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id da página: 7476 Henry Corbin – CORPO ESPIRITUAL E TERRA CELESTE – Sohravardi Sohravardi

Corbin CSTC Sohravardi 5

Livro da Teosofia Oriental

Nesta parte final de sua grande obra, Sohrawardi acaba de oferecer uma descrição analítica das experiências de luz ou fotismos experimentados pelos místicos. Estes fotismos se diversificam experimentalmente em umas quinze categorias. O autor conclui sua análise com algumas observações que completam o texto anteriormente traduzido. Assim como em outros fragmentos deste mesmo livro, adiciona-se a análise indispensável do comentarista Qutb al-Din Mahmud Shirazi.

Tudo isso são iluminações (israqat) que se elevam sobre a alma humana que rege seu corpo. Refletem-se então sobre o habitáculo (o “templo”) corporal. Para os medianamente avançados, ditos fotismos assinalam limites ante os quais estes se detêm. Pode ocorrer que essas Luzes os impulsionem, de modo que possam caminhar sobre as águas e deslocar-se pelos ares. Pode ocorrer que subam ao Céu, mas com um corpo que é seu corpo sutil e então se unem a determinados príncipes celestes. Mas todos estes são acontecimentos que dependem das condições do oitavo clima, esse em que se encontram as cidades de Yabalqa, Yabarsa e Hurqalya, povoadas de maravilhas.

Qutb al-Din Mahmud Shirazi: O oitavo clima é o mundus imaginalis ('alam al-mital), o mundo das Formas imaginais. Dentre os universos, o universo que possui dimensões e extensão divide-se de fato em oito climas. Sete deles são os Sete climas geográficos que constam de dimensões e extensão, visíveis para a percepção sensível. O oitavo clima é aquele cujas dimensão e extensão não dependem senão da percepção imaginativa. É o mundo das Formas imaginais autônomas (literalmente “em suspenso”, ou seja, que não estão de forma alguma ligadas a um substrato corruptível, mas sim em suspenso assim como a Imagem está em suspenso em um espelho). Neste mundo é onde se encontram os corpos sutis, os únicos que têm capacidade para elevar-se ao céu, ao passo que os corpos materiais constituídos pela substância dos Elementos são radicalmente incapazes disso. O mesmo ocorre com determinados místicos e a maioria das coisas surpreendentes e extraordinárias que se manifestam nos Profetas e nos Iniciados têm como causa o fato de que alcançam e acedem a esse mundo, conhecem suas formas epifânicas e suas características próprias. Quanto a Yabalqa, Yabarsa e Hurqalya, são os nomes de cidades que existem no mundo das Formas imaginais, e o mesmo Profeta chegou a pronunciar estes nomes. Há que distinguir não obstante: Yabalqa e Yabarsa são duas cidades que correspondem ao mundo dos Elementos do mundus imaginalis ou mundo das Formas imaginais, ao passo que Hurqalya se encontra nos Céus desse mesmo mundo.



Disse-vos que é impossível que as imagens estejam impressas materialmente no olho; é também impossível que o estejam em algum lugar do cérebro. A verdade é que as formas que se veem nos espelhos, assim como as Formas imaginais, não estão materialmente impressas, nem no espelho nem na imaginação. Não, são “corpos em suspenso”, que não dependem de um substrato (ao qual se uniriam como a cor negra, por exemplo, o faz com o corpo negro). Têm, claro, lugares de aparição ou lugares epifânicos (mazahir), mas não estão materialmente contidos neles. O espelho é, claro, o lugar de aparição das formas que se veem no espelho, mas estas formas estão por sua vez “em suspenso”; não se encontram nele nem como algo material em um lugar do espaço, nem como um acidente em um substrato. A Imaginação ativa é, evidentemente, o lugar de aparição das formas imaginais, mas estas mesmas formas estão “em suspenso”; não estão nem nesse lugar nem nesse substrato. Enquanto no caso dos espelhos se aceita a existência de uma imagem autônoma, ainda que seja superficial, sem profundidade nem reverso, ao passo que isso do que é imagem (ou seja, a forma acidental de Zayd, por exemplo, imanente a sua matéria) é um acidente, deve-se aceitar a fortiori a existência de uma quidditas substancial, a da Forma imaginal (substancial efetivamente, já que é independente de todo substrato), que tem uma imagem acidental (a forma de Zayd imanente a sua matéria). Ora, a luz imperfeita é feita à imagem da luz perfeita. Compreendei-o.

