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id da página: 9685 Acontecimento Simbolico

Acontecimento Simbolico

EUGENIO TRÍAS — O SÍMBOLO RELIGIOSO

O ACONTECIMENTO SIMBÓLICO

O símbolo é uma unidade (sym-bólica) que pressupõe um rompimento. Em princípio, encontram-se desencaixadas nele a forma simbolizante, ou o aspecto manifesto e manifestativo do simbólico (dada a visão, a percepção e a audição), e aquilo que é simbolizado no símbolo é que constitui seu horizonte de sentido. Eles possuem certas formas, figuras, presenças, traços ou palavras, mas não dispõem das chaves que permitem orientar-se devidamente com relação ao que significam. Há, portanto, um rompimento originário, ou partição, em forma de premissa de todo o drama simbólico. Determinada aliança prévia ao desfazer dos nós de tal drama prepara e dispõe esse cenário de exílio no qual se encontram separadas as duas partes que atuam como dramatis personce: a parte simbolizante e a que se encontra subtraída. O drama orienta-se em direção ao cenário final de reunião, ou de unificação, no qual se "lançam" ambas as partes e se assiste a sua desejada união1 .

As categorias simbólicas fornecem determinação a esse cenário dramático e ao processo ou curso que constitui seu argumento. Tais categorias revelam, ou destacam, as condições que permitem ou possibilitam o acontecimento final, ou o desenlace do drama2 , e encontram-se escalonadas: a primeira prepara a segunda, esta constitui a condição da terceira, etc. São diferentes revelações, em virtude das quais emergem à plena luz as condições da manifestação simbólica. Tais revelações constituem uma escala que pode figurar em forma musical, como a escala dos intervalos musicais, supondo que a primeira revelação determine a segunda, esta a terceira, etc.

Destaca-se, no curso do processo, a forma ou figura simbolizante. Mas esta pressupõe uma condição que intervém como fundamento: a matriz própria de toda a manifestação simbólica. Tal matriz, ou matéria, dota o símbolo de suporte físico. Deve certamente ser tomada ou transformada, para que então se apresente como forma ou figura simbólica.

Essa matéria simbólica revela-se como a primeira condição ou categoria: ela abre o caminho e o movimento que culmina no acontecer simbólico. Este não pode produzir-se sem pressupor a dimensão material, que atua como o mais baixo e fundamental intervalo da escala [para descrevê-lo em termos musicais). Essa dimensão material constitui o basso ostinato que suporta o edifício tonal. E, neste sentido, em todo símbolo destaca-se o caráter material ou matricial.

Sobre tal matéria simbólica, pode-se, portanto, estabelecer a segunda condição. Para que haja acontecer simbólico, esse substrato materno, matricial, deve ter sido ordenado e delimitado até surgir como um cosmos. Deve ter "criado" ou "formado" um mundo (que conceda à matéria indiferente limites, demarcações, determinações). Tais demarcações do material surgem como recorte espacial (témenos, templum) ou como marca temporal (hora, têmpora, tempus: determinação festiva)3 . Templo e festa apresentam-se, portanto, como os efeitos (no espaço e no tempo) dessa transformação da matéria em cosmos ou em mundo.

Com isso se dispõe portanto do cenário que intervém como condição de possibilidade do acontecimento simbólico. Isso constitui sempre um encontro ou uma relação (sym-bálica) entre certa presença que sai das sombras e certa testemunha que a reconhece (e que determina sua forma ou sua figura). Essa presença (do sagrado) e essa testemunha (humana) compõem uma correlação: uma genuína relação presencial que sela, de forma clara, tal encontro. Em virtude dessa relação presencial, a presença adquire forma ou figura: como teofania, figura suscetível de ser representada, ou como aura de glória, ou irradiação luminosa.

A referida relação presencial constitui, portanto, a condição de possibilidade de uma genuína comunicação entre a presença e a testemunha (por meio da palavra ou da escrita). Tal comunicação verbal ou escrita consuma a manifestação simbólica, ou arremata o processo simbolizante do símbolo. Surge, como resultado dessa comunicação, uma revelação em forma de palavra (sagrada) ou de escrita (santa). Com isso resulta selada e cerrada a série escalonada das categorias simbolizantes.

Esta última categoria (verbal, escrita) constitui a condição (material) da primeira categoria relativa ao simbolizado. A revelação (oral, escrita), consumada por meio da comunicação, impõe agora uma exegese: um envio ou uma remissão do lado simbolizante manifesto (literalidade da palavra ou do texto) às chaves (hermenêuticas) que lhe podem revelar o sentido. Sem manifestação prévia ou revelação (poética, profética, inspirada), tal remissão é impossível. Mas, uma vez concluída essa manifestação, é necessário determinar o método (exegético, alegórico) que conduz a tais chaves, atuantes como formas ideais do sentido.

