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id da página: 9619 Ficino – Quid sit lumen Marsilio Ficino

Ficino Lumen

Marsilio Ficino – Quid sit lumen

FICINUS, Marsilius. Quid sit lumen. Paris: Allia, 1998

Resumo

  • Investigações sobre a Luz: Uma Jornada Dialética da Percepção à Metafísica
    • I. A Insuficiência dos Sentidos Corpóreos para definir a Luz
      • O narrador professa seu ódio às trevas e seu amor pela luz, que torna todas as coisas amáveis.
      • Dirige-se aos sentidos em busca da essência da luz, mas cada um—audição, olfato, gusto e tato—recusa-se, alegando estar limitado ao seu próprio domínio (sons, vapores, líquidos, corpos) e aconselhando que se busque a luz "mais alto".
    • II. A Definição Incompleta da Visão e o Paradoxo da Luz
      • A visão, identificando-se como "espírito" e "esplendor espiritual", define a luz como uma "emanação espiritual, súbita e muito estendida" dos corpos.
      • Explica que a luz é a emanação da luminosidade para os corpos diáfanos, da cor para os corpos opacos, e da quantidade, figura e movimento para todos os corpos.
      • Propõe que a cor é uma "luz opaca" e a luz uma "cor clara", ou antes, uma "espécie de flor e esplendor" do corpo transparente e das cores.
      • O narrador considera esta definição obscura, levantando o paradoxo de que nada é mais claro do que a luz, que elucida todas as coisas, e no entanto, nada é mais obscuro de definir.
    • III. A Analogia entre a Luz e Deus: Claridade e Insondabilidade
      • Confrontado com o paradoxo, o narrador eleva-se ao intelecto, questionando se a luz seria o próprio Deus, pois nada é ao mesmo tempo mais luminoso e mais obscuro.
      • Estabelece-se a analogia: a existência de Deus é a coisa mais clara, proclamada por todas as suas obras, mas a sua essência é a coisa mais obscura, especialmente para quem acredita compreendê-la facilmente.
    • IV. A Hierarquia das Luzes: Deus como Fonte Primordial
      • O intelecto responde que Deus é o "Pai das luzes", uma luz invisível, infinita e imutável, sem nenhuma mistura de trevas.
      • Define-se Deus como a "causa de cada verdade e de todas as coisas", cujo reflexo ou "sombra" é a luz visível, finita, causa das coisas visíveis.
      • Explica-se que tanto a luz divina quanto a sensível têm a natureza de revelar as coisas umas às outras: Deus vê todas as coisas em Si mesmo, tal como a luz visível, olhando para si mesma, veria todas as cores e coisas sensíveis.
    • V. A Escala dos Seres Luminosos: Da Razão a Deus
      • O intelecto adverte para se ascender por graus, evitando o deslumbramento.
      • Estabelece-se uma hierarquia de luzes: a visão é uma luz sensível; a inteligência é uma luz intelectual que busca a verdade/luz em tudo; a razão é uma luz racional.
      • A razão deve buscar a origem da luz na "luz de toda a razão", a Verdade soberana, onde a clareza e a verdade da luz se identificam.
      • Descreve-se a natureza da luz em cada nível da realidade: em Deus, é a exuberância da bondade e verdade; nos anjos, a certeza e a alegria; nos corpos celestes, a vida e o poder (o "riso do céu"); no fogo, a força vital; e em todos os seres, a efusão da fecundidade íntima e a imagem da bondade divina.
    • VI. A Alegria Cósmica: A Luz como Riso do Céu
      • A luz celeste, perfeição, graça e alegria que desce aos seres inferiores, é uma imagem (ou "sombra") da perfeição, claridade e alegria dos espíritos celestes.
      • A alegria desses espíritos manifesta-se no céu, que, como seu corpo ou olho, "ri" com o seu esplendor e "exulta" com o seu movimento, ao passo que a terra, afastada, "chora" com as suas trevas e imobilidade.