Qutb al-Din Mahmud Shirazi: As Formas imaginais não existem pois nem no pensamento, já que o grande não pode albergar-se no pequeno, nem na realidade concreta, pois, se assim fosse, qualquer um que possua sentidos em boas condições poderia vê-las. Mas tampouco são um puro não ser, pois se assim fosse não se poderia nem imaginá-las nem distinguir umas das outras, e tampouco poderiam ser objeto de juízos distintos.

Como participam do ser real e não estão nem no pensamento nem na realidade concreta, nem no mundo das Inteligências — pois são formas materializadas, não puros inteligíveis —, devem existir em outro mundo, e a este último é ao que se chama mundus imaginalis, mundo do imaginal e da percepção imaginativa, mundo intermédio entre o mundo da Inteligência e o mundo dos sentidos; seu nível ontológico está acima do mundo dos sentidos e abaixo do mundo inteligível; é mais imaterial que o primeiro e menos imaterial que o segundo. É um mundo em que se encontra a totalidade das formas e das figuras, dimensões e corpos, com o que isto implica: movimentos, repouso, posições e representações, etc. e todas elas subsistem por si mesmas, “em suspenso”, ou seja, sem estar contidas em um lugar nem depender de um substrato.

“Compreendei”, diz-nos o autor. Há aí efetivamente um segredo magnífico, algo de uma enorme importância, e é o fato de que a totalidade das coisas existentes no mundo superior têm seu nadir e seu análogo no mundo inferior. Todas estas coisas se conhecem por meio de seu nadir e seu análogo. Logo, quando se aprendeu a conhecer, como deve ser, a realidade das luzes efêmeras, vosso conhecimento ajuda a conhecer as Luzes substancialmente imateriais. A razão de tudo isto é que se saiba que a luz acidental imperfeita do sol do mundo sensível é a imagem da luz substancial perfeita, que é a do sol do mundo da Inteligência, a Luz das Luzes. Do mesmo modo, a luz de cada astro efêmero é a imagem de uma luz substancial imaterial. Este é um tema profundíssimo, que sugere múltiplas experiências místicas. Daí o imperativo do autor: “Compreendei!”.



Estas Formas imaginais autônomas não são Ideias platônicas, posto que as Ideias de Platon são luz pura e são imutáveis, ao passo que entre as Formas a que se refere há as tenebrosas, e são as que atormentam os réprobos; são formas horríveis, repugnantes, cuja visão supõe um sofrimento para a alma; outras entretanto são luminosas, são aquelas de cuja doçura gozam os bem-aventurados, e são formas belas e esplêndidas.

Qutb al-Din Mahmud Shirazi: Assim como os antigos Sábios, como Platon, Socrates, Empedocles e outros, afirmaram a existência das Ideias platônicas assegurando que são inteligíveis e pura luz, também admitiram a existência das Formas imaginais autônomas, não imanentes a um substrato material de nosso mundo. Admitiram que são substâncias separadas, independentes das “matérias materiais”, que radicam na faculdade meditadora e na Imaginação ativa da alma, no sentido de que estas duas faculdades são seus lugares epifânicos, os lugares em que se mostram estas Formas que claramente têm uma existência concreta sem ser por isso imanentes a um substrato. Estes Sábios admitiam a existência de um duplo universo: por uma parte, o universo do suprassensível puro, que inclui o mundo da Deidade e o mundo das Inteligências angélicas; por outra parte, o mundo das Formas materiais, ou seja, o mundo das Esferas celestes e dos Elementos e, entre ambos, o mundo das formas das aparições, isto é, o mundo das Formas imaginais autônomas…

Estas Formas imaginais não têm substrato em nosso mundo material, pois se assim não fosse as perceberiam necessariamente os sentidos externos, sem que fossem necessários os lugares epifânicos. São substâncias espirituais, que subsistem em si mesmas e por si mesmas, no mundo da percepção imaginativa, ou seja, no universo espiritual.

Sohrawardi: Vivi em minha alma algumas experiências autênticas e convincentes que demonstram que há quatro universos: o mundo das Luzes dominantes ou arcangélicas (Luzes vitoriais, o Yabarut); existe o mundo das Luzes que governam os corpos (ou seja, as Almas, o Malakut); existe um duplo barzaj, e existe o mundo das Formas imaginais autônomas, tenebrosas umas, luminosas outras, as primeiras das quais constituem o tormento imaginal dos réprobos, e as segundas as doçuras imaginais das quais gozam os bem-aventurados… A este último mundo é ao que se designa como o mundo das Apparentiae reales independentes da matéria ('alam al-asbah al-muŷarrada); por meio deste universo é onde se realiza a ressurreição dos corpos e as aparições divinas, e onde se cumprem todas as promessas da profecia.

Qutb al-Din Mahmud Shirazi: Deve-se pois compreender que o primeiro destes universos é o das Luzes inteligíveis separadas que não têm nenhuma ligação com os corpos; são os cohortes da Majestade divina, os Anjos do mais elevado grau (Angeli intelectuales). O segundo universo é o mundo das Luzes que regem um corpo, tanto se são o Espahbad de uma Esfera celeste (Angeli caelestes) como de um corpo humano. O terceiro universo constitui o duplo barzaj; é o mundo dos corpos visíveis por meio da percepção sensível (porque tudo o que é corpo forma um intervalo, uma distância, um barzaj). Divide-se em mundo das Esferas, com os astros que estas contêm, e em mundo dos Elementos, com seus componentes. Finalmente, o quarto universo é o mundo imaginal da Imaginação ativa; é um mundo imenso, infinito, cujas criaturas mantêm um paralelismo, um a um, com as que contém o mundo sensível no duplo barzaj, os astros e os componentes dos Elementos, os minerais, vegetais, animais e o homem…

A este último mundo é ao que se referiam os antigos Sábios ao dizer que existe um mundo dotado de dimensões e de extensão, distinto do mundo material sensível. Infinitas são suas maravilhas, inumeráveis suas cidades. Entre elas se encontram Yabalqa e Yabarsa. São duas cidades imensas, cada uma das quais conta com mil portas. São infinitas as criaturas que as habitam. Nem sequer sabem que Deus criou o Adão terrenal e sua descendência.

Este mundo corresponde ao mundo sensível: suas Esferas celestes imaginais (ou seja, Hurqalya propriamente dito) estão em perpétuo movimento; seus Elementos (ou seja, Yabalqa e Yabarsa) e seus componentes recebem sua influência e ao mesmo tempo as iluminações dos mundos inteligíveis. Ali é onde se realizam até o infinito as distintas classes de Formas imaginais autônomas, formando uma hierarquia de níveis diferenciados pela sutileza ou a densidade. Os indivíduos que habitam cada nível são infinitos, a despeito de que os distintos níveis sejam em si mesmos finitos (pág. 240: Em cada um destes níveis existem espécies análogas às que existem em nosso mundo, mas são infinitas. Alguns estão habitados por um povo de Anjos e de humanos Eleitos. Outros estão habitados por um povo de Anjos e de gênios e outros estão povoados por demônios. Somente Deus conhece o número de níveis e o que contêm. O peregrino que se eleva de um nível a outro superior descobre em cada nível superior um estado mais sutil, uma beleza mais fascinante, uma espiritualidade mais intensa, um deleite mais transbordante. O mais elevado destes níveis limita com o das puras entidades inteligíveis de luz, e encontra-se muito próximo a seu ser análogo). Os profetas, os Iniciados, os teósofos místicos, todos eles admitiram a existência deste universo. Os peregrinos do espírito encontram nele tudo quanto lhes é necessário, todas as maravilhas e taumaturgias que possam desejar…

… Por meio deste universo se levam a cabo as aparições divinas, às vezes majestosas e de uma beleza resplandecente, temíveis e terríveis outras, sob as quais se manifesta a Causa primeira. O mesmo se pode dizer das apparentiae reales sob as quais lhes convém mostrar-se à Primeira Inteligência e às demais Inteligências arcangélicas, já que para cada uma delas existem múltiplos que correspondem às distintas formas que adotam para aparecerem-se. As formas das aparições divinas podem ter lugares de epifania em nosso mundo e quando se manifestam nele é possível percebê-las visualmente. Isto é o que ocorreu com Moises quando Deus se manifestou ante ele no monte Sinai, como menciona a Tora. Isto é o que lhe ocorreu ao Profeta, que percebia a realidade do Anjo Gabriel, quando este se manifestou sob a forma do adolescente Dahya al-Kalbi. Pode-se dizer que todo o universo do Imaginal é o lugar epifânico da Luz das Luzes e dos seres de luz imateriais, cada um dos quais se manifesta sob uma forma determinada, sempre em função da aptidão correlativa do receptáculo e do agente.

Finalmente, quando se diz que por meio desse universo se cumprem as promessas da profecia, se isso se refere tanto aos tormentos que sofrem os povos do inferno quanto às doçuras das quais gozam aqueles que estão no paraíso, é porque a condição do corpo sutil de que a alma dispõe post mortem corresponde à do corpo material sensível. O corpo sutil também tem sentidos externos e sentidos internos, e tanto no caso de um quanto no do outro, o sujeito que percebe e sente nunca é outro senão a própria alma.



