CHRÉTIEN, Jean-Louis. Lueur du secret. Paris: L’Herne, 1985
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O Evangelho de Marcos como uma obra teológica elaborada sobre o segredo messiânico
- A reavaliação da estrutura narrativa e da profundidade teológica do Evangelho de Marcos pelos exegetas.
- A ênfase no modo da revelação de Deus em Cristo como indissociável do seu conteúdo.
- A caracterização da teologia marciana pelo segredo messianico, a vontade de Jesus de ocultar sua identidade e o paradoxo da incompreensão dos discípulos.
- O paradoxo do duplo movimento: a vontade de segredo sobre os milagres que resulta em maior publicidade e a vontade de manifestação aos discípulos que encontra incompreensão.
- A citação de Marcos VII, 36: "Jesus lhes recomendou que a ninguém o dissessem; mas, quanto mais lhos recomendava, tanto mais o divulgavam".
- A citação de Marcos VIII, 17-18: "Entendestes ainda não? e não compreendeis? Tendes ainda o vosso coração endurecido?".
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A subordinação da teocriptia à teofania no início do Evangelho de Marcos
- A ausência de narrativas da infância e a primeira aparição pública de Jesus no batismo no Jordão (Batismo de Jesus).
- A manifestação gloriosa no batismo com a descida do Espírito e a voz do Pai, seguida imediatamente pela provação no deserto (Tentações de Cristo).
- A sequência imediata de glória e prova, avanço e retirada, como resumo da missão de Jesus.
- O retiro no deserto como uma manifestação messiânica no segredo, não como um mero ocultamento.
- A citação de Marcos I, 13: "E estava com as feras, e os anjos o serviam".
- A dimensão teológica da narrativa, onde a iniciativa é divina: o Espírito desce e impele Jesus ao deserto.
- A impossibilidade de uma interpretação psicológica da vontade de segredo de Jesus, pois esta está inserida na iniciativa divina.
- A menção das feras e dos anjos como sugestão da existência reconciliada e da restauração do paraíso.
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A transparência imediata perante o sobrenatural e o infrahumano em contraste com a opacidade da humanidade
- O reconhecimento imediato de Jesus pelos anjos e demônios, em oposição à incompreensão humana.
- A reconciliação da animalidade com a humanidade de Cristo no deserto, antecedendo a submissão do homem à sua própria animalidade.
- A facilidade com que a boa nova alcança entidades que não são suas destinatárias primárias.
- A necessidade de um longo processo de teofania paciente e teocriptica da paixão para que a revelação chegue à humanidade.
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Os diferentes aspectos do segredo no primeiro capítulo do Evangelho de Marcos
- A vontade de segredo perante os demônios no primeiro exorcismo.
- A cena de reconhecimento pelo demônio e a injunção ao silêncio.
- A citação de Marcos I, 24: "Ah! que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste a perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus".
- O paradoxo da verdade proclamada pelo demônio no ódio e no medo, em contraste com o silêncio ou a negação dos discípulos.
- A clarividência do ódio como resposta à revelação do amor, que exige uma resposta extrema do homem.
- A reação da multidão ao primeiro milagre: estupefação e temor reverencial.
- A citação de Marcos I, 27: "E todos se maravilharam a ponto de perguntarem entre si, dizendo: Que é isto?". (Legio)
- A distinção entre uma reação de estupefação, que distancia, e uma resposta de amor ou ódio, que engaja a pessoa na verdade.
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A solidão de Jesus como expressão de comunhão com Deus e não como refúgio privado
- A interpretação da solidão de Jesus não como busca de recolhimento, mas como o lugar da perfeita comunhão com Deus.
- O retiro para orar como abandono à vontade de Deus, continuando sua missão.
- O segredo como mal-entendido entre a missão de Jesus e as expectativas da multidão e dos discípulos.
- A recusa de Jesus em ser encerrado em um papel ou local, simbolizada pela resposta "Vamos às aldeias vizinhas".
- A citação da busca dos discípulos: "Todos te buscam".
- A oposição entre a missão de Jesus e a imagem que os outros formam dele, prefigurando o abandono em Getsemani.
