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id da página: 7779 Julius Evola – Budismo – Visão Horizontal dos Nidana Julius Evola

Evola Plano Samsarico

Visão Horizontal dos Nidana

O grande significado prático da doutrina de paticca-samuppada reside no fato de que, por meio dela, vê-se que o mundo condicionado e contingente não existe como algo absoluto, mas é, por sua vez, condicionado e contingente; é o efeito de um processo no qual causas externas não intervêm; uma mudança, portanto, ou uma remoção, ou uma destruição, é sempre possível. Criadas por ações, as formas condicionadas de existência podem ser dissolvidas por ações. O ensinamento budista considera, além da série descendente das “formações” oriundas da ignorância — denominada a “via falsa” —, a série ascendente das dissoluções, chamada a “via reta”. Enquanto, na primeira série, resultante da ignorância, formam-se as sankhara, e destas, a “consciência”, e da consciência, o “nome-e-forma”, e assim sucessivamente até o nascimento, a decadência, o sofrimento e a morte — na segunda série, quando a “ignorância” é destruída, as sankhara são destruídas; quando as sankhara são destruídas, a “consciência” é destruída, e assim até a remoção condicionada dos efeitos últimos, isto é, do nascimento, da decadência, do sofrimento e da morte, ou, em outras palavras, da lei da existência samsarica.

Pode-se agora compreender por que a obtenção da verdade da gênese condicionada pelo Príncipe Siddharttha — a verdade, isto é, de que o samsara “não é”, mas “tornou-se” — foi concebida por ele como uma iluminação libertadora: “‘Tornou-se, tornou-se’: como algo jamais ouvido antes, este conhecimento surgiu em mim, a visão surgiu em mim, a intuição surgiu em mim, a sabedoria surgiu em mim, a luz surgiu em mim.” E também se disse nesta mesma ocasião: “Quando a verdadeira natureza das coisas se torna clara para o asceta ardente e meditativo, todos os seus desejos caem por terra, após haver compreendido o que é essa natureza e qual é a sua causa.” E ainda: “Quando a verdadeira natureza das coisas se torna clara para o asceta ardente e meditativo, ele se ergue e dispersa as hostes de Mara, como o sol que ilumina o céu.” Neste ponto, o demonismo samsarico chega ao fim.

Agora que a cadeia descendente dos doze nidana nos levou ao plano da existência samsarica vivida por um ser finito, pode-se considerar a outra interpretação desses mesmos nidana, que foi denominada “horizontal”. Devem-se agora subdividir os doze nidana em quatro grupos e referi-los a mais de uma existência individual. O primeiro grupo consistirá então dos dois primeiros nidana (avijja e sankhara), que correspondem a uma hereditariedade samsarica transmitida a um determinado ser a partir de outra vida. Avijja, inconsciência, refere-se, então, às “quatro verdades” e significa tanto a ignorância quanto à contingência do mundo como a respeito do caminho que conduz para fora dele, enquanto as sankhara são as predisposições criadas em uma vida anterior vivida nessa ignorância.

O segundo grupo refere-se, ao contrário, à existência presente e inclui os três nidana “consciência”, “nome-e-forma” e “base dos seis sentidos”, todos relacionados com a formação e o desenvolvimento da nova vida que assume essa hereditariedade. O terceiro grupo é composto pelos quatro nidana: “contato”, “sensações”, “sede” e “apego”, e refere-se à vida normal do homem comum, na medida em que esta confirma o estado samsarico de existência, nutrindo o desejo preexistente com novo desejo e gerando, por meio de pensamentos e ações, energias que se manifestarão em uma nova vida. Por fim, os três últimos nidana — “(novo) devir”, “nascimento” e “decadência e morte” — referem-se a essa nova vida como sendo, por assim dizer, efeitos.

Com relação a essa interpretação, as explicações individuais de alguns dos nidana são as seguintes: a ignorância é a ignorância das quatro verdades; as sankhara são as formações ou predisposições que se manifestam nos três campos da ação, da palavra e do pensamento; consciência — vinnana — é a consciência que se relaciona com a base sêxtupla (com os seis sentidos); “nome-e-forma” é o conjunto psicofísico do homem vivo; contatos e sensações referem-se novamente à experiência sensorial; finalmente, upadana é o apego ao desejo, às opiniões, à crença no “eu” ou à crença na eficácia miraculosa das regras e dos ritos.

Embora essa interpretação “horizontal” deva ser mantida em mente a fim de esclarecer certos contextos canônicos, deve-se recordar que, em seu caráter, ela é inferior e mais externa do que a outra interpretação vertical e transcendental, pois refere-se exclusivamente ao plano samsarico; tampouco pode reivindicar completa coerência. Por exemplo, é difícil compreender por que “devir”, “nascimento” e “decadência e morte” não estão incluídos no grupo intermediário, que se refere à existência presente, mas aplicam-se, ao contrário, a uma existência sucessiva, quase como se não fossem válidos nem para a vida presente nem para aquela na qual se situam a ignorância e as sankhara; como se a existência sucessiva não contivesse novamente a ignorância e as sankhara, a consciência, a base sêxtupla etc., isto é, os nidana que se referem apenas a uma existência anterior ou à existência presente que herda da anterior. O fato de a maioria dos orientalistas, apesar disso, haverem-se detido nesta segunda interpretação sem perceber tais incoerências, demonstra apenas a superficialidade de suas mentes e a completa ausência de sensibilidade metafísica.