Skip to main content
id da página: 13291 Chuang Tzu – Billeter – Paralelo com Henri Michaux

Chuang Tzu Paralelo Michaux Billeter

TaoChuang TzuBilleter – linguagem e realidade

BILLETER, Jean François. Leçons sur Tchouang-Tseu. Paris: Allia, 2002 (JFBLC)

Toma-se de Henri Michaux o relato de uma exploração desse gênero. Trata-se de “Survenance de la contemplation”, um texto incluído no volume Face à ce qui se dérobe. Eis como começa. Henri Michaux escuta música:

Eu acabara de encontrar um movimento contrário ao meu naquilo que escutava. Interrompi.
... já não se ouviu o mundo dos outros. Adeus, música. Permaneceu o silêncio.
Fiquei sem me mexer, absolutamente sem me mexer.

Uma função já não tinha vontade de funcionar. É só. Não via além disso. Se estava desfeito, eu o ignorava.
... voltou o pensar. Não como de costume. Incrivelmente compreensivo. Vasto o que descobria, cada vez mais vasto, de uma vastidão desconhecida. (...)


Mais tarde:

Havia contemplação.
Apresentava-se-me um imenso espetáculo “elucidado” a contemplar.
Visão consideravelmente mais ampla do que me é natural, e com mais elementos, de maior alcance, respondendo-se perfeitamente...

Como isso se dava?
Eu estava em repouso. Primeira condição. Primeiro o repouso, não um repouso que não passaria de ausência de mobilidade e que logo se tornaria sonolência e tudo estaria perdido, mas um repouso de um grau além, que é abandono à perda de intervenção.
Nenhuma captação mais. (...)


Pouco a pouco, destacam-se as condições dessa grande calma:

Estar muito desperto e supremamente desapegado. (...) Sem poder, naquele momento, refletir minimamente a respeito, sentia que essa condição era capital. É interdito (e impossível sem estragar tudo) sequer procurar reter este ou aquele elemento de pensamento, deter-se nele um instante, desacelerar um; menos ainda tomar nota, de qualquer modo, buscar-lhe a impressão para uma lembrança futura.
Nenhuma referência na contemplação. Ver, mas não examinar. (...)


Entretanto:

A certa altura, houve um começo de complacência por um pensamento. Era o retorno, era eu, aquilo – (...) as manobras da curiosidade que voltava, a gula mental, os prazeres da intervenção, o despertar desse centro discriminador que faz o inteligente, distribuindo, a cada passo, suas apreciações. (...)


Mas, ao fim, produz-se um aprofundamento:

Domínio da calma. Eu então ali estava.
De verdade. (...)
Ampliado, novo, total.
Calma do fundamental.
Retorno à base.
O Inútil enfim dissipado. (...)

A grandeza estava ali, o incomparável. (...)


Numa longa nota que se segue ao relato, Henri Michaux prodigaliza alguns conselhos:

Sozinho, sem palavras – as palavras situam. Cumpre permanecer no não situado. (...)
Sem se mover.
Imóvel. Sem mudança de postura (adotar uma tal que se possa manter por longo tempo, e quase indefinidamente, escolhida tanto segundo a própria fraqueza quanto segundo as próprias forças). E manter-se nela.

Sem desejo, sem interesse por qualquer coisa por vir, que, ainda que vagamente, te mobilizaria, te predeterminaria, te preadaptaria – o porvir é um ato – uma preparação.
Suprimido o que se tem “em vista”, o futuro desaparece, já não é percebido. Fica-se livre dessa dimensão. (...)

Após uma breve reflexão indispensável, liquidatória das lembranças remanescentes, rejeitar a rememoração. O passado deve ser reduzido ao extremo. Mas, sobretudo e sempre, o inimigo é o adiante: o desejo de distração, as infinitas tentações do apetite de mudança, mudança de postura, de ocupação, de reflexão, criadoras de imediato de um alongamento mesquinho e desarticulado que convoca o por vir, o por vir próximo, o qual convoca os porvires seguintes... (...)

A não atividade, a não participação no tempo mediante a supressão de todo movimento, de todo ato (preocupações e aflições são atos, e dos mais perniciosos, estando ao mesmo tempo e inutilmente no passado e no futuro). (...)

Surpreendente importância da supressão dos pequenos movimentos.
Humilde começo de consequências imensas.
A resistência sustentada às vontades de mover-se introduz o Imutável. (...)


Esse testemunho é precioso porque se limita à descrição da experiência. Henri Michaux evitou com o maior cuidado misturar-lhe o menor termo filosófico ou religioso. Mantém-se à distância das ideias gerais, dos dogmas e das crenças. Sem dúvida, ingeriu droga, para ir mais depressa. Isso não reduz o alcance de sua descrição. Com um pouco de treino, chega-se ao mesmo resultado sem esse adjuvante. Quando descreve essa mesma experiência, Tchuang-tseu também se abstém de referência a qualquer crença. Descreve com precisão um regime da atividade. Como Henri Michaux o fez em outros textos, sobretudo em suas obras sobre a mescalina e outras drogas, Tchuang-tseu põe esse regime da atividade em relação com outros regimes mais habituais.