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A imposição do silêncio aos que vivenciaram os milagres e sua transgressão
- A ordem de silêncio ao leproso curado e sua imediata violação.
- A citação de Marcos I, 44-45: "Olha, não digas nada a ninguém; porém vai, mostra-te ao sacerdote... Mas, tendo ele saído, começou a anunciar muitas coisas e a divulgar o que acontecera".
- O paradoxo de realizar um milagre, ato de manifestação, e subsequentemente tentar conter seu alcance.
- A consequência da publicidade: a impossibilidade de Jesus entrar nas cidades sem ser reconhecido.
- O risco de a publicidade impedir a transparência verdadeira, reduzindo Jesus a um taumaturgo.
- O objetivo do segredo messiânico de abrir o acesso à manifestação em sua verdade, corrigindo a relação do homem com o milagre.
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A complexidade do segredo na comparação entre a obediência dos demônios e a desobediência dos homens
- A imposição de silêncio aos demônios que reconhecem Jesus e aos que vivenciaram os milagres e que experimentaram seu poder.
- A obediência forçada dos demônios, expressão de sujeição e escravidão, em contraste com a desobediência humana, que envolve liberdade.
- O paradoxo de que a desobediência humana, que espalha equívocos, é preferível à obediência demoníaca, que professa a verdade.
- A autolimitação da onipotência de Jesus diante da liberdade humana, expondo-se ao mal-entendido.
- A palavra humana que fere a kenosis de Cristo como expressão dessa mesma kenosis.
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O objeto preciso da ordem de silêncio e sua finalidade
- A inviabilidade de ocultar o fato da cura, mas a possibilidade de calar o modo e o agente do milagre.
- O objetivo de que o milagre seja uma manifestação de Deus em Jesus, e não a glorificação de Jesus como taumaturgo.
- A finalidade de libertar o curado para Deus, promovendo a ação de graças e o desapego, e não o estabelecimento de uma dívida.
- A consideração do segredo em relação ao próprio vivenciador do milagre e ao uso que fará de sua liberdade recuperada.
- A transgressão da ordem que substitui a manifestação secreta pelo mal-entendido público.
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Os milagres como irrupção da palavra e não como credenciais inequívocas
- A correção da visão do milagre como credencial para a missão de Jesus.
- O milagre como evento de libertação e irrupção da palavra, entregue à incompreensão e ao ultraje.
- A tentativa de Jesus de evitar que a atenção se fixe apenas no agente do milagre, promovendo a compreensão do seu sentido.
- A finalidade do segredo revelada a contrario quando a manifestação gera incompreensão.
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A incompreensão como resultado dos milagres públicos e seu vínculo com o caminho da paixão
- O milagre do perdão e da cura do paralítico no capítulo dois, que suscita incompreensão dos escribas e da multidão.
- A citação de Marcos II, 6-7: "Estavam ali assentados alguns dos escribas, que arrazoavam em seus corações, dizendo: Por que fala assim este homem? Ele blasfema. Quem pode perdoar pecados, senão Deus?".
- A dupla incompreensão: horrorizada dos escribas e exaltada da multidão.
- A cura do homem da mão ressequida no capítulo três, ligando milagre público, incompreensão e o início do plano de morte contra Jesus.
- O aumento da opacidade da incompreensão e do ódio com o progresso da manifestação.
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A dimensão kenótica dos milagres e a dupla possibilidade de resposta humana
- A reação de temor da multidão após a cura do endemoninhado geraseno, que leva a pedir que Jesus se retire.
- A citação de Marcos V, 17: "E começaram a rogar-lhe que saísse do seu território".
- A interpretação de Paul Lamarche sobre a dimensão kenótica: o expulsor de demônios se deixa expulsar pelos homens.
- A revelação de um Deus que se entrega indefeso aos homens por trás do aparente fracasso.
- O entrelaçamento de teofania e teocriptia: a manifestação do poder provoca temor e rejeição, resultando em ocultação.
- A manifestação superior da onipotência na impotência, discernível apenas após a paixão e ressurreição.
- A dupla possibilidade aberta pelo milagre: a tomada pelo equívoco e a tomada pela fé.
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A incompreensão como resultado do questionamento sobre a origem do poder de Jesus
- A estupefação dos habitantes de Nazaré, que questionam a origem da sabedoria e do poder de Jesus, reduzindo-o ao carpinteiro.