As realidades suprassensíveis com que os profetas, os Iniciados e outros se encontram, umas vezes lhes são apresentadas em forma de linhas de escrita, outras vezes por meio da audição de uma voz determinada que pode ser suave e doce, ou aterrorizadora. Às vezes veem formas humanas de uma beleza surpreendente que lhes dirigem as palavras mais belas e conversam confidencialmente com eles do mundo invisível; outras vezes estas formas lhes são apresentadas como delicadas figuras, obras devidas à arte dos pintores mais sensíveis. Às vezes se apresentam em um recinto, outras vezes veem formas e figuras em suspenso. Tudo quanto se percebe em sonhos, montanhas, oceanos e continentes, vozes extraordinárias, seres humanos, tudo isso são outras tantas figuras e formas que subsistem por si mesmas sem ter necessidade de um substrato. O mesmo ocorre com os perfumes, cores e sabores. Montanhas e oceanos que se veem em sonhos, tanto se se trata de um sonho verídico quanto de um sonho enganoso, como poderia contê-lo o cérebro, ou qualquer de suas concavidades, de que modo se concebe ou explica esta capacidade? Assim como o adormecido desperta de seus sonhos, ou o imaginativo e o contemplativo entre a vigília e o sonho, quando voltam de sua visão, abandonam o mundo das Formas imaginais autônomas sem ter que se pôr em movimento nem ter a sensação de que exista uma distância material com relação a ele, igualmente aquele que morre para este mundo encontra a visão do mundo da Luz sem ter que fazer o menor movimento, porque ele mesmo está no mundo da Luz…

… As Esferas celestes emitem sons que não são provocados por algo que existe em nosso mundo sublunar. Também se demonstrou anteriormente que o som é algo distinto da vibração do ar. O máximo que se pode dizer a respeito é que aqui embaixo o som está condicionado pela vibração do ar. Mas, se uma coisa é uma condição prévia para que se produza outra em outro lugar, isso não significa que o seja também para sua análoga. Assim como um fato geral pode ter múltiplas causas que se permutam entre si, de igual modo também podem mudar suas condições. Assim como as cores dos astros não estão condicionadas pelo que condiciona as cores em nosso mundo terrenal, o mesmo ocorre com os sons emitidos pelas Esferas celestes. Não se pode dizer que os sons de uma amplitude aterrorizadora escutados pelos místicos visionários estejam provocados por uma vibração do ar no cérebro, já que uma vibração do ar com semelhante força, devida a alguma sacudida no cérebro, é algo inconcebível. Não, trata-se da Forma imaginal do som, e esta Forma autônoma é por sua vez um som (como: da mesma maneira que a Forma imaginal do homem é um homem, e que a de cada coisa é essa mesma coisa respectivamente). Assim se pode conceber que haja nas Esferas celestes sons e melodias que não estejam condicionados de forma alguma pelo ar nem por uma sacudida vibratória. E não se pode imaginar que haja melodias mais deleitáveis do que suas melodias, como tampouco se pode conceber que haja desejo ardente que seja mais ardente do que o dos Angeli caelestes. Ah! Saudação a todos aqueles que se embriagaram e enlouqueceram em seu desejo do mundo da Luz, em seu amor apaixonado pela majestade da Luz das Luzes, e que em seus extases se fizeram semelhantes aos “Sete Muito Firmes” (78:12), pois seu caso encerra uma lição para todos aqueles que sejam capazes de compreender.

Qutb al-Din Mahmud Sirazi: Tal como afirma o autor no Livro das Conversações, todos os Espirituais dos distintos povos afirmaram a existência de ditas sonoridades, não no nível de Yabalqa e Yabarsa, que são as cidades do mundo dos Elementos no mundus imaginalis, mas sim no nível de Hurqalya, a terceira cidade, de infinitas maravilhas, a que está no mundo das Esferas celestes do mundus imaginalis. Àquele que chega até ela se manifestam as entidades espirituais que estas encerram. Pitágoras contou que sua alma se havia elevado até o mundo superior. Graças à pureza de seu ser e à adivinhação de seu coração, havia escutado as melodias das Esferas e as sonoridades produzidas pelos movimentos dos astros, ao mesmo tempo em que percebia a discreta ressonância das vozes de seus Anjos. Voltou depois a seu corpo material, e o que havia escutado determinou as relações musicais e aperfeiçoou a ciência da música.