Skip to main content
id da página: 8257 Damascius – Dos Primeiros Princípios

Damascius

NeoplatonismoDamascius – Dos Primeiros Princípios


DAMASCIUS LE DIADOQUE. Des premiers principes: apories et résolutions. Marie-Claire Galpérine. Lagrasse: Verdier, 1987

Dos Primeiros Princípios

Há uma tradução em português cuidadosa de Américo Sommerman

  • Do indizível
  • Do uno1
  • Do não-uno
  • Do unido
  • Do conhecimento
  • Dos muitos
  • Da processão
  • Da participação

A consideração dos princípios é aquela do cume do inteligível. Mais alto ainda, é aquela do um e do além do um.

As primeiras aporias versam sobre o absoluto e a noção mesma de um princípio absoluto. Além de tudo, e do um ele mesmo, nossa alma pode pressentir o que não é nada de todo, o que não é sequer um, o que não pode ser pensado nem nomeado. É o indizível absoluto.

As segundas aporias concernem ao um. Aquele que Plotino e Proclo chamam o primeiro, vem depois do indizível. É somente “o primeiro que saiu deste abismo como de um santuário”. E se é o primeiro que se pode nomear, é também o primeiro intermediário, entre o indizível e o dizível, entre o absoluto e o sistema de relações que o discurso tece.

As terceiras aporias têm por objeto o que vem depois do um. Versam sobre a origem mesma de toda processão. Ora, o um não saberia proceder. Como se pode que, fora do um, haja outra coisa? Como pensar a primeira diferença, o primeiríssimo desvio entre o um e os outros?

Todas as aporias que se seguem concernem ao terceiro princípio, aquele que Damáscio chama o unido (to henomenon), a mais alta união, aquela do um e dos muitos, que é ao mesmo tempo o primeiro inteligível e o primeiro ser, mas o ser não ainda diferenciado do um, aquilo mesmo que, no Parmênides de Platão, é dito um-ser (hen on). Este princípio que, porque é o terceiro, cria a primeira tríade, constitui por este primeiro ato a “primeira ordem dos inteligíveis”. Trata-se dele desde o fólio 69 verso (I. 111,5) e até o fólio 93 verso (I. 161, 13). Mas nos capítulos seguintes todas as aporias são doravante postas a respeito do unido.

— É cognoscível? Mas o que é o conhecimento?

— É muitos? O que é, então, ser muitos?

— Procede? Como pensar sua processão?

— Enfim, os primeiríssimos princípios são participados ou são imparticipáveis? Em que sentido o são? Em que sentido não o são? O que é primeiro a participação? A questão é posta no fólio 208 recto e, a partir do fólio 210 recto, na décima primeira linha, o texto se interrompe no meio de uma frase.

Tal é o plano, pelo menos na medida em que se pode apercebê-lo, das Aporias e resoluções sobre os primeiros princípios.

A obra obedece a um desígnio muito simples. Contudo, foi julgada obscura, por vezes até ininteligível. Isso se deve a que a mente de Damáscio é por essência difícil. Compraz-se em multiplicar as aporias mais sutis, frequentemente de uma maneira que, para o leitor moderno, parecerá vã. Por este “amor pelo labor da mente” (philoponia), Damáscio se mostra em sua obra tal como Simplício o descreveu: “um homem apaixonado pela pesquisa no mais alto grau (aner zetetikotatos) que introduziu na filosofia muitos trabalhos exaustivos (pollous eisagagon ponous philosophia)”. Se exaure o leitor de hoje, já exauria seus discípulos mais próximos. Simplício o confiou: a despeito de todos os seus esforços nunca conseguiu entrar nas vistas de seu mestre sobre o tempo. Para o último dos filósofos gregos, trata-se sempre primeiro e antes de todas as coisas, de pôr aporias, de se embaraçar a si mesmo e de embaraçar os outros. O dialético sutil, hábil em pôr as aporias, mostra-se igualmente hábil em resolvê-las. Mas há duas espécies de aporias, e a profundidade de Damáscio é ter sabido pôr com uma força singular aquelas que não comportam solução. Pelo menos não se deve buscá-la em outro lugar senão na dificuldade ela mesma, no esforço para resolvê-la e no fracasso. Esta bela palavra aporia lembra a origem e a condição. Só o amante da sabedoria pode viver este embaraço que o deixa sem resposta e sem recursos (aporos) no limiar da verdade da qual permanece separado. Como Penia, nossa alma está sempre na aporia. Só pode mendigar às portas do deus do qual Platão disse que era o filho de Metis. (Marie-Claire Galpérine)


1 Escreve-se o um sem maiúscula, assim como as outras entidades que o neoplatonismo multiplicou. Se com efeito se escreve o um com uma maiúscula, todos os outros princípios deverão receber uma. E primeiro o tudo. E se se diz que o um é tudo e que o tudo é um, receberá o um uma maiúscula quando é sujeito, perdê-la-á quando é predicado? Mas nem o um nem o tudo são predicados. Quando todos os princípios são escritos com uma minúscula, seu caráter absolutamente indeterminado e indeterminável torna-se então sensível. Não se pensa a transcendência sem a imanência, nem a imanência sem a transcendência. J. Trouillard, em sua tradução dos Elementos de Teologia de Proclo, terá precedido nesta via: “Melhor é escrever ‘um’ com uma minúscula. É respeitar a indeterminação deste termo que designa ora o transcendente, ora o imanente, e que não deve ser mais personalizado do que reduzido à impessoalidade. O um que se é tentado a chamar ‘Deus’ é menos a divindade que o princípio dos deuses e a razão geradora dos espíritos.” (Marie-Claire Galpérine)