- A citação de Marcos VI, 2-3: "Donde vêm a este estas coisas? E que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, filho de Maria?... E escandalizavam-se nele".
- A crítica à atitude de investigação sobre a pessoa de Jesus, que substitui a acolhida do sentido de seus atos e palavras.
- A necessidade de que o homem se torne uma questão para si mesmo diante da revelação.
- A surdez dos discípulos que impedem alguém de expulsar demônios em nome de Jesus por não ser do seu grupo.
- A citação de Marcos IX, 38: "Mestre, vimos um que em teu nome expulsava demônios, o qual não nos segue; e nós lho proibimos, porque não nos segue".
- A recusa de Jesus em dar um signo quando este é concebido como um índice de poder.
- A necessidade de compreender o milagre, que também é uma parábola.
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A "boa tomada" da fé ilustrada pelos milagres da hemorroíssa e da siro-fenícia (Fluxo de Sangue)
- O milagre secreto da hemorroíssa, arrancado pela força da esperança e da fé.
- A citação de Marcos V, 28: "Porque dizia: Se tão-somente tocar nas suas vestes, sararei".
- A percepção de Jesus de que uma força saiu dele e a busca pela identidade de quem o tocou.
- A confissão pública da mulher, "dizendo-lhe toda a verdade", e a confirmação de Jesus: "A tua fé te salvou; vai em paz e fica livre do teu mal".
- A transformação do contato quase "mágico" em um dom liberal confirmado pela palavra, dissipando a ambiguidade do sagrado.
- O estabelecimento de uma confiança filial, revelando que a esperança e a fé humana têm poder sobre Jesus.
- O milagre da siro-fenícia, que quebra o segredo de Jesus com sua violenta esperança.
- A citação de Marcos VII, 29: "Por essa palavra, vai; o demônio já saiu de tua filha".
- A generosidade divina que se deixa tomar pelos dons que ela mesma concede.
- A dupla dimensão kenótica do milagre: a exposição à incompreensão e a impossibilidade de se furtar à esperança que ele mesmo suscita.
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O entrelaçamento de ocultação e manifestação no ensino parabólico de Jesus
- A palavra de Jesus como parábola, que tanto revela quanto oculta.
- A primeira parábola sobre o destino da palavra e das próprias parábolas.
- A questão de Jesus aos discípulos sobre o entendimento da parábola do semeador.
- A citação de Marcos IV, 13: "Não sabeis esta parábola? Como, pois, entendereis todas as parábolas?".
- A complexidade do entrelaçamento: a palavra manifesta-se através do segredo, e anuncia a eliminação de todo segredo, mas condicionada à capacidade de ouvir.
- A declaração de que nada está oculto que não venha a ser descoberto.
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O escândalo do endurecimento: a revelação que cega
- A declaração de Jesus sobre o propósito das parábolas para os de fora.
- A citação de Marcos IV, 11-12: "A vós vos é dado saber o mistério do reino de Deus; mas aos que estão de fora, tudo se lhes diz por parábolas, para que, vendo, vejam, e não percebam; e, ouvindo, ouçam, e não entendam; para que não se convertam, e lhes sejam perdoados os pecados".
- A interpretação de Joachim Jeremias: o hina expressa um desígnio divino, não uma intenção humana de Jesus.
- A manutenção do vínculo desconcertante entre a revelação e o endurecimento.
- A correção da oposição simples entre os de dentro e os de fora: a fronteira da graça atravessa o coração de cada um.
- A cegueira dos discípulos após o ensino privilegiado, exemplificada na tempestade acalmada.
- O contraste com a profissão de fé do centurião pagão na crucificação.
- A citação de Marcos XV, 39: "O centurião, que estava defronte dele, vendo que assim clamando expirara, disse: Verdadeiramente este homem era o Filho de Deus".
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A profundidade teológica do endurecimento como dimensão da própria revelação
- A revelação como ato redentor que se dirige ao homem pecador, inerentemente cego.
- A necessidade de a revelação se propor, e não se impor, para contornar o pecado e permitir o dom do perdão.
