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Arberry Shaqiq


ARBERRY, A. J. Le soufisme: La mystique de l’Islam. Jean Gouillard. Paris: Editions Le Mail, 1988

Veja: versão francesa, da tradução abaixo

A escola ascética do Khorassã encontrou um continuador no discípulo de Ibrahim b. Adham, Shaqiq de Balkh (morto 194/810). Seguindo diversos autores, ele teria sido o primeiro a fazer do abandono a Deus (tawakkul) um estado místico (hal). Seu neto nos deixou um relato de sua conversão que esclarece ao mesmo tempo os contatos entre o Islam e as outras religiões contemporâneas e a consciência que se tinha de sua influência sobre a evolução do sufismo.

Meu avô possuía trezentas aldeias, quando foi morto em Washgird e ainda assim não deixou nem mesmo um sudário para enterrá-lo: ele havia dado tudo. Sua vestimenta e sua espada ainda estão suspensas até hoje e são tocadas para obter uma bênção. Em sua juventude, ele havia ido fazer comércio no país dos Turcos, entre um povo de nome Khususiya que adorava os ídolos. Tendo entrado em seu templo, lá encontrou seu doutor; ele tinha a cabeça raspada e usava vestimentas vermelhas. Shaqiq lhe disse: "A religião à qual te dedicas é falsa; estes homens, tu, a criação inteira, tudo tem um Criador e um Autor e não há outro fora dele; a ele pertencem este mundo e o outro; ele é o Todo-Poderoso, a Providência universal." O ministro (dos ídolos) lhe respondeu: "Tuas palavras não concordam com teus atos." Shaqiq lhe disse: "Como isso?" O outro replicou: "Tu afirmaste que tens um Criador, Providência universal e Todo-Poderoso; ora, tu deixaste teu país por este lugar, em busca de tua subsistência. Se dizes verdade, Aquele que proveu a tuas necessidades aqui é o mesmo que provê a tuas necessidades lá; poupa-te portanto estas preocupações." Shaqiq dizia: "A origem de meu renunciamento (zuhd) foi a observação deste Turco." Ele voltou para casa, distribuiu todos os seus bens aos pobres e se pôs à procura do conhecimento.

No que os escritores posteriores puderam salvar do pensamento de Shaqiq, discernem-se os primeiros elementos de um sistema organizado de renunciamento, que os sufis do século III/IX deveriam levar muito mais longe. Seu discípulo Hatim al-Asamm (morto 237/852), ele mesmo um membro em vista da escola do Khorassã, o cita neste sentido:

O homem que vivesse duzentos anos sem conhecer as quatro coisas seguintes não escaparia (se aprouvesse a Deus) ao Inferno. (Estas coisas são) primeiramente o conhecimento (ma'rifa) de Deus; em segundo lugar o conhecimento de si; em terceiro lugar o conhecimento do comando e da proibição de Deus; em quarto lugar o conhecimento do adversário de Deus que é também seu adversário. O conhecimento de Deus consiste em conhecer em teu coração que não há ninguém mais que dá e retira, fere e favorece. O conhecimento de si consiste em saber que não podes prejudicar nem favorecer, e que não tens o poder de fazer coisa alguma; e igualmente a resistir ao eu, isto é, ser submisso a Deus. O conhecimento do comando e da proibição de Deus consiste em te dares conta que o comando de Deus reina sobre ti e que tua subsistência depende de Deus e te confiares a esta Providência, sendo sincero em todas as tuas ações. O sinal desta sinceridade será não ter nem uma nem outra das características seguintes: cobiça e impaciência. O conhecimento do adversário de Deus consiste em ter consciência que tens um inimigo e que Deus não agradará nada de ti que não seja o resultado da guerra; e a guerra do coração consiste em guerrear contra o inimigo, lutar corpo a corpo com ele e esgotá-lo.A escola ascética do Khorassã encontrou um continuador no discípulo de Ibrahim b. Adham, Shaqiq de Balkh (morto 194/810). Seguindo diversos autores, ele teria sido o primeiro a fazer do abandono a Deus (tawakkul) um estado místico (hal). Seu neto nos deixou um relato de sua conversão que esclarece ao mesmo tempo os contatos entre o Islam e as outras religiões contemporâneas e a consciência que se tinha de sua influência sobre a evolução do sufismo.

Meu avô possuía trezentas aldeias, quando foi morto em Washgird e ainda assim não deixou nem mesmo um sudário para enterrá-lo: ele havia dado tudo. Sua vestimenta e sua espada ainda estão suspensas até hoje e são tocadas para obter uma bênção. Em sua juventude, ele havia ido fazer comércio no país dos Turcos, entre um povo de nome Khususiya que adorava os ídolos. Tendo entrado em seu templo, lá encontrou seu doutor; ele tinha a cabeça raspada e usava vestimentas vermelhas. Shaqiq lhe disse: "A religião à qual te dedicas é falsa; estes homens, tu, a criação inteira, tudo tem um Criador e um Autor e não há outro fora dele; a ele pertencem este mundo e o outro; ele é o Todo-Poderoso, a Providência universal." O ministro (dos ídolos) lhe respondeu: "Tuas palavras não concordam com teus atos." Shaqiq lhe disse: "Como isso?" O outro replicou: "Tu afirmaste que tens um Criador, Providência universal e Todo-Poderoso; ora, tu deixaste teu país por este lugar, em busca de tua subsistência. Se dizes verdade, Aquele que proveu a tuas necessidades aqui é o mesmo que provê a tuas necessidades lá; poupa-te portanto estas preocupações." Shaqiq dizia: "A origem de meu renunciamento (zuhd) foi a observação deste Turco." Ele voltou para casa, distribuiu todos os seus bens aos pobres e se pôs à procura do conhecimento.

No que os escritores posteriores puderam salvar do pensamento de Shaqiq, discernem-se os primeiros elementos de um sistema organizado de renunciamento, que os sufis do século III/IX deveriam levar muito mais longe. Seu discípulo Hatim al-Asamm (morto 237/852), ele mesmo um membro em vista da escola do Khorassã, o cita neste sentido:

O homem que vivesse duzentos anos sem conhecer as quatro coisas seguintes não escaparia (se aprouvesse a Deus) ao Inferno. (Estas coisas são) primeiramente o conhecimento (ma'rifa) de Deus; em segundo lugar o conhecimento de si; em terceiro lugar o conhecimento do comando e da proibição de Deus; em quarto lugar o conhecimento do adversário de Deus que é também seu adversário. O conhecimento de Deus consiste em conhecer em teu coração que não há ninguém mais que dá e retira, fere e favorece. O conhecimento de si consiste em saber que não podes prejudicar nem favorecer, e que não tens o poder de fazer coisa alguma; e igualmente a resistir ao eu, isto é, ser submisso a Deus. O conhecimento do comando e da proibição de Deus consiste em te dares conta que o comando de Deus reina sobre ti e que tua subsistência depende de Deus e te confiares a esta Providência, sendo sincero em todas as tuas ações. O sinal desta sinceridade será não ter nem uma nem outra das características seguintes: cobiça e impaciência. O conhecimento do adversário de Deus consiste em ter consciência que tens um inimigo e que Deus não agradará nada de ti que não seja o resultado da guerra; e a guerra do coração consiste em guerrear contra o inimigo, lutar corpo a corpo com ele e esgotá-lo.