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id da página: 8336 Peter Kingsley – Realidade – Resumo da Parte III Peter Kingsley

Kingsley Realidade 3

Peter KingsleyRealidade – Resumo da Parte III


KINGSLEY, Peter. Reality. Inverness, Calif: Golden Sufi Center, 2008

  • 1

    • A tendência da mente humana em impor-se sobre tudo o que capta o seu interesse, "marcando" as coisas com o cheiro dos seus pensamentos, tal como um cão marca o território, sem se aperceber de que o faz, trazendo tudo para o seu próprio nível e tornando-o parte do seu mundo.
    • A arte essencial, não ensinada em escolas, de saber não nos impormos ao que vemos, ouvimos ou lemos, permitindo antes que nos penetrem e transformem, uma arte que exige um longo e solitário treino ou momentos intensos de honestidade e repugnância por si próprio.
    • A opção pedagógica de mostrar a sujidade em que o ouro puro do ensinamento de Parmenides foi enterrado e como foi alterado ao longo dos séculos, para que se possa sentir remorso suficiente e detetar-se no ato de fazer o mesmo, parando a tempo.
    • A impossibilidade de aprender com Parmenides pensando sobre o que ele diz, pois isso apenas o altera, existindo antes um caminho de o abordar com alerta e a maior quietude, permitindo que ele nos mude a nós.
    • A constatação de que ninguém fica abalado ao ouvir sobre a horrível condição da humanidade, atordoada e perdida no seu caminho ilusório, e a tradução errada e despreocupada que os estudiosos fazem da instrução da deusa, resultando na ideia falsa de que Parmenides rejeita a experiência sensorial e defende o caminho da análise racional.
    • A conclusão de que esta interpretação é uma fabricação, e o que se deteta nas versões modernas de Parmenides não é o perfume da realidade de outro mundo, mas "o cheiro da nossa própria urina".
  • 2

    • A instrução clara e firme da deusa para Parmenides se afastar do caminho do caos inventado pelos humanos, que mistura existência e não existência, e não deixar que o "hábito muito experimentado" o force a "guiar o [seu] olho cego e o [seu] ouvido ressoante e língua" por esse caminho.
    • A sutileza da mensagem, que não se trata de rejeitar um "caminho dos sentidos" em favor de um "caminho da mente", mas de observar como este terceiro caminho permite o uso indevido da nossa mente e a nosso arrastar-se para um mundo de percepções sem sentido.
    • A constatação de que o problema não é ver e ouvir, mas não o saber fazer conscientemente, pois, enquanto se pensa e se vagueia, os olhos ficam cegos e os ouvidos ressoam com ruído de fundo.
    • O apontar da deusa não para longe dos sentidos, mas para um estado de alerta dentro deles, onde se pode encontrar a unidade e a falta de separação, sendo a consciência a meta para a qual ela nos orienta.
    • A generosidade divina mesmo no aparente impedimento, pois não há nada a negar ou a abdicar, exceto o que não existe, e o seu humor ao descrever-nos a "guiar" cuidadosamente os nossos olhos cegos.
    • A tendência humana de continuar a vaguear pela vida, mal consciente da realidade, transformando até a mensagem da deusa em alimento para o moinho inconsciente, sendo esta mal compreendida com uma previsibilidade de relojoaria, século após século.
  • 3

    • O perigo real de sermos forçados pelo "hábito muito experimentado" a percorrer o terceiro caminho agora mesmo, e o equívoco de ver nesta expressão a prova de que devemos rejeitar a experiência.
    • A contradição inerente à expressão "hábito muito experimentado", pois o hábito, na sua repetição estreita, impede a amplitude e a plenitude da experiência, sendo uma piada tão autocontraditória como o terceiro caminho em si.
    • A ideia de que Parmenides não está contra a experiência, mas a favor dela, apontando para uma realidade da experiência que começa onde a nossa termina, estando esta possibilidade fechada até começarmos a perceber o quanto estamos presos pelo hábito.
    • A profundidade do hábito a que Parmenides se refere, que é o total de todos os nossos pequenos hábitos e muito mais, responsável por criar todo este mundo em que nos movemos.
    • A sobreposição do "forçar", indicando que já estamos a ser empurrados por esta força, violados por ela, não havendo uma simples decisão consciente a tomar numa poltrona, mas primeiro ter de se tomar consciência das forças que nos mantêm inconscientes.
    • A existência de apenas um poder mais forte do que esta força do hábito, que em breve se descobrirá.
  • 4