- A abertura da possibilidade de ingratidão e de um segundo endurecimento pela própria luz da revelação.
- A liberdade aberta pela graça, que inclui a possibilidade de se aprisionar mais gravemente.
- A ideia de que o inferno pertence ao mistério do amor.
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O endurecimento dos discípulos apesar da revelação progressiva
- O coração endurecido dos discípulos diante dos milagres.
- A repreensão de Jesus aos discípulos com uma citação semelhante à dirigida aos de fora.
- A citação de Marcos VIII, 17-18: "E Jesus, conhecendo isso, disse-lhes: Por que arrazoais sobre o não terdes pão? Não considerais, nem compreendeis? Tendes ainda o vosso coração endurecido?".
- O perigo de maior desconhecimento à medida que Jesus é melhor conhecido.
- O aprofundamento do segredo de Jesus com o avanço da manifestação.
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A profissão de fé de Pedro e a subsequente incompreensão da paixão
- O reconhecimento de Pedro: "Tu és o Cristo".
- A severa recomendação de silêncio de Jesus, seguida pelo anúncio aberto da paixão.
- A citação de Marcos VIII, 32: "E dizia abertamente estas palavras".
- A repreensão de Pedro por Jesus, identificando sua mentalidade como humana, não divina.
- A incompreensão e o medo dos discípulos de interrogarem Jesus sobre a morte e ressurreição.
- O contraponto da proclamação da verdade pelos demônios e pelos inimigos de Jesus.
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A verdade proclamada obliquamente através da zombaria e do ódio
- A reflexão de Kierkegaard sobre as zombarias dirigidas a Cristo como portadoras de verdade quando invertidas.
- A interpretação de que as injúrias, ao negarem a verdade, a afirmam literalmente na situação de humilhação.
- A frase de Caifás como profecia involuntária e a inscrição de Pilate como proclamação forçada da verdade.
- A análise de Paul Lamarche sobre a revelação do mistério de Jesus através da ironia e das zombarias dos inimigos no Evangelho de Marcos.
- O exemplo do diálogo com o endemoninhado de Gerasa.
- O clímax na cena dos ultrajes da soldadesca, onde a adoração paródica se reverte em verdade.
- A citação de Marcos XV, 17-19: "Tecendo uma coroa de espinhos, lha puseram na cabeça... E diziam: Salve, Rei dos judeus!".
- A ironia divina que transforma a zombaria humana em proclamação involuntária da realeza de Jesus na humilhação.
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A inversão paradoxal na paixão: a publicidade do segredo e o silêncio dos discípulos
- A proclamação pública e insistente do título "Rei dos Judeus" a partir do julgamento.
- O contraste entre a vontade de falar na primeira parte do Evangelho e o silêncio e a fuga na segunda parte.
- O segredo que se torna mais profundo no momento de sua máxima publicidade.
- A resposta afirmativa de Jesus no julgamento perante o sumo sacerdote em Marcos: "Eu o sou".
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A economia do segredo como kenosis e a revelação decisiva no rosto humilhado
- A economia do segredo não como uma pedagogia bem-sucedida, mas como revelação da messianidade sofredora.
- A entrega de Jesus nas mãos dos homens como a forma de entregar seu segredo.
- A kenosis como o conteúdo do segredo: a impotência de ocultar o poder na primeira parte e a impotência dos homens de compreender a impotência na segunda.
- A afirmação de Paul Lamarche de que Jesus humilhado é a imagem perfeita do Pai.
- A ideia de que a obliquidade da manifestação visa o confronto decisivo com o rosto sofredor do Filho de Deus.
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A unidade suprema de teocriptia e teofania na morte de Jesus
- O evento do véu do templo rasgando-se no momento da morte de Jesus.
- A citação de Marcos XV, 38: "E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo".
- O ocultamento máximo na morte como a revelação máxima.
- O rasgo do véu como símbolo da remoção da barreira entre Deus e a humanidade, e entre judeus e gentios.
- A abertura do acesso a Deus como iniciativa divina, simbolizada pelo rasgo "de alto a baixo".
- O segredo de Jesus como mistério público aberto por Deus, não como enigma decifrado pelo homem.
- O fruto imediato dessa abertura na profissão de fé do centurião.