BARET, Éric. De l’abandon. Paris: les Deux océans, 2004
Pode nos esclarecer sobre a forma de gerir a passagem para viver a dualidade entre o yin e o yang? Como controlar, por exemplo, a passagem da mulher que pode ser a leoa quando vive seu lado mulher e, quando vive seu lado homem, passa para o cão? Quais são os controles dessa dualidade? Qual é o papel das três vias do meio?
Parecem conhecer bem esses assuntos difíceis. Existem livros muito bons ainda mais complicados sobre isso. Aqui, infelizmente, não detemos resposta a esse nível. As coisas são muito mais simples: o sentido lhes trará de maneira direta a resposta a todas essas formulações – as quais têm seu valor e não são gratuitas.
O hinduísmo ou o islã também têm suas sutilezas. Todas essas coisas são verdadeiras, mas além dessa conceitualização está o sentido. Vão se perder em livros, em seminários e em grandes teorias que, apesar de sua profundidade, têm todas suas limitações.
O importante não é saber algo, mas se conhecer a si mesmo. Quando quero estudar o taoísmo, o hinduísmo, o cristianismo, seja lá o que for, me afasto de mim mesmo. Não há nada a estudar. Todas essas formulações eram feitas originalmente para nos trazer de volta a nós mesmos, infelizmente não funcionou. Às vezes permitem alguns clarões, mas mesmo assim permanece uma forma de distanciamento. Algumas pessoas conhecem perfeitamente o Vedanta mas não sabem nada sobre seus medos: isso não serve para grande coisa. Pessoas que sabem tudo sobre taoísmo e não suportam críticas não conhecem nada. Lembro-me de um momento de graça com Terence Gray – Wei Wu Wei – onde, movido pelo céu, ele repetiu três vezes com a intensidade que só a inspiração dá: "Sabem, o taoísmo, isso não existe, só há o tao!"
Portanto, voltar a esse sentido, humildemente, simplesmente, e dar-se conta de que é o que há de mais alto. Nenhum tratado poderá levá-los tão longe. Os tratados devem calar-se para permitir que o sentido viva em vocês. O único efeito de um tratado é trazer uma saturação, uma espécie de calma mental.
Permaneçam tranquilos, não há nada a compreender. Nessa pacificação, poderão começar a deixar viver o que é importante.
Essas belas teorias profundas só estão aí para acalmar nossos medos. Um dia, não se perderão mais em livros, em ensinamentos ou em seminários. O que é importante para vocês, são vocês mesmos. É gratuito; sempre o terão à mão; não terão lugar algum para ir meditar, para ficar tranquilos. É seu presente a cada instante. Voltem a esse presente constante. E, magicamente, compreenderão por que alguns expressaram a virulência, o rugido desse presente sob a forma de cinco, dois ou três elementos.
Tudo é verdade. Tudo é uma maneira de falar. Mas é uma expressão que me afasta desse sentido.
É preciso estar além do tratado para compreender o tratado. É por isso que ler tratados é uma forma de barreira.
Voltem à sua própria experiência de ser, que está constantemente disponível. Nada lhes é distante. A coisa mais profunda, são vocês. Quando os compreendem de maneira não mental, os tratados só falam de vocês. Mais ou menos desajeitadamente, falam de sua beleza. Lê-los-ão como se lê um poema, como se acaricia um joelho, como se olha a lua: sem razão. Aí, os tratados se revelarão. Mas enquanto buscarem compreendê-los, se agitarão muito por pouca coisa.
É exatamente o que sinto. Penso que há uma primeira fase em que se buscam os saberes e técnicas para encontrar seu caminho. Depois, quando o encontramos, podemos abandonar todas as técnicas que nos foram ensinadas.
O poder é imaginário. O verdadeiro poder não é individual, não está nas mãos de ninguém. O único poder que temos é o de ter um ano a mais a cada ano. Às vezes, a intuição se desenvolve, sentimos que a mesa vai rachar; se nos imaginamos ser um grande iogue, dizemos: "Quero que a mesa rache", e ela racha. Isso não quer dizer que a fizemos rachar: significa que intuitivamente estivemos em acordo com a realidade.
Nunca ninguém faz coisa alguma. Não há autor na ação. A ação vem do coração, não é individualizada. Os poderes são portas, símbolos que não devem ser tomados ao pé da letra.
O verdadeiro poder é estar tranquilo. Dar-se conta de que não precisa de nada para ser feliz, que não tem nada a realizar, que não falhou nada em sua vida: sua vida é perfeita. Esse poder é extraordinário; cobre todos os outros. Mas querer algo é uma forma de fraqueza, não contém nenhuma potência. A potência é saber-se livre de toda vontade. É uma vontade essencial.