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id da página: 953 Jean François Billeter

Billeter

Tao – Jean-François Billeter


BILLETER, Jean François. Études sur Tchouang-tseu. Nouvelle éd. revue et corr., 3. éd ed. Paris: Éd. Allia, 2008.

Tchouang-tseu [Tchouang, o nome de família do filósofo, é uma sílaba compacta e curta onde domina um a claro e cuja final -ng é pronunciada de uma forma muito suave, quase inaudível. Tseu, “mestre”, é uma espécie de dz que se faz vibrar fortemente, como para imitar o voo de um inseto. Sobre a transcrição e a pronúncia das palavras chinesas, ver a nota da p. 287. Convidamos o leitor a se reportar a ela sem demora. Esta nota o deixará à vontade.] é o mais notável dos filósofos chineses. Não se sabe muito sobre sua pessoa. Ele provavelmente morreu por volta de 280 antes de nossa era [Sobre a questão das datas, ver p. 262.]. Ninguém sabe muito bem qual parte lhe atribuir na obra que leva seu nome e que se chama “o” Tchouang-tseu. Esta obra reúne textos do próprio Tchouang-tseu e de autores anônimos que foram próximos dele, se inspiraram nele após sua morte ou foram associados ao seu nome posteriormente. A obra não é grande, é um pouco menos longa que os quatro Evangelhos.

É um clássico: uma obra que foi muito lida, citada e comentada ao longo dos séculos, mas também mal lida e mal compreendida, ou compreendida segundo preconceitos que não têm mais razão de ser hoje. Nos esforçamos para abordá-la com um olhar novo.

Devemos nos guardar de lê-la como um livro de hoje, pois seria o meio mais seguro de não se compreender nada. Primeiro porque não nasceu de um plano premeditado, que os desenvolvimentos seguidos são raros e que na maioria das vezes não há encadeamento nos detalhes. Depois porque temos o hábito de ler rápido, mas que esses textos não são feitos para o leitor apressado. Cada peça é uma obra em si, que pede para ser apreciada por si mesma e só se entrega com o tempo. A brevidade da maioria delas não é um sinal de pobreza, mas o efeito de sua concisão.

Descobrimos o efeito que essas peças podem produzir fazendo a leitura de algumas de nossas traduções para outras pessoas. A voz é mais lenta que o olho que lê. Ela impõe seu ritmo. O ouvinte não pode se apressar ou pular palavras, frases ou passagens inteiras como ele faz lendo. Esse abrandamento lhe dá o lazer de sentir, de imaginar, de conceber. O efeito dos textos é aumentado pelo tom e as inflexões que se adota na leitura, pelas pausas que se faz nela. É então que se descobre toda a sua riqueza.

Essa descoberta levou a uma outra. Quando se faz vibrar uma peça assim, ela faz ressoar outras que se encontram em outro lugar na obra. Resulta daí aproximações que provocam outras, cada vez mais estendidas e diversas. Paradoxalmente, é do isolamento inicial do motivo que nasce a polifonia. Essas correspondências espontâneas fornecem um meio de exploração independente da ordem em que as peças são arranjadas.

Esta segunda descoberta trouxe a solução de um problema de método. Os críticos contemporâneos, que procuram ser mais sistemáticos que seus antecessores, se perguntaram por onde pegar o Tchouang-tseu. De ordem, não havia. De unidade, também não. De noções, poucas. Alguns pensaram que o único meio de ter domínio sobre a obra era determinar primeiro quais eram suas partes autênticas e de onde vinham as outras. As questões de datação e de atribuição se tornaram para eles o pré-requisito de toda outra consideração. Como elas eram temíveis e em parte insolúveis, isso os paralisou. Outros críticos, portanto, voltaram à interpretação da obra. Eles retomaram a exegese tradicional, muitas vezes sem o dizer, e sem mais levar em conta a heterogeneidade do texto. Procedendo como dissemos, escapamos a esse dilema. Deixamos em suspenso os problemas de atribuição, nos pusemos a estudar certas peças por si mesmas, indo direto às questões de fundo - o que nos permitiu às vezes formular hipóteses novas sobre sua origem.

De nossa método decorre a forma que adotamos: o comentário de uma peça sozinha ou de uma sequência de peças. Nestes Estudos sobre Tchouang-tseu, os capítulos III e IV são do primeiro tipo. O capítulo III é consagrado a um único diálogo, o capítulo IV à primeira parte do mais importante texto filosófico do Tchouang-tseu. Os capítulos I e II pertencem ao segundo tipo. Neles apresentamos peças mais breves, que colocamos em uma certa ordem para facilitar a exploração do jazimento que se estende abaixo. Procedemos da mesma forma nas Licoes sobre Tchouang-tseu, pequeno livro publicado pela mesma editora e que constitui um complemento deste, mas que se pode também ler como introdução, e onde exploramos uma parte diferente do jazimento. Nelas damos também precisões (não retomadas aqui) sobre alguns outros princípios que nos guiam em nosso estudo do Tchouang-tseu.

Nos explicamos em outro lugar sobre os princípios que adotamos em matéria de tradução. Nos contentamos aqui em chamar a atenção do leitor para um paradoxo. As traduções que ele vai ler são escritas em uma língua familiar para ele, enquanto o texto original é muitas vezes difícil, até mesmo obscuro para os chineses de hoje, mesmo para aqueles que estão acostumados à leitura dos autores antigos. A expressão francesa é límpida, em comparação, porque as dificuldades de vocabulário e de estilo do original foram aplanadas durante a tradução e porque tivemos que interpretar as passagens obscuras para poder traduzi-las, o que em grande parte fez desaparecer a obscuridade. Nossas traduções fazem de Tchouang-tseu um contemporâneo que ele não é para o leitor chinês. Este último é obrigado a estudar o texto antigo recorrendo a notas e comentários, o que é penoso, ou a se resolver a entender apenas pela metade, ou ainda a se refugiar em versões em chinês moderno que são invariavelmente fracas porque seus autores se contentam em parafrasear o original e retomar como estão os termos obscuros. Eles não passam pela rude escola do tradutor que deve em todos os pontos determinar o sentido que ele dá ao texto e deve expressar esse sentido por meios que lhe são próprios. A distância que separa as duas línguas o coloca na obrigação de recriar a obra - e lhe dá também a liberdade.

Consideramos nossas traduções como aperfeiçoáveis, é certo, mas como acabadas neste sentido de que elas constituem a nossos olhos equivalentes bastante seguros dos originais para que se possa, no essencial, extrair o pensamento dos autores sem mais se preocupar com o texto chinês. Estaríamos realizados se o leitor esquecesse que as peças que ele vai ler foram redigidas em uma língua muito distante da sua. É também com o cuidado de reduzir todo obstáculo inútil entre estes escritos e ele que nos servimos de uma transcrição do chinês pronunciável à francesa [Damos, no entanto, em transcrição pinyin, precedida de um asterisco, as indicações bibliográficas destinadas aos sinólogos].