VIDE: PARTE I DO FAUSTO
Pertinente é ainda o aparecimento de Homunculus nesta segunda parte, e o facto de agora ser ele o guia, o condutor, e já não o diabo Mefistófeles. A ampliação do mito, do maravilhoso cristão para o pagão, faz com que também o código de magia se torne redutor, e por isso mesmo seja reduzido, dando lugar a uma estrutura mais ampla e mais flexível, e mais espiritual. Essa é a estrutura hermética tal como se pode encontrar nas obras de Paracelso (que também se ocupou da fabricação de homúnculos) e de Cornelius Agrippa von Nettesheim, autores que Goethe leu1 .
O Homunculus, que aspira à forma humana, terá no final da peça um contraponto, a própria alma de Fausto (em crisálida), que aspira à forma divina.
"Nós/Bem-aventurados/Esta crisálida/Recebemos felizes/......
Desfaçamos os laços/Que a rodeiam !/Tornar-se-á bela e grande/pela força da vida sagrada."
É como se Goethe, bem ciente dos vários níveis de magia, fosse passando do primeiro e imediato, material, para um segundo, espiritual e finalmente para um terceiro, o divino — segundo as divisões que Cornelius Agrippa refere na sua Filosofia Oculta.
Ao nível espiritual se chamaria mais propriamente nível alquímico. Pois em Goethe ele prende-se com as metamorfoses ou as transmutações da alma, no mais elevado sentido, e respeitando também três níveis diferentes: o do negro, o do branco, o do vermelho (nigreâo, albedo, rubedo: as fases tradicionais).
Do impulso descontrolado à última forma de sageza é longo o caminho que o herói tem de percorrer. Através dele dissolve-se, sublima-se, coagula-se e fixa-se. O processo de transformação sofrido, desde o primeiro encontro com Mefistófeles até à ascensão com o Eterno Feminino, passa por um alargamento da consciência (que se pode traduzir pelo conhecimento do pequeno e do grande mundo), pelo desmantelamento da influência dominante (que é a de Mefistófeles) e finalmente por uma modificação da personalidade. Fausto, antes de morrer, arrepende-se do caminho seguido: "Pudesse eu a magia do caminho afastar... Perante a natureza ser apenas um homem..."
Renega a magia e aspira à condição de homem, que descobre ser mais digna. Modificou-se a sua personalidade, que daqui para a frente só poderá aprofundar-se e progredir, culminando na sua própria realização, na «realização do seu Eu superior» como diz Jung2 .
O segredo da alquimia e a sua chave (e por aqui se compreende, no Fausto, a evolução da magia para a filosofia oculta que é a alquimia) é, segundo Jung, «a existência da função transcendente, da metamorfose da personalidade graças à mistura e à síntese dos seus factores nobres e dos seus constituintes grosseiros, da aliança das funções diferenciadas e das que o não são, ou seja, em resumo, do casamento, no ser, do seu consciente e do seu inconsciente».
Enquanto mago, Fausto explora o mundo da consciência. Mas enquanto alquimista, explora o mundo do inconsciente. E só o inconsciente lhe proporcionará a verdadeira descoberta de si próprio, do universo e de Deus, do que está em baixo e do que está em cima, como se diz na Tábua de Esmeralda3 .
À tradição popular do Dr. Fausto Goethe acrescenta materiais e reflexões que se prendem com o imaginário prometaico e hermético do Renascimento e do Século das Luzes. A magia aparece-lhe, escreve Christian Lepinte, como uma doutrina superior e, neste sentido, «eleva o investigador à categoria de iluminado de Deus, de mediador entre o terrestre e o divino; está profundamente ligada ao cristianismo e baseia-se nas Escrituras». É uma teoria da salvação que procura a redenção do homem na forma iluminada da alquimia4 . Esta prova iluminada prende-se sobretudo com o entendimento dos mistérios do universo através das suas múltiplas «cadeias».
Pelo discurso de Homero alusivo à cadeia de ouro que liga o criador ao universo criado, se compreende que Deus, pela sua providência, segundo Porta, «faz com que as coisas inferiores sejam governadas pelas superiores» de acordo com uma lei necessária da própria natureza. O mago, ao conhecer tais coisas, «casa o céu com a terra», e deste modo, como um ministro que opera maravilhas, expõe os segredos escondidos no seio da natureza, revelando aos outros as verdades que foi capaz de descobrir (Ibid., p 14.). É esta a missão de Fausto, vendo bem. Como dizem, no céu, os jovens bem-aventurados: «Mas este aprendeu, / Irá ensinar-nos.» (v. 12082-83).
Uma das obras que mais entusiasmou Goethe, segundo ele próprio refere no livro VIII de Dichtung und Wahrheit, foi a Aurea Catena Homeri... publicada anonimamente em 1723, e que conheceu sucessivas reedições em 1728, 1738, 1757 e 1762, sendo por fim publicada com o título de Annulus Platonis... em 17815 . Escreve Goethe: "A mim agradou-me especialmente a 'Aurea Catena Homeri', na qual a Natureza, embora talvez de um modo algo fantástico, é apresentada numa bela interligação."
Contemplar a essência una da natureza — do homem, do universo e de Deus — transforma-se em exercício de imaginação activa para o jovem Goethe. E deste modo é levado a conceber um caminho que, tal como o da cadeia de ouro, permite ao seu herói (seu alter-ego) chegar do «Caos confuso» até à «Perfeição Consumada, ou Quinta-Essência Universal», ou seja, do Prólogo na Terra que é a vida humana ao Prólogo no Céu, seu destino final. Da magia, que se utiliza e se renega, à alquimia, que se pratica subtilmente, é esta a metamorfose, a transmutação que Fausto sofre.
Ver na Edição de Hamburgo o vol. 9, p. 342, e para maior esclarecimento as notas de E. Trunz, p. 721. A obra é atribuída a Anton Joseph Kirchweger, embora tenha circulado sem o seu nome. O autor cita Platão, a escola pitagórica, a sabedoria Mosaica, o De Philosophia occulta, como antecedentes de assinalar. E cita ainda, Philalethae Anthroposophia Mágica, obra muito curiosa do galés Thomas Vaughan, cuja influência em Goethe, que me parace sensível, ainda não foi devidamente estudada.
Reportando-me à edição de 1781, que utilizei, anoto, no respeitante a Eugenius Philaletha (pseudônimo utilizado por Vaughan) as seguintes referências: no Prólogo, p. XIII, a Anthrosoph. mag. (sic); a esta obra e a Althertum der Magie, na p. 19, a propósito da «água caótica» como princípio original da criação; novamente à Anthroposophia na p. 44; ainda à mesma nas pp. 64, 69 e 189; outra das obras a que dá relevo é o Deutsches Theatrum Chemicum, que sabemos conter dois tratados de Vaughan: Aula Lucis e Euphrates or the Waters of the East (ver Ed. Scholtz, 1731). Por outro lado, na biblioteca de Weimar, entre os livros que Goethe poderia ter consultado, encontra-se, do mesmo Vaughan, Lumen De Lumine oder ein neues Magischs Liecht / geoffenbahret und der Welt mitgetheilt durch Eugenium Philalethen, aus dem Englischen ins Deutsche ubersetzt. Hamburg, Gottfried Liebezeit, 1693. (Devo ao Dr. Kratzsch, da Zentral Bibliothek der Deutschen Klassik, de Weimar, a gentileza desta informação.)