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id da página: 12963 Cacciari – Musil – Homem estatístico Robert Musil Massimo Cacciari

Cacciari Musil Homem Estatistico

CACCIARI, Massimo. Paradiso e naufragio. Torino: EINAUDI, 2022.

Törleß conclui com as palavras: “Não sei nada agora sobre mistérios. Alles geschieht: Das ist die ganze Weisheit. Tudo é acaso: eis toda a sabedoria” (Törleß, p. 194). O jovem contemporâneo do infeliz Lord Chandos de Hofmannsthal “toca” assim a borda da experiência que dá origem ao próprio Tractatus. Não há outro mistério senão, precisamente, que algo aconteça – e não há outro mundo senão aquele formado pela totalidade dos acasos. É como se, entre os múltiplos significados do ser, apenas este tivesse permanecido, o acidental, o aristotélico tó symbebekòs. É possível construir uma ciência a partir disso? Eis a questão decisiva. É claro, de fato, que se só podemos falar do acidente como “sofistas” (só o devir existe) ou se só é possível uma mera narração impressionista, a única “visão de mundo” coerente torna-se a do relativismo absoluto e, isto é, do relativismo que se dissolve até a afasia. O interesse matemático-lógico de Musil parte dessa questão: ela dá início programaticamente ao Homem sem qualidades. O mundo é um caldeirão de casos físicos, meteorológicos, psíquicos. Nada existe sempre, e, no entanto, tudo na maior parte das vezes sim. E não só infinitos acidentes podem acontecer a qualquer ser, mas qualquer ser muda incessantemente de rosto e de nome. O caso (Zufall no Tractatus) existe, não é um véu de Maya que pode ser rasgado; o caso existe e é tudo o que é dizível. Para definir uma ciência, é necessário descobrir suas causas? Essa seria a maneira tradicional de abordar o problema – e não levaria a nenhuma solução. O fato de os acontecimentos naturais nos parecerem compreensíveis apenas de acordo com leis causais é uma necessidade interna; tratar a lógica metafisicamente e pretender eliminar a dimensão psicológica “é facilitar as coisas” (Diários, p. 193)2. De forma totalmente nietzschiana: com que direito podemos definir como “lei” a descrição lógica de dados factuais (Diários, p. 206)? Podemos apenas afirmar que a alguns “conteúdos de pensamento” está associado um sentido de evidência; “desta situação, porém, não se pode deduzir nada para o caso em que tais conteúdos de pensamento não sejam colocados” (Diários, p. 207). A causalidade é um “conteúdo de pensamento”, de forma alguma uma “verdadeira objetividade”; se, portanto, for possível construir uma ciência do caso, ela nunca surgirá da descoberta das “leis” que o produzem. No entanto, os casos se manifestam de acordo com “ordens” ou são a elas atribuíveis. E aqui, na descrição dessas ordens, atua o “homem matemático” – e aqui é possível uma “saudável” distinção da instância psicológica, a rigorosa distância desta última que também Husserl exige. Os casos não se amontoam caoticamente; eles permitem satisfazer nossas necessidades de forma. Por mais que ignoremos suas causas “últimas”, ou seja impossível concluir sua análise com a definição de leis objetivas, eles manifestam ritmos que se repetem, regularidades particulares. Sob diferentes máscaras, eles retornam. A essa tendência se agarra quem não deseja se dispersar no Unsichere, quem não deseja se dissipar no impressionismo de palavras imprecisas e inadequadas. A utopia da exatidão é uma possibilidade, e não um sonho vazio, justamente graças a esse fundamento, diria ontológico: o caso é descritível segundo ordens definidas. E esse é todo o “mistério”! Que o puro acaso, isto é, se manifeste segundo formas que também permitem predizê-lo, resultando, no final, nesses limites, cientificamente compreensível.

