Stephen Hirtenstein, O compassivo ilimitado: a vida e o pensamento espiritual de Ibn Arabi
Na seguinte passagem, que descreve as implicações contemplativas deste conhecimento, Ibn Arabi clarifica esta distinção entre o que ele chama de Um como Essência (ou o princípio unitário) e o Um como Nome (ou o primeiro número):
Agora, se Ele se manifesta em Seu Nome [Um], não se manifesta em Sua Essência ao mesmo tempo, exceto em Sua própria condição particular, que é a Unidade. Em qualquer posição que Ele se manifeste em Sua Essência, não manifesta Seu Nome, mas é nomeado naquela posição por qualquer que seja a realidade que aquela condição dê a Ele. E por meio do Seu Nome naquela posição que há extinção, enquanto que é por meio de Sua Essência que há subsistência. Portanto, se dissermos “Um” (Wahid), tudo que não seja Ele é aniquilado por meio da realidade desse Nome. Por outro lado, se dissermos “dois”, sua realidade essencial (realidade do dois) se manifesta por meio do Ser da Sua Essência [Um] naquela condição, não por meio do Seu Nome [Um]. Seu Nome [Um] nega a existência dessa condição, ao contrário de Sua Essência.
O que está sendo enfatizado aqui é a distinção entre dois aspectos da Unicidade. Seus nomes em árabe são Wahid e Ahad (que podemos traduzir por Um e Único, respectivamente) e têm sido assunto de muito debate entre os teólogos árabes. Ambos são nomes Divinos no Alcorão: o Nome Ahad aparece uma única vez, sem adornos qualificativos, enquanto o Nome Wahid aparece três vezes, sempre em conjunção com o Nome al-Qahhar (o Destruidor). Parece claro que Ibn Arabi está, como sempre, bem atento às Escrituras: ele equipara o “Único” (Ahad) à Essência, princípio da Unidade, que transcende a numeralidade, sem negar a existência de qualquer outro número e o “Um” (Wahid) ao Nome, primeiro número, cuja própria realidade nega e “destrói” todos os outros. Lembrando que esta analogia numérica descreve acima de tudo uma ciência contemplativa, ele acrescenta de imediato: