Marie Madeleine Davy
Os Padres do deserto são conhecidos por nós através dos Apotegmas dos Padres ("Sentenças dos Padres" do deserto)1 . Esses textos reunidos, tão breves quanto densos, se apresentam como um livro de formação essencialmente prática. A sua finalidade é ajudar os eremitas a se libertarem das paixões e a desenvolverem seu discernimento espiritual. O discernimento apurado é muito importante para homens dedicados à solidão, privados, o mais das vezes, de guias externos e contando, em sua anacorese, somente com o espírito. Ninguém nasce eremita. A vida na solidão não poderia ser improvisada. Exigia-se dos "candidatos" que ficassem na proximidade de um "ancião", a fim de poderem recorrer aos seus conselhos. Às vezes o jovem noviço vivia na companhia de um homem dotado de experiência e o servia, não como servo, mas somente para aliviá-lo dos cuidados externos e permitir-lhe dedicar-se com plena liberdade à solidão contemplativa. O exemplo do ancião e a sua palavra substituíam a legislação concernente aos cenobitas. Na falta de uma regra reconhecida e executada diariamente, o principiante seguia a orientação dada por seu mestre espiritual.
Fora da reunião dominical, os eremitas quase não se encontravam entre si; às vezes recebiam a visita de outros solitários. Era costume pedir aos anciãos, isto é, aos homens dotados de uma experiência totalmente independente da idade, que respondessem às questões a eles propostas e formulassem "uma palavra de salvação" que pudesse ser meditada durante meses ou até anos. Formados, os solitários podiam viver na solidão total, não mais receber visitas, a não ser raramente, para darem, por sua vez, conselhos aos principiantes. Em certos casos, não eram mais obrigados a participar das reuniões litúrgicas. Por causa disso, eles quase não praticavam a abertura do coração, que ainda é uma forma de se interessar por si mesmo. Renunciar a si... exige que não se volte mais a si mesmo, inclusive ao próprio aperfeiçoamento.
Seleção Jean Gouillard
O abade Bessarion, moribundo, disse: "O monge deve, como os kerubims e os serafins, ser apenas olho"'.
O abade Dulaz disse: "Quando o inimigo (echthros) nos pressiona a deixar a solidão (hésychia), não lhe escutemos. Nada vale a aliança da solidão e da fome, para lutar contra ele. Ela busca uma visão penetrante aos olhos interiores".
(Ouvido por Epifânio): "O verdadeiro monge deve ter sem cessar no coração (kardia) a oração (euche) e a salmodia".
Evágrio disse ainda: "Corte as numerosas relações, se não queres que teu espírito (nous) divague e perturbe tua solidão (hésychia)".
Elias disse: "Os homens têm a mente ou nas próprias faltas (hamartia), ou bem em Jesus, ou bem nos homens".
Teonaz disse: "É porque nossa mente negligencia a consideração de Deus, que caímos no cativeiro das paixões (pathos) da carne (sarx)".
João Colobos disse: "A prisão (jogo de palavras: o grego tem uma única palavra para "guarda" e "prisão") é manter-se sentado em sua cela e evocar (talvez também lembrar) Deus, sem cessar. É o: "Eu estava preso e Vós me visitastes".
Cranios disse: "Que a alma (psyche) pratique a sobriedade (nepsis), retire-se da distração e renuncie a suas vontades (thelema); então, o Espírito de Deus se aproximará dela".
Poimém disse: "O princípio de todos os males (kakon) é a distração".
Poimém, disse ainda: "Precisamos de uma só e única coisa: uma alma sóbria (nepsis)".
Seleção James Cutsinger
6a. Quando o abade Sisoes estava na sua cela, fechava sempre a porta. (Sisoès, 24).
6b. Os padres cercavam o abade Sisoes no dia de sua morte. Sua face começou a resplandecer como o sol e ele disse: "Eis oa abade Antão que vem". Em seguida: "Eis o coro dos Profetas". Em seguida, sua face resplandeceu ainda mais e ele disse "Eis vir os coro dos Apóstolos". Sua face brilhou em dobro; ele parecia se entreter com alguém. Os anciãos o suplicaram: "padre, com quem falas?" — "São os anjos que vêm me buscar, e eu lhes peço que me deixem fazer ainda um pouco mais de penitência". Os anciãos lhe dizem: "Pai, não necessitas fazer penitência". — Na verdade, respondeu ele, tenho consciência de ter feito só um princípio de penitência". Todos então compreenderam que era perfeito. então sua face se subitamente como o sol, e todos tiveram medo. Ele clamou: "É o Senhor que vem, e disse: apostai-me este vaso de eleição do deserto". Com estas palavras, Sisoes rendeu o espírito. Se tornou brilhante como o relâmpago e todo o lugar se encheu de um odor agradável. (Sisoès, 14).
Seleção D. Estêvão Bettencourt
NOTAS