A primeira linguagem elementar da utopia da exatidão é, portanto, a da estatística; o “desencantamento estatístico” (“die statistische Entzauberung”, I, II, XL, p. 213, muito mais do que um “refúgio na estatística”, como disse Spengler a respeito do princípio da entropia, conforme interpretado por Boltzmann) precede “logicamente” toda tentativa, por parte do sentimento, de aprender “a usar o intelecto” (I, I, VIII, p. 45). É sobretudo em sua conversa com Gerda (I, II, CIII) que, quase com pedantismo mal dissimulando o temor que aquele encontro, aquele “acaso” lhe suscita, Ulrich explica o princípio. Observamos em todos os fenômenos regularidades que têm a aparência de leis naturais e que, em vez disso, carecem de qualquer fundamento. Daí decorre “o fato especial de que nunca acontece nada de especial”, que tudo é caso, mas que, no final, todos os motivos particulares, todos os elementos casuais, cada movimento individual, parecem não contar mais nada, ser totalmente indiferentes, e “resta... já, o que resta? Era isso que eu queria perguntar-lhe”. Podemos responder, como leigos, a média, algo que “não se sabe bem o que é”, não sendo nenhum “caso” particular. Mais propriamente, deveríamos dizer: “a mais profunda falta de sentido” (I, II, CIII, p. 670). E, no entanto, é certo que “em todo caso, repousa sobre essa lei dos grandes números die ganze Möglichkeit eines geordneten Lebens”, a possibilidade-concebibilidade de uma vida dotada de forma, de uma intuição da vida que não se rende ao fluxo das impressões e que, por outro lado, não busca consolo no antigo Éden do Princípio da causalidade.

No entanto, é evidente que tal “orientação” estatística ao enfrentar o oceano de casos impediria, se absolutizada, a atenção e, portanto, a descrição exata de qualquer emoção. Se, para dar forma à “conhecida questão das contradições, da incoerência e da imperfeição (Unvoll-kommenheit) da vida” (I, I, VII, p. 32), não tivéssemos outro meio além da ciência estatística, nunca poderíamos “salvar os fenômenos” a não ser anulando-os na insensatez do “universal”. Pode ser que um dia a palavra destino (Schicksal) adquira um significado estatístico (II, III, VIII, p. 76), pode ser que tudo “converja para o mesmo fim e tudo sirva a um desenvolvimento, que é impenetrável e inevitável” (ibid., p. 78), mas a exatidão estatística por si só nunca poderá ser invocada em relação ao caso em sua singular e peculiar irredutibilidade. Portanto, trata-se de uma exatidão imperfeita por definição, justamente porque indiferente, por princípio, àquela “questão conhecida” da vida, tal como ela acontece. A orientação estatística continua sendo indispensável para curar os sonhos da Lei, mas apenas como orientação — ou como constante contra-ataque irônico a qualquer pretensão de entender qualquer caso como uma exceção absoluta, qualquer emoção como incomparável, qualquer movimento como transgressivo.

Apesar disso, o “desencanto estatístico” é radicalmente insuficiente para corresponder à exigência que expressa a “utopia da exatidão” também por outra razão mais essencial. A estatística permite compreender o acidente, dar forma ao fluxo dos casos, subtraindo essa dimensão do ser ao quase nada a que já a condenava a metafísica aristotélica, mas nada sabe sobre aquele caráter, imanente ao próprio caso, pelo qual ele não é apenas um dado de fato, mas também um possível. Para ser “exato”, é preciso também possuir o “sentido da possibilidade”, ser “Möglichkeitsmenschen”. Esses “possibilistas” não são, de forma alguma, simplesmente sonhadores infantis, visionários ou, pior ainda, pobres loucos. Pelo contrário, eles expressam um senso preciso da realidade como possível; eles percebem o mesmo fato como algo que poderia não ter sido e como uma experiência provisória. Não só isso; eles concebem tudo o que acontece à luz das “intenções ainda não despertas de Deus”, como um traço do que ainda poderia acontecer (I, I, IV, p. 17). A realidade, para eles, é mais uma “tarefa e uma invenção” (“Aufgabe und Erfindung”) do que um “estado”. A terra, para eles, “não é de forma alguma velha e não se pode dizer que seu seio tenha sido realmente abençoado” (ibid.). Seria totalmente enganoso separar o senso da realidade e o senso do possível: mesmo o possibilista possui o senso da realidade, “mas é um senso da realidade possível” (ibid., p. 18). A realidade não é, para ele, decomponível em qualidades bem determinadas e distintas, em valores conhecidos. Cada “estado de fato” germina possibilidades ainda inéditas. Cada caso promete novos e imprevistos acidentes. E o “possibilista” está como que à espera deles. Portanto, nunca podendo se conformar com as características do que simplesmente acontece, ele será essencialmente um Homem sem qualidades. O homem sem qualidades é precisamente aquele que amadurece o simples “tudo acontece” na forma do desencanto estatístico e sabe combinar este último com o sentido da realidade possível. Este conhecimento constitui a base de sua formação – com tal conhecimento terminaram seus Lehrjahre, seus anos de aprendizagem.

