
- Ver formas animalescas dominando-o indica que elas são dominantes; se ele as domina, as superou; se as mata ou vence, está libertado; se as combate, está na luta; se elas se transformam, estão em metamorfose.
- Águas correntes, jardins, castelos, espelhos iluminados, estrelas, lua e céu são formas simbolizadas de atributos espirituais e angélicos.
- Raios infinitos, ascensões vertiginosas ao céu indicam desvelamentos de entidades espirituais e percepção de realidades suprassensíveis, sendo o malakut, os anjos, as esferas, o Firmamento (korsi) e o Trono (arsh) atributos angélicos e a realização de atributos louváveis.
- Ver raios do mundo invisível, atributos da divindade e teofanias da soberania indica que ele está se apropriando de atributos divinos e está a caminho da aniquilação em Deus e da permanência em Sua Essência.
- A Segunda vantagem é que essas visões despertam o desejo de perseverar nas disciplinas espirituais e desapegar-se do mundo.
- A Terceira vantagem é que certos estados espirituais só podem ser realizados com o apoio do mestre espiritual, especialmente ao atingir o limiar da suprema espiritualidade (o "vale da divindade" - wadi-ye ilahiyat), onde toda vontade o abandonou.
- A fase seguinte é o não-ser, que só pode ser sustentado pelo místico que se aniquilou por meio de outra pessoa, e a graça da iniciação (walayat) do shaykh é constituída pelas teofanias aniquiladoras da Essência divina, sendo a aniquilação verdadeira o requisito para a permanência em Deus.
- Os fenômenos visuais e acústicos são sinais do progresso e da perfeição alcançados, mas o místico, segundo Lahiji, não deve se apegar aos véus luminosos ou às teofanias das obras, dos atos ou dos atributos, mas sim buscar a aniquilação da Essência.
- O místico, ao penetrar o alam-e mithal pelo dhikr, participa de sua ressurreição menor e vê os símbolos sutis de seu "corpo arquetípico".
- Essa antecipação visionária das ações e obras personificadas e simbolizadas permite-lhe sondar a qualidade de suas tendências inatas, medir o progresso, corrigir seus malikat e consumir pela chama do dhikr os comportamentos morais que o afastariam da visão direta do Senhor.