BILLETER, Jean François. Leçons sur Tchouang-Tseu. Paris: Allia, 2002 (JFBLC)
Essa concepção da subjetividade como um vazio nutridor, com o qual importa manter-se em contato, é expressa de modo notavelmente conciso e claro no texto seguinte, que se encontra ao final do livro 7. Comentar-se-á apenas a segunda parte, que introduz uma ideia nova para nós:
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Há uma interpretação inadequada da última frase por parte dos tradutores, que a conceberam como a descrição da conduta do homem realizado, quando na verdade ela descreve o comportamento do espelho.
- Não é o homem de qualidade, mas sim o espelho que, literalmente, "não reconduz, não se antecipa".
- A etiqueta chinesa tradicionalmente exigia que se fosse ao encontro de um visitante de destaque, avançando em sua direção com maior distância e sinais de solicitude conforme a sua condição fosse mais elevada.
- Da mesma forma, era exigido que se o reconduzisse em uma distância e com uma presteza proporcionais à sua dignidade.
- O espelho, ao "receber", não adota tais ações, mas acolhe o que se apresenta sem cessar de repousar em si mesmo.
- Esta é a conduta do homem realizado: ele não se agita como em um ambiente social, mas acolhe e reage.
- Ele realiza isso tanto melhor quanto permanece vazio, o que significa manter-se em contato com o conjunto de seus próprios recursos.
- Ao "não conservar nada", ele reage de modo novo a cada momento.
- Seus recursos são de tal ordem que ele "abraça os seres sem jamais sofrer dano".
- A comparação com o espelho é pertinente em todos os aspectos, e o texto demonstra uma rigorosa perfeição.
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Segundo Yen Houei, quando "permanece sentado no esquecimento", ele "abandona seus membros, despede a visão e a audição, perde a consciência de si mesmo e das coisas, está completamente desimpedido".
- Yen Houei vive a experiência desse "vazio inteiramente disponível" mencionado por Confúcio em um outro diálogo citado, sendo o vazio onde "o Caminho se reúne" e onde se localiza o "início dos fenômenos".
- Este vazio, percebido durante a prática do calme, é um vazio repleto de luminosidade e atividade difusa.
- Pode também se manifestar como uma realidade animada, porém escura, análoga ao reino da confusão de onde todas as coisas emergem e para onde retornam.
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Para ilustrar o tema, um texto será citado a seguir, no qual a confusão primordial é apresentada sob uma forma objetivada, como uma realidade exterior a nós.
- Trata-se de um texto notório que talvez não seja da autoria de Tchouang-tseu, mas que se alinha com o conhecimento que temos de seu pensamento.
Quando a esposa de Tchuang-tseu morreu e Houei Che veio apresentar-lhe condolências, Tchuang-tseu estava sentado no chão, com as pernas abertas, cantando e batendo com as mãos no fundo de uma jarra.
Houei Che disse-lhe: “Ela foi tua companheira, criou teus filhos, envelheceu contigo. Já seria chocante que não chorasses sua morte. Mas que cantes acompanhando-te com uma jarra, isso ultrapassa toda medida!”
Tchuang-tseu respondeu: “De modo algum. Quando ela morreu, pensas acaso que não fiquei aflito? Mas dei-me conta de que houve um tempo em que sua vida ainda não era, em que nenhuma forma havia aparecido, em que sequer sopro algum se manifestara; que algo que existira oculto na indistinção primeira transformara-se em sopro, que esse sopro se transformara e tomara forma, que essa forma se transformara e dera origem à vida, e que agora, por nova transformação, passara à morte — exatamente como se sucedem as quatro estações: a primavera e o outono, o inverno e o verão. Ela repousa em paz num imenso sepulcro, e eu soluçava ruidosamente junto dela. Percebi então que isso era não compreender a necessidade, e cessei.”
A frase que interessa é a do meio: algo “primeiramente existira oculto na indistinção primeira”, tsa hou houang-hou tcheu tsien. O termo houang-hou aparenta-se a outros que possuem o mesmo valor ou valores próximos: houn-toun, hou-t’ou, hou-lou, etc. Houn-toun é o caos de que se falará a seguir, hou-t’ou a confusão do espírito, hou-lou a cabaça. São palavras muito particulares: duas sílabas unidas, o que é incomum no chinês antigo; duas sílabas distintas, mas que se distinguem mal e remetem uma à outra; espécies de onomatopeias compostas de sons que se pronunciam com a boca quase fechada e que evocam o borbulhar ou o gorgolejar, como “borborigmo” em português. Recordam evidentemente o tohu-bohu.
São termos duplos, como t’ien/ti, Céu e Terra, ts’ien/k’oun, princípio celeste e princípio terrestre, ou yin/yang; mas sua separação está inacabada, não deram origem a opostos complementares. Sua relação é simbolizada pela cabaça, cujas duas cavidades arredondadas não estão nem unificadas, nem separadas. Em suma, é da indistinção que os seres nascem, é a ela que devem a vida.