Aquele que capta a realidade de acordo com a perspectiva da Unvollkommenheit que a caracteriza e suas contradições como sinal de um futuro que urge em seu seio, futuro que só nos limites estreitos da estatística é possível delinear, conseguirá finalmente compreendê-la de forma mais forte e rigorosa do que o simples “realista”. Essa sensibilidade particular que lhe permite perceber em cada caso a sua radical infundamentação e pressagiar as suas futuras metamorfoses, permite-lhe também descrever com realismo sóbrio a criticidade da situação presente ou, melhor, saber como o «ponto crítico» está à espreita em toda a parte. Essa “sabedoria” do Homem sem qualidades confere a todo o romance sua tonalidade de fundo. Ulrich é precisamente aquele que vagueia por todas as dobras da história, mostrando, em suas palavras como em seus silêncios, como o ponto de ruptura pode se determinar em qualquer lugar, como em qualquer ponto o “sistema” pode entrar em colapso. Nada aqui é insignificante, e realmente Deus e o demônio habitam juntos em cada detalhe. O caso que, como tal, pelo simples desencanto científico, permanece totalmente indiferente ou equivalente ao fato, é “resgatado” pelo olhar do possibilista em sua singularidade, de alguma forma sempre extraordinária, pois justamente um caso qualquer pode revelar-se a porta estreita pela qual irrompe a força que determina a catástrofe do todo. Toda a realidade que parece fluir-retornar equivalente vive dessa inquietação telúrica. Durante suas “férias da vida”, em busca de suas “capacidades” (I, I, XIII, p. 60), Ulrich não gira “em vão” nem por um instante. Ele se move, ao contrário, constantemente em torno do “ponto crítico” ou em busca do possível ponto crítico, na impossível possibilidade de prever isso. Ele sabe que nenhuma qualidade especial do “ponto” que provocará o colapso do sistema será suficiente para explicar sua explosão. O próprio caráter do Homem sem qualidades é ontologicamente conforme a essa situação. Ele sabe em si mesmo e de si mesmo como variações mínimas podem produzir catástrofes, pois experimenta em sua alma esse princípio, que é precisamente o fundamento mais profundo de todo paralelismo psicofísico. Se fosse necessário dar-lhe um nome, ele o chamaria de “das Prinzip des unzureichenden Grundes!”, o princípio da razão insuficiente (I, II, XXXV, p. 178). Ao contrário do que ensina a “filosofia das universidades”, “acontece sempre aquilo que propriamente não tem nenhuma razão para acontecer”. E o princípio não vale apenas no âmbito pessoal ou na história política e social (onde poderia ser chamado de lei da heterogênese dos fins). Ele assume para Musil, como antes, sob outra forma, para Nietzsche, um valor epistemológico mais geral: é toda a realidade que não parece mais descritível através de conexões causais deterministicamente entendidas. É toda a realidade que parece nada mais do que uma possibilidade. É sua descrição que envolve essencialmente o “estado” do sujeito observador e, portanto, só é compreensível em termos psico-físicos. Um princípio de razão suficiente é tão pouco compreensível na realidade física e analisável com os instrumentos da matemática quanto no mundo contraditório e incoerente da vida. E Musil tem uma confirmação evidente disso quando, após a conclusão do primeiro volume de O Homem sem Qualidades, lê o grande vienense Erwin Schrödinger (Diários, p. 780) sobre o paradoxo da “lei dos casos”.

A vocação matemática do Homem sem qualidades tem, no entanto, uma razão sólida. A matemática que saiu da “crise dos fundamentos” não expressa de forma alguma a pretensão de ser a própria linguagem da natureza, mas pretende valer como a “ficção” necessária para colocar em alguma ordem as relações entre os entes e entre o observador e o observado. O mundo das relações e das funções não tem, ontologicamente, nenhum fundamentum inconcussum, e, no entanto, o formalismo matemático parece ser o único capaz de representá-lo com rigor. É concebível algo análogo, no sentido forte da analogia, para os mundos do sentimento e da vida? É possível construir, também aqui, um Princípio de razão insuficiente? Ou o homem sem qualidades terá de se limitar a refinar o seu sentido do possível até levá-lo a um “desejo absurdo de irrealidade” (I, II, LXIX, p. 392)? Dessa questão nasce a “utopia do ensaísmo”, ou seja, da forma literária capaz de corresponder àquela “utopia da exatidão” à qual apenas os procedimentos estatístico-matemáticos parecem se aproximar. Não há outro caminho para o “possibilista”, que deseja colocar em imagem o princípio da razão insuficiente, a não ser o de se tornar “ensaísta”.