VIDE: SEGUNDO DIA
Roberto Pla: Evangelho de Tomé - Logion 11
Assim como o fogo o elemento paralelo do mundo espiritual, é a água o elemento em que se desenvolve a vida da alma. Por isso, aquelas águas que durante uma quarentena descarregaram sobre a terra segundo o relato do Dilúvio, são figura universal do batismo. As águas de abaixo, aquelas que se precipitam desde a vertente inferior do firmamento, levavam um desígnio purificador igual ao das águas do Jordão transitadas pelo Batista para imersão. Ambas se empregam em lavar os pensamentos que sobrevêm ao coração dos homens.
A doutrina tradicional dos três mundo se apresenta também na Bíblia da Revelação judeu-cristã. Lembremos que o relato do Segundo Dia no Gênesis descreve simbolicamente não somente a criação do mundo corporal, mas também dos dois outros mundos, o que comentadores modernos não parecem duvidar. As «águas superiores» representam então o mundo das realidades espirituais, e as «águas inferiores» aquele das realidades sutis e corporais, Com efeito, estas «águas inferiores» são em seguida separadas, horizontalmente, em mar mundo sutil e em terra mundo corporal.
Antonio Orbe: ANTROPOLOGIA DE SÃO IRINEU
A história da exegese das duas criações se presta a curiosas reflexões. Sem sair de Orígenes, as duas criações do homem interior (Gen 1,26s) e do homem exterior (Gen 2,7) ofereciam uma estranha correspondência com as duas espécies de "água": água superior ao firmamento e a água inferior (Gen, 1,6s). O problema implicitamente planteado por semelhante correlação salta à vista. A água superior ao firmamento se identifica, de um lado, com o intelecto ou nous feito à imagem e semelhança no sexto dia (segundo Gen 1,26s); por outro lado, da água inferior, coincide com o homem modelado (segundo Gen 2,7). Que cronologia prevalece? É originalmente atendível a espontânea cronologia de Moisés?
Há que situar ou não na eternidade a criação do homem interior, ou seu equivalente o mundo noético, Orígenes mantém sua relativa prioridade frente ao homem sensível ou exterior. Entre a água superior e a inferior ao firmamento há que abrir o parênteses do pecado e da distribuição, por categorias, dos racionais. A dupla criação subsiste, separada cronologicamente com o hiato que medeia entre a aparição do cosmos noético e a do mundo sensível, e espacialmente ratificada pelo firmamento.