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id da página: 335 Frithjof Schuon O Olho do Coração Frithjof Schuon

Schuon Trono


O Trono (Arsh), sendo a primeira "criação" após o Calame e a Tábua, e, portanto, a manifestação da primeira palavra que neles se encontra inscrita - e que é "Misericórdia" (Rahmah) -, corresponde ao que a doutrina hindu designa pelo termo de Buddhi (ou Mahat), que é a primeira de todas as manifestações, a saber, a de Brahma. Ele mesmo afirmando-se como Intellecto universal; isto posto, percebe-se imediatamente que o Calame e a Tábua, que precedem o Trono "em cinquenta mil anos", coincidem respectivamente com os dois princípios que a doutrina hindu chama de Purusha e Prakriti, os dois polos não manifestados de toda manifestação. Uma dificuldade poderia surgir aqui do fato de que o Calame, a Tábua e o Trono, que pertencem, no entanto, como se viu, a graus de realidade incomensuravelmente distintos, são ditos "criados", ou mais precisamente "criados de Luz"; ora, a perspectiva unitária do Islã não admite em Deus senão a distinção da "Essência" (Dhat) e dos "Atributos" (Sifat) e deve considerar como "criado" (makhluq) o que poderia parecer como uma "associação" (shirk); os "Atributos" são todos Aspectos da Unidade, enquanto que o par Qalam-Lawh - ou Purusha-Prakriti - só tem razão de ser por sua dualidade. No que diz respeito à "Luz" (Nur) que se vê atribuída simultaneamente - como o caráter de "criatura" - a Realidades divinas, portanto não manifestadas, e a realidades cósmicas, portanto manifestadas (ou mais precisamente pertencentes à manifestação informal), é preciso saber que o cosmo comporta três graus fundamentais: primeiramente a "terra" (tin), em segundo lugar o "fogo" (nar) e em terceiro a "luz" (nur); o corpo humano como toda a ordem sensível (alam el-mulk, em sânscrito sthula-sharira) é feito de "terra", os seres do "estado sutil" (alam el-malakut, em sânscrito sukshma-sharira) - isto é, os "espíritos" (jinn) - são feitos de "fogo", e os Anjos e toda a ordem informal (alam el-jabbarut, em sânscrito vijnanamaya-kosha) são feitos de "luz"; estas três "substâncias cósmicas", se assim se pode dizer, são as expressões "estáticas" das "qualidades" ou "tendências" inerentes ao cosmo - os gunas da doutrina hindu -, neste sentido que a "terra" (ou mais exatamente a "terra argilosa" da qual é feito o corpo de Adão) ou a manifestação grosseira é "escuridão" ou "ignorância" (tamas), o "fogo" ou a manifestação sutil, "expansão" ou "paixão" (rajas) e a "luz" ou a manifestação informal, "tendência para a Realidade" ou "conformidade ao Ser" (sattwa); ora, se o cume do cosmo é "luz" em razão de sua conformidade ao Ser, o Ser Ele mesmo será a fortiori "Luz" (Alam el-izzah ou alam el-ghayb, em sânscrito Anandamaya-kosha), pois a "luminosidade" dos Céus não saberia tirar sua origem senão da "Luz" de Deus; dizer que os Céus são "criados" de "Luz" não pode, portanto, significar senão uma coisa, a saber, que eles são os únicos a serem diretamente "conformes" à "Luz" divina, e por conseguinte a se identificar a esta "Luz" no sentido de uma "identidade essencial". Deus é necessariamente o Arquétipo de toda luz: "Allah é a Luz dos Céus e da Terra" (Corão, surat en-Nur, 35).



(2) Ibn Abi Hatem diz em seu comentário que "Allah criou o Trono de Sua Luz, e o Escabelo (Kursi) da periferia aderente ao Trono; e em torno do Trono há quatro rios: um rio de luz cintilante, um rio de fogo flamejante, um rio de neve branca e um rio de água, e os Anjos ficam de pé nestes rios e glorificam Allah". - Allah está "sentado" sobre o "Trono" e Seus "Pés" - um simbolizando a "Glória" (Jalal) ou a "Cólera" (Ghadah) e o outro a "Beleza" (Jamal) ou a "Graça" (Rahmah) - estão postos sobre o Escabelo que contém a manifestação formal; o "Trono", ele, constitui a manifestação informal, "feita de Luz", e é por isso que ele é chamado "o Trono que engloba" (El-Arsh el-muhit), em conformidade com o ensinamento corânico, o cosmo informal englobando com efeito o cosmo formal. Do Escabelo irradiam, até a terra, a "Glória" e a "Graça", esta levando a melhor sobre aquela, como enuncia aliás a inscrição do Trono que já foi citada: Minha Graça precede Minha Cólera." - Sempre de acordo com Ibn Abi Hatem, "Allah criou o Trono de esmeralda verde, e lhe criou quatro colunas de rubi vermelho; a distância que separa uma coluna da outra é a de uma viagem de oitenta mil anos... e as colunas são levadas por oito Anjos, e ele é como uma cúpula acima dos Anjos e do mundo".



(3) O mesmo exegeta colheu o hadith seguinte: "Em verdade, o Trono (que se identifica aqui a Er-Ruh, "O Espírito") estava sobre a água (as possibilidades cósmicas), e quando Allah criou os Céus, Ele o colocou acima dos sete Céus, e colocou as nuvens (sahab ou ghamâm) como um crivo para a chuva (as Graças seja espirituais, seja psíquicas ou mesmo físicas emanando do Trono do qual o céu visível é a imagem terrestre); se não fosse assim, a terra seria submersa" (a manifestação seria "aniquilada", ou antes "reabsorvida" ou "reintegrada" pela incomensurabilidade da Misericórdia divina, como se o Nome de Rahim fosse substituído pelo de Rahman). - Ibn Abbas acrescenta: "A água da chuva provém de um mar situado entre o Céu e a terra, e este mar possui uma multidão de águas... Allah confiou a chuva a Anjos, e não desce uma gota sem que ela seja acompanhada por um Anjo que a coloca no lugar que Allah escolheu, seja sobre a terra (o mundo físico), seja no mar (el-bahr el-muhit, "o mar que cerca", isto é, o mundo sutil que cerca o mundo grosseiro como o mundo informal cerca o mundo formal, e a fortiori como Deus cerca o mundo informal e com ele todos os mundos inferiores); e quando o Anjo coloca a gota assim sobre a terra, Allah dela produz o trigo e as ervas (os benefícios indispensáveis à vida física, para os homens de um lado e para os animais de outro). E quando o Anjo coloca a gota no mar, Allah dela cria pérolas pequenas e grandes" (os benefícios concernentes à vida psíquica e espiritual, ou ainda, concernentes respectivamente aos "Pequenos Mistérios" e aos "Grandes Mistérios").