Ocorre que essas formas ou ideias (platônicas, gnósticas, neoplatônicas) chocam-se preliminarmente com um obstáculo final em que o impulso exegético e alegórico é refreado. A remissão ou o envio conduz essa manifestação de ideias ou de formas até o extremo mais longínquo, no qual parece anular-se toda indagação de sentido. O símbolo (diferentemente da alegoria ou do esquema conceituai) traz sempre um resquício místico que revela seu caráter estruturalmente religado a um substrato secreto, selado, santo (ao sagrado, com sua peculiar ambivalência)4 . As condições ideias do sentido são, portanto, as que atuam como condição dessa elevação até o místico.

Mas esse encontro místico, para consumar-se como acontecer simbólico, deve, portanto, retroceder até um âmbito no qual se pode produzir o enlace entre as duas partes consideradas, a simbolizante e a simbolizada. Neste sentido, a mística abre a necessidade de um retrocesso nessa elevação, negativa e superlativa, sobre o constitutivamente transcendente, em direção ao espaço fronteiriço no qual o símbolo pode pôr-se à prova, tratando então de constituir-se como um encaixe possível, de natureza sim-bálica, entre a parte simbolizante e o que nela se simboliza.

Portanto, nesse espaço fronteiriço tem lugar a consumação simbólica: as duas partes do símbolo, simbolizante e simbolizado, encontram sua conjunção e seu lugar de co-incidência. Então, por fim, o símbolo produz-se como verdadeiro acontecimento. O símbolo realiza-se como símbolo, ou alcança sua teologia imanente. Assume, assim, todas as condições que lhe são preparadas e predispostas, promovendo-se como acontecimento simbólico.


NOTAS:
1 Símbolo era, em sua origem, um reconhecimento: uma moeda ou medalha cortada que se entregava como presente de amizade ou de aliança. Aquele que a dava ficava em posse de uma das partes. Aquele que a recebia ficava com a outra metade, que no futuro poderia ser usada como prova de aliança, fazendo apenas encaixar sua parte com aquela que o outro possuía. Nesse caso, as duas partes eram aproximadas, para que vissem se se encaixavam. Vem daí a expressão sym-bolon, que significa aquilo que se "lançou conjuntamente".
2 Do conceito kantiano de "categoria" retenho aqui o sentido de "condição de possibilidade" (neste contexto, condição que faz possível a produção do acontecimento simbólico). Estas categorias são condições necessárias, de forma que todas elas constituem requisitos indispensáveis para que ditos acontecimentos possam ter lugar. Estas categorias são, ademais, revelações sucessivas e escalonadas desse acontecimento.
3 Témenos ("templo", em grego) significa "demarcação, recorte" (radical tem, com o sentido de "cortar"). Demarcação e recorte, ou delimitação de um espaço sagrado; por exemplo, a criação de uma "clareira" no meio do bosque mediante o cortar de árvores ou o aproveitamento de uma abertura; deve-se marcar o limite do espaço desejado por meio do corte das árvores que o circunscrevem, já que os limites desse lugar sagrado são tabu, ou só podem ser transitados de forma ritual. Templo é, portanto, o lugar do sagrado, que é limitado pelo "natural" (selvagem ou boscarejo). Introduz um "estreitamento" da densidade boscareja em virtude da qual surge um lugar para o sagrado, ou este ocupa um lugar. O templo é, em síntese, o sagrado como lugar, enquanto a festa é o tempo do sagrado, o sagrado como tempo. Tempo, tempus, possui a mesma raiz que templo. Ver Cassirer, Ernst, A filosofia das formas simbólicas; Nissen, Das Templum.
4 Essa ambivalência encontra-se registrada nas línguas grega e latina (e castelhana): ágion (sanctus, santo) e hiéreon (sacer, sagrado). Trata-se de duas dimensões articuladas de um mesmo fenômeno (o santo-e-sagrado). O santo faz referência ao mais alto e elevado: o que não pode ser tocado nem alcançado (nem sequer visto) pela testemunha. O sagrado, por sua vez, pode ser tocado, pode-se trabalhar com ele (no objeto de culto ou sacrifício), com o qual pode se destruir e se consumir; o sagrado pode fazer referência a algo execrável que deve ser rechaçado. Sagrado pode chegar a significar "execrável, condenável, sinistro" (assim como o sacer latino). Veja Freud, Totem e tabu. Sobre a forma dupla de apresentar-se do sagrado, como um mistério que produz horror [phóbos) e/ou fascinação, ver Otto, Rudolf, Das Heilige. Esse autor conceitua "o sagrado-e-o-santo" como o referente de uma experiência de radical alteridade, relativa ao "Grande Outro" (Ganz Anderes). Trata-se de uma Alteridade radical que se encontra encerrada no "mistério" ou que mantém algo escondido e encerrado, ou enclausurado (mystes, o encerrado em si). Tal mistério dá lugar à dupla experiência do misterium fascinans (aspecto encantador e fascinante do sagrado) e do mysterium tremendum (aspecto terrível e ameaçador do sagrado). Ambas as dimensões encontram-se intimamente vinculadas.