    • O alívio reconfortante que a suposta instrução "Julga pela razão" traz, após as reviravoltas desorientadoras da deusa, tornando-se a joia da coroa e o marco zero da invenção da razão e do início da racionalidade no pensamento ocidental.
    • O absurdo desta interpretação, considerando que a deusa se dirige a humanos incapazes de julgar seja o que for, e a Parmenides, que ela tem confundido com paradoxos e enigmas que retiram qualquer semelhança de razão.
    • A natureza ilusória desta "linha de defesa" final, um castelo de pensamento desejoso, e a falta de coragem para admitir que a ideia de Parmenides dizer para julgar pela razão é outra invenção muito humana.
    • A constatação de que alguns estudiosos apontaram quietamente que a deusa nunca poderia ter dito "Julga pela razão", pois a palavra usada por Parmenides, logos, não podia significar "razão" no seu tempo, mas estes problemas foram mantidos fora de vista.
  • 5

    • O erro da tradução "Julga pela razão" para krinai logoi, pois o sentido de "razão" como faculdade racional só surgiu muito depois da morte de Parmenides, com Platão, evoluindo gradualmente a partir da ideia socrática de chegar à verdade através da discussão.
    • O significado original de logos como "fala", "discurso", "palavras ditas", sentido que Parmenides lhe dá consistentemente no seu poema, por exemplo, quando a deusa se refere ao seu ensino como um logos "confiável".
    • A conotação de que logos, palavras ditas, podiam ser enganosas, e o maior respeito no passado pelo poder mágico da palavra falada para encantar e enfeitiçar.
    • A descrição de como as Filhas do Sol "persuadiram astutamente" a Justiça "com palavras sedutoras e suaves" para abrir os portões, um uso de logoi que é marca de especialistas em metis e magia, e não de argumentos lógicos.
    • A descoberta, por detrás do suposto "raciocínio" de Parmenides, de um mundo governado pela metis, onde as coisas nunca são bem o que parecem.
  • 6

    • A forma simples de avaliar o uso de uma palavra por um escritor: observando como a usa, sendo que Parmenides usa logos para se referir às palavras ditas pelas Filhas do Sol ou pela própria deusa.
    • A interpretação de que, se a deusa parece dizer a Parmenides para julgar o que ela diz por logos, ela quer dizer que ele deve julgar as suas palavras por palavras; a sua fala por fala.
    • A análise das três alternativas para com quem Parmenides deveria dialogar: consigo mesmo (pensar), com outros humanos, ou com a própria deusa, concluindo-se que todas são impossíveis devido à falta de qualificação linguística, à visão da deusa sobre a humanidade e ao fato de o julgamento já ter sido passado.
    • A conclusão de que a famosa declaração krinai logoi não pode significar "Julga pela razão" nem mais nada, e que o texto grego tal como nos foi transmitido está errado.
    • A ideia de que este é o momento crítico de crise, em que não há mais tempo para resolver as coisas, falar ou pensar, e a ilusão de se poder discutir confortavelmente durante milhares de anos acabou.
    • A urgência da jornada de Parmenides, em que se segue a deusa ou se fica para trás com os fantasmas na bifurcação da estrada.
  • 7

    • A aceitação de que as coisas não estão certas e a situação é desesperadora, pois de outra forma pode-se passar a eternidade a tentar adaptar-se ao que está errado.
    • As várias oportunidades de corrupção textual ao longo da transmissão dos manuscritos, desde erros de copistas medievais até à prática antiga de "acomodação", onde filósofos como os estoicos alteravam textos antigos para lhes dar um significado atualizado e respeitável.
    • O papel de Posidônio, um estoico, como a única fonte para a passagem controversa de Parmenides, que citou filósofos anteriores envolvendo-os num casulo de racionalidade e explicando previamente que Parmenides defendia a rejeição dos sentidos e o juízo pelo logos (razão).
    • A conclusão de que as palavras supostamente proferidas por Parmenides são o que um bom filósofo de centenas de anos depois teria querido que ele dissesse, tendo a sua mensagem sido quase perfeitamente transformada, com os pontos de costura ainda visíveis para quem quiser ver.
  • 8

    • A simplicidade da resposta sobre o que foi dito antes da transformação, contida no próprio texto, onde a deusa orienta Parmenides de volta às suas próprias palavras, ao que ela acabou de dizer.
    • A correção natural de alterar logoi de volta para logou no texto, resultando no sentido de que Parmenides deve julgar "a demonstração da verdade contida nestas palavras, conforme faladas por mim".
    • O sentido preferencial e mais antigo da palavra krinai ("julgar") como "escolher", "optar por", "decidir a favor de alguém", que era natural no tempo de Parmenides.
    • A tradução final e correta da passagem, que revela Parmenides a falar simplesmente sobre o beco sem saída da condição humana e a alternativa a ela, na sua própria voz e poesia: "não deixes que o hábito muito experimentado te force a guiar o teu olho cego e o ouvido ressoante e língua por este caminho, mas decide a favor da altamente controversa demonstração da verdade contida nestas palavras, conforme faladas por mim".
  • 9

    • A expectativa divina da deusa de que Parmenides será persuadido, tomando o seu acordo como garantido, sendo esta a persuasão no seu mais persuasivo.
    • Os avisos prévios sobre a importância da Persuasão, desde as Filhas do Sol que persuadem a Justiça até à descrição do primeiro caminho como "o caminho da Persuasão".
    • A necessidade absoluta da deusa em usar a persuasão, pois apelar à nossa faculdade de raciocínio seria impossível, uma vez que não a temos, sendo a nossa serenidade objetiva um autoengano.
    • O confronto com o tema fascinante do conflito entre persuasão e força, onde a Persuasão, ela própria uma deusa para os gregos, é vista como mais poderosa do que a violência da força bruta.
    • A natureza da lógica como um fio fino que nos conecta com outro mundo, uma prenda dos deuses, uma isca mágica que nos atrai para a unidade, antes de ser transformada em razão e usada para nos atar em nós.
  • 10

    • A cena extraordinária no submundo, onde a deusa apresenta o seu caso como num tribunal de lei e Parmenides é instruído a passar julgamento, uma imagem com uma lógica profunda, pois o submundo era um local tradicional de julgamento.
    • A inversão humorística de parecer que Parmenides está a julgar a deusa, e as ligações de Parmenides com grupos no sul de Itália que viam o submundo como a fonte da lei e encontravam a deusa Justiça através da incubação.
    • A tradição de que Parmenides também foi um legislador, e a dimensão legal do seu poema que leva ao coração da sua mensagem, onde ele é um mensageiro a trazer de volta as leis reveladas noutra realidade.
    • A transmissão da tradição revelada de Parmenides para o mundo islâmico, onde filósofos gregos eram vistos como profetas e legisladores, e a transformação posterior do seu ensino no culto da razão.
    • A conclusão de que a racionalidade é simplesmente o misticismo mal compreendido, pois só pode haver um tipo de conhecimento.
  • 11

    • A descrição adequada da demonstração da verdade pela deusa como "altamente controversa" (palamphota), que significa muito mais do que discussão, significando "batalha", "conflito", sendo esta uma guerra sobre as nossas vidas e valores mais básicos.
    • A variedade de traduções para a palavra elenchos ("desafio", "argumento", "teste", "prova", "refutação"), sendo o seu significado central o processo de demonstrar a verdade sobre um assunto, expondo a verdade e revelando a decepção.
    • O elenchos da deusa, que aponta diretamente para a verdade sobre o ser e a ausência de separação, tendo primeiro de desmascarar a ilusão de tudo a que confiantemente chamamos condição humana.
    • O paralelo com Sócrates, que também usava o elenchos para expor a realidade das vidas das pessoas, mostrando-lhes que nada sabiam, e que o fazia por ordem divina, sendo descrito como um mago e encantador.
    • A perda do significado transformador do elenchos no Ocidente, onde se tornou um termo técnico para propor soluções para problemas, sem colocar o ser em risco.
  • 12

