Carregando...
 
Skip to main content
id da página: 3445 Schmemann Preparação para a Quaresma 2

Schmemann Preparação para a Quaresma 2

Alexander Schmemann — A Grande Quaresma

PREPARAÇÃO PARA A QUARESMA

2 — A HUMILDADE (Domingo do publicano e do fariseu)


O domingo seguinte e chamado "Domingo do publicano e do fariseu". Na vigília deste dia, nas vésperas da noite de sábado, o livro litúrgico do período da Quaresma, o Triódio, faz sua primeira aparição e acrescentam-se trechos tirados deste livro aos hinos e orações habituais do Ofício quinzenal da Ressurreição.

Este textos desenvolvem o segundo aspecto maior do arrependimento: a humildade.

O Evangelho lido (Luc. 18, 10-14) descreve um homem sempre contente consigo mesmo e que pensa satisfazer todas as exigências da religião. Está seguro de si mesmo e contente com sua pessoa. Na realidade, entretanto, ele perverteu o sentido da religião. Reduziu-a a práticas exteriores e avaliou sua devoção pela soma de dinheiro que depositou na contribuição ao templo. Quanto ao publicano, ele se humilha, e a humildade o justifica diante de Deus. Se existe uma qualidade moral esquecida e até rejeitada hoje em dia, é exatamente a humildade. A cultura em que vivemos incute em nós constantemente um sentimento de orgulho, o sentimento de nossa própria justiça e de nossa própria glorificação. Está fundada sobre a pretensão de que o homem é capaz de realizar tudo por si mesmo, e chega até a representar Deus como Aquele que, ainda, "dá crédito" às realizações do homem e a suas boas ações. A humildade, quer seja individual ou coletiva, ética ou nacional, é considerada como um sinal de fraqueza, como algo que não serve para um homem que se respeita. Nossas próprias igrejas não estão imbuídas deste espírito farisaico? Não desejamos que toda contribuição, toda boa ação, tudo o que fazemos "para a Igreja" seja reconhecido, louvado e publicado?

Mas o que é a humildade? A resposta a esta questão pode parecer paradoxal porque ela se apoia em uma afirmação surpreendente : "O próprio Deus é humilde". E contudo, para aquele que conhece Deus, que O contempla em Sua criação e em Seus atos salvadores, é evidente que a humildade é verdadeiramente uma qualidade divina, que ela é o próprio conteúdo e a irradiação desta glória que enche o Céu e a Terra, como canta a Divina Liturgia.

Em nossa mentalidade humana, temos tendência a opor "glória" a "humildade", considerando esta última o sinal revelador de uma falta ou deficiência. A nossos olhos, é nossa ignorância ou incompetência que nos torna ou deveria nos tornar humildes. É que se impossível fazer o homem moderno — movido a publicidade, afirmação de si e contínuas vanglorias — admitir que tudo o que é verdadeiramente perfeito, belo e bom, é ao mesmo tempo naturalmente humilde. Pois é justamente por causa de sua perfeição que não precisa de publicidade, nem de glória exterior, nem de nenhum tipo de ostentação. Deus é humilde porque é perfeito; sua humildade é sua glória e a fonte de toda verdadeira beleza, perfeição e bondade; e quem quer que se aproxime de Deus conhece isso, participa imediatamente da divina humildade e é revestido de sua beleza. Assim o corre com Maria, Mãe de Cristo: sua humildade fez dela a alegria de toda criação e a mais pura revelação da beleza sobre a terra. Assim ocorre com todos os santos e com todo ser humano nos raros momentos de seus contatos com Deus.

E como podemos nos tornar humildes? Para um cristão, a resposta é simples: é contemplando Cristo, a Humildade divina encarnada, Aquele em quem Deus revelou de uma vez por todas sua glória como humildade e sua humildade como glória. "Hoje", diz Cristo, na noite de Sua última humilhação, "o filho do Homem é glorificado e Deus é glorificado nele". E é contemplando Cristo, que disse: "Aprendei de mim que sou doce e humilde de coração". E é, enfim, avaliando todas as coisas em relação a ele, referindo tudo a ele. Pois, sem Cristo, a verdadeira humildade é impossível. Assim, para o fariseu, até a religião torna-se ocasião de tirar orgulho de realizações humanas, o que é ainda uma maneira farisaica de se glorificar.

O período da Quaresma começa então por um passo, uma oração para pedir a humildade, que é o começo do verdadeiro arrependi mento. Pois o arrependimento é antes de tudo um retorno à verdadeira ordem das coisas, o restabelecimento de uma visão justa. Está então enraizado na humildade, e a humildade — a bela e divina humildade — é seu fruto e objetivo. "Fujamos da jactância do fariseu", diz-nos o Kondakion deste dia, "e aprendamos do publicano a sublimidade de uma linguagem humilde". Estamos na soleira do arrependimento, e, no momento mais solene da Vigília do Domingo, depois do anúncio da Ressurreição e da Aparição de Cristo — "Nos vimos a ressurreição...", — cantamos pela primeira vez o tropário que nos acompanhará ao longo de toda a Quaresma:

"Abre-me as portas da penitência,
Senhor, Fonte de Vida,
pois desde a aurora, meu espírito
que leva o templo de meu corpo
todo manchado de pecado
está voltado para teu Templo santo!
Em tua infinita bondade, purifica-me
por tua doce misericórdia

Aplana-me o caminho da salvação,
ó Mãe de Deus!
Pois sujei minha alma com pecados infames
dissipando minha vida na negligência.
Por tua intercessão,
salva-me de toda impureza!

Quando medito, miserável
sobre a multidão de minhas mas ações
fico aterrorizado
ao pensar no temível dia do Julgamento

Porém confiando em tua bondade misericordiosa,
chamo a Ti, como David:
Tem piedade de mim, ó Deus
segundo tua imensa misericórdia!