O mundo imaginal é, em uma palavra, o mundo mesmo, alcançado em sua indivisão, anteriormente a nossas abordagens fraccionantes, simplificantes, o mundo em sua glória primeira, onde se situam as visões, onde o real se transfigura. Sua reconquista, nos diz Corbin, é «a questão e o lugar do combate dos javanmardan». Na ordem imaginal, por essência unitária, o corpo não é mais o oposto do espírito. Seu estado é, ele também, intermediário, sutil. O corpo imaginal (jism mithali) é o corpo absolutamente próprio, o corpo concreto e singular, de certo modo tornado espiritual. É certamente corpo, mas renovado, conduzido a uma nova juventude — corpo auroral, aberto à riqueza indivisível do mundo criado. Como imergido em um real doravante unitário, onde os conceitos antagonistas de «espírito» e de «matéria» não têm mais curso. No mundo imaginal pode se operar o encontro esperado do homem e de seu «Anjo» (v. Homem e Anjo), do Eu e de seu Outro. Não do Eu e de um Tu sempre separador, mas do Eu próprio e de um Outro que permanece um Eu, de um «Eu na segunda pessoa» que é sua verdadeira essência. Pois o «Anjo» é como a plenitude do mundo imaginal, sua dimensão acabada, vinda a termo. Mas isso para cada um de nós, deve-se insistir, em uma relação e uma troca que é e que permanece de Único a único.
Precisaria escrever um livro inteiro para se explicar em suas facetas múltiplas tudo o que Corbin disse a respeito do mundo do imaginal que caracteriza tão bem, segundo ele, a especificidade própria do universo espiritual iraniano. Sohravardi foi o primeiro a fundar ontologicamente o nível, mas já aparece na cosmologia de Avicena. É o fio invisível que constitui a memória do mundo iraniano que se renova e se metamorfoseia a cada assalto do estrangeiro, a cada corte que lhe impõem os inumeráveis invasores que atravessaram o planalto iraniano. Paraíso hiperbóreo, a Luz-de-Glória (Xvarnah) na cosmologia zoroastriana, ela reaparece no “oitavo clima” de todos nossos filósofos: de Avicena até Hadi Sabzavari, passando por Sohravardi e Molla Sadra Shirazi sem contar a contribuição dos grandes poetas visionários. Ela é esta fonte eternamente fresca onde a alma do Irã retira sua identidade e os tesouros espirituais que lhe legaram seus ancestrais. “De século em século, diz Corbin, a meditação dos pensadores iranianos portou seu esforço sobre o estatuto de um mundo, que não é nem este da percepção empírica, nem aquele do entendimento abstrato. A ideia deste universo intermediário reaparece depois de Sohravardi (século XII), até Molla Sadra Shirazi (século XVII), Hadi Sabzavari (século XIX) e tantos outros até nossos dias. Este universo, eles designaram de nomes diferentes: ora por referência aos sete climas da geografia tradicional (Geografia Sagrada), designado como o “oitavo clima”; ora mais tecnicamente, como o 'alam al-mithal”.
Este “oitavo clima” tem múltiplas ressonâncias ao nível da ontologia assim como da cosmologia e da angelologia. Ele funda uma metafísica das Imagens onde estas adquirem um valor cognitivo e noético próprio. Pois as Imagens surgem não do inconsciente mas da sobre-consciência; elas são portanto por este fato Imagens intelectivas. Para as distinguir claramente do imaginário que enquanto “louca da casa” não secreta senão do fictício e do irreal, Corbin forjou o termo de imaginal. O mundo do Imaginal, 'alam al-mithal é o mundo onde têm lugar as visões dos profetas, dos místicos e os eventos da alma, eventos tão reais quanto aqueles do mundo sensível mas que têm lugar em um outro nível do Ser.
Digamos então que o mundo do imaginal se integra no esquema de uma cosmologia que se traduz em angelologia. A Imagem metafísica se torna o pensamento do Anjo, o modo de sua espacialização própria; ela tem uma extensão e uma dimensão, “uma 'materialidade imaterial', certamente, em relação àquela do mundo sensível, mas enfim, uma 'corporalidade' e uma espiritualidade próprias” (Face de Deus, Face do Homem); o espaço de conjunção onde a alma humana e o Anjo se imaginam um e outro. Para bem distinguir a qualidade intelectiva da Imagem de sua natureza estimativa ou se se quer o Imaginal do imaginário, Sohravardi nos faz significar que quando é o Intelecto que a fecunda, a imaginação se torna um anjo, quer dizer uma faculdade cogitativa e meditativa (mofakkir). em revanche quando a estimativa (wahm) faz irrupção nela, ela se transforma em fantasia (motakhayyila) e se torna um demônio. Donde seu lugar ambíguo ora determinado pelo intelecto, ora perdido pela estimativa.
Se a Imagem intelectiva é a matéria sutil do Anjo, é que ela é um Intermundo entre o Inteligível e o sensível, beneficiando de uma existência autônoma e de um poder transfigurador próprio. Este mundo intermediário garante em primeiro lugar a continuidade e a progressão aos níveis ontologicamente superiores; ele é o situs dos eventos da alma, dos relatos visionários tão importantes nos estados contemplativos da mística; ele torna possível a articulação de uma linguagem simbólica posto que as imagens se transmutam neste lugar meio-espiritual, meio-sensível (Geistleiblichkeit) no qual as impressões subliminais da alma parecem sob formas simbolizadas, — e isto tanto ao nível da antecipação escatológica quanto ao nível póstumo do devir da alma (corpo sutil de ressurreição). Este mundo, sendo um desvelamento interior, é uma inversão do tempo e do espaço: o que estava oculto sob as aparências se revela subitamente para envelopar o que estava até então exterior; o invisível se faz assim visível; é portanto situacional e não situado (No Islã iraniano IV). A passagem a este mundo exige uma reviravolta do tempo dos horizontes em tempo da alma, logo uma hermenêutica espiritual (tawil). Finalmente, este mundo projeta, em razão de sua faculdade de metamorfose, uma geografia visionária com suas cidades fabulosas, suas montanhas, suas fontes e seus rios.