    • A significativa semelhança entre Parmenides e Sócrates, ambos vistos como pais da filosofia, no uso do elenchos como um processo revelado ou ordenado pelos deuses, uma missão divina.
    • A ligação de ambos a práticas de receber orientação divina através de sonhos e incubação, com Parmenides a ser um sacerdote de Apolo, deus associado à quietude, e Sócrates conhecido por estados extraordinários de imobilidade.
    • O objetivo central do elenchos de ambos: mostrar que os seres humanos "nada sabem", sendo a aceitação disso a base para qualquer conhecimento real, envolvendo um confronto com a desamparo total e a aporia ou "caminho sem saída".
    • A definição de Sócrates da filosofia como a prática de aprender a morrer antes de morrer, ecoando a jornada de Parmenides ao submundo, sendo o que torna essa jornada possível o anseio (thymos), e o ensino sendo feito através de um processo de sedução divina.
    • A degeneração da filosofia, que outrora foi amor à sabedoria, no amor a discutir infinitamente sobre o amor à sabedoria, sendo agora uma defesa contra a sabedoria, sendo a única maneira de a alcançar enfrentar o fato de que nada sabemos e deixar o nosso raciocínio ser destruído.
  • 13

    • A chegada do momento da escolha, que já passou, restando apenas um "conto de um caminho" (mythos) para contar, a palavra que a deusa usa para se referir ao seu ensino.
    • A refutação da narrativa histórica da transição do mythos para o logos (mito para a razão), pois para a deusa tudo, incluindo o seu ensino, é o que agora chamaríamos de mito, e esta é a verdade.
    • A impossibilidade de compreender o "Fragmento Oito", a passagem mais estudada do poema que introduz a realidade, sem as preparações necessárias da parte anterior do poema, pois os fragmentos se unem não num livro, mas em nós mesmos.
    • A natureza intransmissível deste caminho final, que tem de ser percorrido sozinho, seguindo os sinais, existindo apenas para si.
  • 14

    • O início do Fragmento Oito, onde a deusa anuncia que existe apenas um conto de um caminho para contar: "que é", e que ao longo deste caminho há "muitos, muitos sinais" de que é incriado e imortal, inteiro, de um só tipo, imóvel e incompleto.
    • A definição de lógica como a expressão de uma realidade impessoal governada por uma necessidade absoluta, e a frustração de não se ter a mais pequena ideia do que a deusa está a falar, ficando-se com os sinais no meio da escuridão.
    • A estratégia da deusa de construir uma estrutura ilusória dentro da nossa ilusão para nos ajudar a perceber que estamos rodeados de ilusão, convidando-nos a entrar nela para olhar para o mundo a partir dessa nova perspectiva.
    • A importância dos "sinais" para orientação, associados tanto às capacidades de caminho da metis como à orientação divina, sendo cada um deles como um raio que destrói a nossa percepção da existência.
    • A promessa de que, se se continuar, se acabará por caminhar noutro mundo.
  • 15

    • A rápida sucessão dos primeiros sinais, apontando para algo incriado e imortal, e a necessidade de extrema atenção para que não se tornem apenas palavras.
    • A eliminação rápida do passado e do futuro pela deusa, restando apenas o "agora", um presente atemporal e pleno, onde tudo acontece.
    • A incompreensão dos filósofos, que argumentam que "agora" se refere a um ponto no tempo, não a algo atemporal, traindo assim que nunca experienciaram conscientemente o que significa existir agora.
    • A necessidade de uma mente muito quieta para realizar que tudo é agora, um todo sem separação, e que até o pensamento de algo em falta é apenas um sinal de totalidade.
    • A piada tremenda no final dos sinais sobre a incriabilidade e imortalidade, onde a deusa silencia a destruição (a morte), destruindo magicamente a destruição e pondo a morte à morte, com um humor que brota de uma consciência de liberdade total.
  • 16

    • A aparente autoridade da deusa ao descrever as leis da existência, mas o fato de ela estar, na verdade, a exercer o seu poder divino para fazer com que as coisas sejam, no momento presente, através do seu ensinamento, que é um feitiço mágico.
    • A participação ativa de Parmenides (e, por extensão, nossa) no processo de julgamento que determina o que é e não é, sendo convidado a participar conscientemente nas origens do universo, onde tudo já foi decidido, mas ainda está a ser decidido, porque a origem do universo é agora.
    • A impossibilidade de escapar a esta responsabilidade, pois mesmo a falha em compreender que há uma decisão à espera de ser tomada é já a nossa decisão, sendo a irresponsabilidade também uma forma de responsabilidade.
    • A liberdade de escolher ser escravo ou ser livre em cada momento, num reality que não oferece terreno neutro.
  • 17

    • A descrição da realidade como indivisível, plena de ser, contínua, imóvel e sem falta, usando imagens de grilhetas e laços, e a expulsão da criação e da destruição, que foram feitas vaguear para longe pela "verdadeira pistis".
    • A conexão da linguagem da deusa com a dos hinos religiosos e a sua percepção da completude como algo divino.
    • O puzzle de a criação e a destruição, já abolidas, reaparecerem na descrição, sendo expulsas, o que não faz sentido numa realidade sem separação.
    • A percepção de um estudioso americano de que "pistis" aqui significa evidência legal persuasiva, e que a expulsão descrita é um ato formal de banimento (apokeruxis), uma observação depois posta de lado pela erudição posterior.
  • 18

    • O amor de Parmenides pelas explicações ("pois", "porque"), criando uma impressão de logicidade única, que é mais mistificadora do que explicativa, atraindo-nos mais profundamente para um mundo impenetrável pela mente racional.
    • A explicação peculiar para a imobilidade da realidade: "porque" a criação e a destruição foram banidas por evidência persuasiva.
    • O contexto cultural em que a ordem cósmica era vista como sujeita a mudança e sucessão violenta, tornando a imutabilidade descrita por Parmenides algo anormal, exigindo medidas extremas.
    • A prática legal do apokeruxis, o deserdar e banir filhos, um ato solene que rompia o ciclo familiar de morte e nascimento, usando o mesmo verbo (apothein) que Parmenides usa para "expulsar".
    • A ligação perfeita entre o banimento da criação e destruição, tornadas "inomináveis" (anonumos), e o ato de nomeação que se segue, descrevendo-se o mesmo processo legal com diferentes termos, ilustrando a unidade da realidade.
  • 19

    • O mistério no coração do Fragmento Oito, a aparente chegada após uma longa jornada, e a simplicidade da sua solução.
    • Os sinais finais de completude, que selam a descrição da realidade com a imagem de uma esfera perfeitamente redonda, mantida firme por um limite circular.
    • As linhas adicionais que constituem o enigma, que começam: "E o que existe para pensar é o mesmo que a causa do pensamento. Pois não encontrarás pensar sem o ser no qual foi proferido."
    • A lógica segura da deusa, que se move com "pois" e "porque", e a necessidade de a acompanhar de perto a cada passo.
  • 20

    • A repetição da expressão familiar "o que existe para pensar" e a introdução da nova ideia de que isso é o mesmo que "a causa do pensamento".
    • A explicação de que o pensamento é "proferido" no ser, indicando que pensamento e existência não são idênticos, mas intimamente interligados, sendo o ser o meio indispensável para a consciência.
    • O significado mais profundo da preposição "em" em grego, que também indicava dependência causal, tal como na frase bíblica "N'Ele vivemos, nos movemos e existimos".
    • A conclusão de que o objeto do pensamento é idêntico à sua causa, o início e o fim são os mesmos, evocando a imagem de um círculo, o símbolo perfeito de completude.
    • A demonstração da deusa, através das suas próprias palavras, da circularidade perfeita do pensamento, envolvendo a sua descrição com imagens de laços circulares, criando completude dentro de completude.
  • 21

