Skip to main content
id da página: 9113 Ciclo Anual

Ciclo Anual

ESTAÇÕES DO ANO — CICLO ANUAL



René Guénon: A RESPEITO DOS DOIS SÃO JOÃO

Com relação aos dois São João e seu simbolismo solsticial, é também interessante considerar um símbolo que parece ser peculiar à maçonaria anglo-saxônica, ou que pelo menos só foi conservado por ela: trata-se do círculo com um ponto no centro, compreendido entre duas tangentes paralelas. Essas tangentes são tidas por representar os dois São João. O círculo é aqui, de fato, a figura do ciclo anual e sua significação solar toma-se mais clara pela presença do ponto central, pois essa figura é também o signo astrológico do Sol. E as duas retas paralelas são tangentes ao círculo nos dois pontos solsticiais, marcando assim seu caráter de "pontos-limites", pois tais pontos são como que o limite que o Sol não pode jamais ultrapassar em seu percurso. É por essas linhas corresponderem assim aos dois solstícios que se pode também dizer que representam os dois São João. Existe contudo nessa figuração uma anomalia pelo menos aparente: o diâmetro solsticial do ciclo anual, como explicamos em outras ocasiões, deve ser entendido como relativamente vertical em comparação com o diâmetro equinocial, e é aliás apenas desse modo que as duas metades do ciclo, que vão de um solstício ao outro, podem na realidade aparecer como respectivamente ascendente è descendente, pois então os pontos solsticiais permanecerão como o ponto mais alto e o mais baixo do círculo. Nessas condições, as tangentes às extremidades do diâmetro solsticial, portanto perpendiculares a este último, serão necessariamente horizontais. No entanto, no símbolo em questão, as duas tangentes estão ao contrário figuradas como verticais; ocorre portanto nesse caso especial uma certa modificação no simbolismo geral do ciclo anual, mas que se explica de modo muito simples. Trata-se com toda evidência de uma assimilação estabelecida entre essas duas linhas paralelas e as duas colunas (maçônicas). Além disso, estas últimas, que naturalmente só podem ser verticais, em virtude de se encontrarem situadas ao norte e ao sul, possuem uma relação efetiva com o simbolismo solsticial, ao menos de um certo ponto de vista.

Esse aspecto das duas colunas pode ser visualizado de forma mais nítida no caso do símbolo das "colunas de Hércules".1 O caráter de Hércules como "herói solar" e a correspondência zodiacal de seus doze trabalhos são por demais conhecidos para que seja necessário insistir a respeito. É em particular por esse caráter solar que se justifica a significação solsticial das duas colunas, às quais seu nome está ligado. Assim sendo, a divisa non plus ultra, que está relacionada a essas duas colunas, passa a evidenciar uma dupla significação; por um lado, ela exprime, segundo a interpretação habitual referente ao ponto de vista terrestre e aliás válida em sua ordem, que as colunas marcam os limites do "mundo conhecido", ou seja, que na realidade elas são os limites que, por razões que seria interessante investigar, não era permitido aos viajantes ultrapassar; por outro lado, essa divisa indica ao mesmo tempo, e sem dúvida seria preciso dizer em primeiro lugar, que, do ponto de vista celeste, as colunas são os limites que o Sol não pode transpor e entre as quais, como entre as duas tangentes que estávamos examinando há pouco, realiza-se interiormente seu curso anual.2 Essas últimas considerações poderio parecer muito afastadas do nosso ponto de partida, mas, para dizer a verdade, não é o que ocorre, pois contribuem para a explicação de um símbolo que se refere de modo expresso aos dois São João. Além disso, pode-se dizer que, na forma cristã da tradição, tudo o que diz respeito ao simbolismo solsticial tem por isso mesmo relação mais ou menos direta com os dois São João.


NOTAS:
1 Na representação geográfica que coloca essas duas colunas em cada um dos lados do atual estreito de Gibraltar, é evidente que a situada na Europa é a coluna do norte, e a situada na Africa é a coluna do sul.
2 Em antigas moedas espanholas, pode observar-se uma figuração das colunas de Hércules, ligadas entre si por uma espécie de bandeirola, sobre a qual está inscrita a divisa non plus ultra; mas o fato que parece muito pouco conhecido, e que assinalaremos aqui a título de curiosidade, é que desta figuração derivou o signo usual do dólar americano. No cifrão, contudo, a importância maior foi dada à bandeirola, que era de início apenas um acessório, e que foi transformado na letra S, com a qual se assemelhava, enquanto que as duas colunas, que constituíam o elemento essencial, foram reduzidas a dois pequenos traços paralelos, verticais como as duas tangentes ao círculo dos símbolos maçônico que acabamos de explicar. Isso se reveste de uma certa ponta de ironia, pois justamente a "descoberta" da América anulou de fato a antiga aplicação geográfica do non plus ultra.