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Robert Musil

BOUVERESSE, Jacques. L’homme probable: Robert Musil, le hasard, la moyenne et l’escargot de l’histoire. Combas: Éd. de l’Éclat, 1993.
Na época em que escreve, já se podem invocar fatos experimentais e teorias que conhecia certamente, que parecem indicar claramente que existem fenômenos cujo caráter aleatório ou probabilístico não reside simplesmente em nosso defeito de conhecimento, mas na natureza das coisas mesma. Entretanto, embora tenha sido anexado por vezes explicitamente à confraria dos cavaleiros do acaso ou à dos precursores da teoria da ordem pelo ruído ou da ordem por flutuação, sua visão das coisas parece, no total, demasiadamente reservada e matizada para autorizar esse tipo de operação. Em um período como aquele que se vive atualmente, no qual só se fala dos malefícios do determinismo laplaciano e no qual não se jura senão por coisas como desordem, acaso, complexidade e caos, não seria sem dúvida difícil fazê-lo passar por uma espécie de precursor genial, que antecipou um bom número das ideias que estão atualmente em moda sobre essas questões, o que seria provavelmente excelente para sua reputação. Infelizmente, as coisas estão longe de ser tão simples. Musil fala certamente por si mesmo, quando diz de seu homem sem qualidades que detestava a desordem, e especialmente a desordem intelectual, que caracterizam a época contemporânea. Não é Ulrich, mas o homem de negócios Arnheim, quem se deixa levar a sonhar com os benefícios e os progressos que se podem esperar de uma circulação acrescida de ideias e de experiências que já não se toma o tempo nem o trabalho de elaborar, o que, em seu espírito, corresponde ao triunfo dos princípios e das exigências do mercado livre e equivale a imaginar o cérebro da época substituído pela lei da oferta e da procura, o pensador laborioso pelo comerciante.

O espetáculo impressionante que Arnheim saboreia involuntariamente, o de uma enorme produção de experiências vividas, associando-se e dissociando-se em toda liberdade, de uma espécie de pudim nervoso do qual cada parte tremia à menor sacudidela, de um tam-tam gigante que bastava aflorar para dele extrair infinitas ressonâncias, não é, diga-se o mínimo, o tipo de novidade que Musil considera particularmente excitante e promissora. Distingue sempre rigorosamente o trabalho do intelecto da produção de simples fenômenos de ressonância e não acredita que o pensamento propriamente dito possa de perto ou de longe ser confundido com a livre associação das ideias e das experiências, à qual tende hoje a assemelhar-se cada vez mais, nem que algo positivo e mesmo, segundo se diz, decisivo possa emergir espontaneamente da espécie de tohu-bohu ou de tam-tam gigante em que parece ter-se tornado o mundo do espírito, sem a intervenção de um número suficiente de pensadores laboriosos (uma espécie hoje desacreditada, da qual ele se considera ele mesmo um representante típico) e a descoberta de princípios diretivos e organizadores, que constituem a coisa de que nossa época tem a necessidade mais urgente. Embora encontre sempre facilmente entre os intelectuais, por razões que não são difíceis de adivinhar, defensores dispostos a celebrar suas virtudes desconhecidas, a desordem é certamente, para ele, a coisa de que o mundo contemporâneo menos carece.

De modo geral, sobre questões como as da ordem e do caos, na natureza e no mundo humano, Musil não é o tipo de pensador que, uma vez fora do domínio da ciência propriamente dita, pudesse satisfazer-se com o tipo de aproximações e de facilidades retóricas que passam hoje tão facilmente por descobertas filosóficas e epistemológicas revolucionárias. Quando evoca temas ou problemas metafísicos tradicionais como os do determinismo, do acaso e da liberdade humana, sobre os quais a nova ciência se expressa hoje com uma segurança que ele sempre se interditou, sua atitude caracteriza-se pela mesma mistura de circunspecção extrema e de ironia discreta que em todos os outros casos do mesmo gênero. De toda maneira, não é certo que o problema ao qual pensam aqui prioritariamente os filósofos tenha sido em qualquer aspecto crucial para o homem do possível que era, que se preocupava muito menos em saber se o acaso é ou não real (ontológico, e não, como o acaso-ignorância dos deterministas clássicos, simplesmente epistemológico) e em afirmar que o é ou não o é, do que em tentar uma experiência de pensamento e procurar responder à pergunta: Se se supusesse ou imaginasse que as coisas (em particular as coisas humanas) são governadas fundamentalmente pelo acaso, quais são as consequências que resultariam dessa hipótese?