    • A desconexão na nossa consciência entre a causa e o objeto da percepção, que quase nunca são os mesmos, levando-nos a um labirinto de pensamentos sobre o passado e o futuro numa busca incoerente pela completude.
    • A completude real como um pesadelo que, uma vez tocada, nos assombrará para sempre, pois nada será suficiente, e os nossos círculos sem fim são apenas uma paródia, pois não sabemos unir o início ao fim.
    • A diferença da deusa, cuja consciência é completa, começando e terminando no ser, e a atração misteriosa das suas palavras, que emanam dessa completude.
    • A única opção real: decidir participar conscientemente na realidade ou ficar à sua mercê, completando conscientemente o círculo ao devolver cada pensamento e percepção à sua fonte, o ser.
    • O papel da metis, a qualidade de alerta intenso que pode estar consciente de tudo de uma vez, como a chave para iniciar este círculo, percebendo a totalidade como um todo contínuo e imóvel, até se descobrir que a realidade está a perceber-se a si mesma através de si.
    • O símbolo da metis como um círculo, o "circulante", a consciência que nos permite conectar o início ao fim em qualquer momento.
  • 22

    • A localização das verdades esotéricas bem à vista de todos, no mercado, onde são maioritariamente ignoradas ou "marcadas" por alguns antes de estes seguirem o seu caminho.
    • As quatro palavras de Parmenides (toi pant’ onom’ estai), o cerne do seu ensino, que os filósofos tentaram decifrar durante séculos, mas cujo significado único e óbvio no grego é "o seu nome será tudo".
    • O princípio da simplicidade verdadeira como a forma mais potente de magia, um manto de invisibilidade que torna o significado imperceptível para as mentes complicadas.
    • A constatação de que a deusa está a nomear a realidade, num ato solene de batismo, e a necessidade de se descobrir isto por si próprio, respirando e vivendo as palavras.
    • A passagem completa que inclui a nomeação: "Pois não há nada mais nem haverá nada mais além do ser, porque o Destino o ligou para ser inteiro; imóvel. O seu nome será tudo — cada único nome que os mortais inventaram, convencidos de que todos são verdadeiros: nascimento e morte, existência, não existência, mudança de lugar, alteração de cor brilhante."
  • 23

    • A natureza da lógica como tendo leis, mas não regras fixas, existindo para nos libertar, e o amor ao riso daqueles que a conhecem, que são mais sérios quando contam as piadas mais escandalosas.
    • O ato solene de nomear um recém-nascido no mundo grego, e o humor escandaloso da deusa ao realizar uma cerimónia de nomeação sobre a única coisa que nunca nasceu e nunca mudará.
    • A reaparição de todas as ilusões que a deusa tinha banido — nascimento, morte, mudança —, não sendo isto uma autocontradição, mas a transferência lógica de todos os títulos da não existência para a existência.
    • A simetria perfeita entre o ato de tirar os nomes e o ato de os redesignar, completando o círculo no meio das suas palavras sobre circularidade e completude.
    • A mudança sutil e mágica no indivíduo que testemunha a atuação da deusa, para quem nada mudou, mas tudo é diferente, pois em vez de esperar para morrer, sabe que já está morto, e todos os nomes se aplicam a uma única coisa.
  • 24

    • A natureza não ficcional do poema de Parmenides, onde temos de realizar os desvendamentos nós mesmos, pois se falharmos em reconhecer o que precisa de ser reconhecido, tudo permanecerá exatamente igual.
    • A razão pela qual a realidade descrita pela deusa não tinha nome: porque ainda não tinha sido nomeada, e os seus sinais sobre a sua identidade estavam sempre presentes.
    • A conclusão de que a realidade é tudo o que se vê à sua volta, sendo o único problema não a termos ainda aprendido a ver ou ouvir, e que todo o movimento é a percepção imperfeita de algo imóvel que contém todo o movimento dentro de si.
    • A recusa humana em aceitar que a realidade última é o que se vê à sua volta, levando os filósofos a transformar o "isso" de Parmenides numa abstração lógica noutro nível de realidade.
    • A reaparição da mesma tradição no Egito e no Oriente, com a ideia de que a realidade divina não tem nome, e todos os nomes se referem a ela.
    • A instrução final para vislumbrar a realidade extraordinária para a qual Parmenides aponta: ir até à janela e olhar para fora, para o céu e as árvores, e escutar, pois todas as jornadas intelectuais e místicas terminam aqui, onde começaram, pois estamos rodeados a cada momento pela completude.