EXCERTOS DE "A RELIGIÃO"
O que é, em que consiste, o que pode ser chamado símbolo?
Entendo-o como a revelação sensível e manifesta do sagrado. A religião é, a meu ver, re-ligação relativa ao sagrado (entendendo, evidentemente, a ambivalência radical que essa palavra expressa: sacer/sanctus, o sagrado e o santo).
Trata-se de pensar o símbolo e determinar as categorias que podem ser deduzidas dessa reflexão. Com isso, entender-se-á o sentido original e etimológico do termo. Falar-se-á mais de "simbolizar" (forma verbal) que de símbolo (substantivo). Com efeito, far-se-á referência à ação mediante a qual "lança-se ao mesmo tempo" (sym-balein) dois fragmentos de uma moeda ou medalha dividida, que formam, em sinal de reconhecimento, uma aliança.
Um desses fragmentos pode ser considerado disponível (o fragmento que se possui). O outro, por sua vez, encontra-se "em outra parte". O acontecimento simbólico constitui um complexo processo, ou curso, no quadro do qual pode ter lugar o encaixe e a coincidência de ambas as partes. Uma delas, a que se dispõe, pode ser considerada a parte "simbolizante" do símbolo. A outra, a que não se dispõe, constitui essa outra metade sem a qual a primeira necessita de horizonte de sentido: a que envia a primeira para obter significação e sentido (aquela que, da parte simbolizante, constitui o que esta simboliza: o nela simbolizado).