      • Cita-se a doutrina pitagórica da harmonia das esferas, movidas pelo canto das divindades alegres.
    • VII. A Geração pela Alegria: A Luz como Princípio Vital e de Prazer
      • A luz, como "riso do céu", tem um paralelo no homem, cujo rosto e olhos (de natureza celeste) resplandecem e se movem circularmente no riso, ao contrário do que ocorre no choro.
      • Os raios das estrelas, como olhos das inteligências divinas, são portados com alegria e generosidade, incubando e gerando todos os seres, tal como o olhar da avestruz sobre o seu ovo.
      • A energia calorífica destes raios é a origem da vida e do seu desenvolvimento, razão pela qual todos os seres vivos desejam o prazer, sendo gerados não apenas no prazer terrestre, mas também pela alegria celeste.
    • VIII. A Distinção entre Luz e Calor e a Precedência da Luz
      • Argumenta-se que a luz e o calor são coisas distintas, citando corpos luminosos e frios, e corpos quentes e escuros.
      • A luz se propaga mais rápido e mais longe que o calor, e precede-o causalmente, tal como a clareza da inteligência precede a disposição da vontade nos espíritos, e os raios do sol são a origem do calor no mundo.
    • IX. A Natureza Espiritual da Luz e a Analogia com a Alma
      • A luz é considerada "mais espiritual que corpórea" devido à sua propagação instantânea, à sua penetração sem colisão e à sua capacidade de iluminar sem se macular.
      • Estabelece-se uma correspondência: corpos puros (céu, fogo) brilham por si mesmos; corpos menos puros (ar, água) brilham por meio deles; corpos terrestres são opacos.
      • As cores na terra são como "corpúsculos" cujas "alminhas" são as centelhas da luz infusa.
      • Propõe-se uma analogia: assim como o corpo terrestre torna a luz celeste opaca (a cor), o corpo que rodeia a alma produz o sentido a partir da inteligência.
    • X. A Luz através dos Níveis da Realidade: Do Corpo a Deus
      • Retomando a hierarquia, explica-se que o céu resplandece e exulta não por si mesmo, mas a partir da alegria e claridade dos espíritos superiores.
      • A luz é descrita como o intelecto tornado visível através de um corpo transparente, enquanto no próprio intelecto é a verdade que se alegra e a alegria verdadeira.
      • Traça-se o percurso da luz desde o intelecto divino (luz sobreeminente), passando pelo intelecto angélico (inteligência), pela razão humana, pelo espírito (fantasia) e pelos sentidos, até se manifestar como uma luz familiar aos sentidos, mas não à matéria, especialmente nos olhos.
      • Cita-se Empédocles e Zenão, que viam a luz como a vida de todas as coisas, e Plotino e Proclo, para quem a luz é como a vista e o olhar das divindades, um "espírito divino" que vê tudo e é aquilo que todas as coisas veem.
    • XI. A Luz como Sinal Divino e Imagem de Deus no Mundo
      • A luz (lumen) é um sinal divino (numen), a imagem de Deus no templo do mundo, a tal ponto que Platão a chamou de "filho do Bem".
      • Deve ser venerada por ser semelhante a Deus: um aumento súbito e estendido que, por sua bondade exuberante, se oferece generosamente a todas as coisas sem se alterar, sendo causa, conservação e animação de tudo.
      • A luz eleva todos os seres em direção à vida, verdade e alegria das quais descende; na sua ausência, tudo parece morrer, e na sua presença, tudo parece reviver.
      • É um testemunho sensível da existência de Deus e da sua onisciência e onipresença, pois é uma pura claridade que num instante se difunde por todas as coisas.
      • Conclui-se que Deus é a "luz das luzes", uma luz infinita, fonte de vida, o Olho pelo qual todos os olhos veem, que percebe a totalidade dos seres em cada ser singular.