Diálogo com Nicodemos
DIEL, Paul; SOLOTAREFF, Jeanine. Le symbolisme dans l’Évangile de Jean. Paris: Payot, 1983
Da mesma forma que o início da missão se situa em um círculo íntimo, o das bodas de Caná, o primeiro discurso ainda não se dirige ao mundo, mas a um só homem, a Nicodemos, que é contudo — e por causa de sua cegueira — o representante do inimigo a ser vencido, os Fariseus. Nicodemos vem encontrar Jesus de noite, o que mostra que ele se esconde de seus pares, temendo manifestar seu interesse pela mensagem de Jesus. Contudo, ele vem para Jesus para afirmar que crê nele:
Os «milagres», tanto simbólicos (Lázaro) quanto sob a forma de curas espetaculares de doenças histéricas e psicossomáticas, serão, por todo o Evangelho, uma das razões, para a multidão e para alguns fariseus, de pensar que Jesus é um homem de Deus. Mas isso permanece um motivo muito insuficiente, pois esta crença supõe uma referência seja aos outros, seja a fatos exteriores. Não é a compreensão real de sua mensagem.
O senhor fala de Deus, mas sabe sequer quem ele é? O senhor nasceu para a vida do espírito? O senhor nasceu de cima?
O reino de Deus é a vida interior compreendida segundo sua dimensão essencial e misteriosa; poder assumir esta dimensão da vida, é desenvolver em si a verdadeira fé. É preciso, portanto, renascer, é preciso despertar da banalização farisaica e viver no essencial. Desde o início do ensinamento de Jesus, a fé na dimensão essencial da vida é, portanto, oposta à falsa crença de Nicodemos, à crença em milagres. Desde o início da vida pública, a condição para compreender a palavra de Jesus é formulada.
3,4: «Nicodemos lhe disse: ‘Como pode um homem nascer, quando é velho? Pode ele entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e renascer?’.»
3,5: «Jesus respondeu: ‘Em verdade, em verdade eu te digo: ninguém, a menos que nasça da água e do Espírito, pode entrar no reino de Deus’.»
Nicodemos mostra por esta questão que ele não considera a ideia de uma vida após a morte. Jesus lhe responde que é preciso renascer em espírito. Esta renascença em espírito está ligada à purificação dos desejos exaltados, a água sendo uma alusão ao batismo. Purificação da exaltação dos desejos, vida essencial, «reino de Deus» têm uma mesma significação. Visto que renascer, ter a vida eterna e ressuscitar são, por todo o Evangelho, sinônimos, já é, por esta única passagem, claro que a ressurreição é a ressurreição, durante a vida, do espírito até então ofuscado pelas crenças, e não a ressurreição da carne.
Ainda mais porque Jesus continua:
É o convite preciso para não fazer confusão entre os desejos carnais e o desejo essencial, espiritual. Uma nova nascença não pode ser senão a renascença do espírito, a qual não pode ser senão o despertar do espírito; a passagem fala, portanto, da ressurreição moral, do endireitamento interior, do despertar da banalização da qual Nicodemos é a presa. O próprio Jesus — ou, se quiser: o Evangelista — faz uma distinção importante entre a ressurreição moral e a ressurreição metafísica (mais adiante, Jesus dirá que ele ainda falou apenas «das coisas terrestres», no caso da ressurreição durante a vida, a ressurreição moral).
Convém precisar aqui a distinção entre a ressurreição moral e a ressurreição metafísica. A ressurreição moral é o despertar do impulso, o retorno ao essencial, após a entrega na banalização. Ela se realiza durante a vida. A banalização sendo chamada a morte da alma, ou ainda a morte do impulso animador, o retorno à vida essencial pode ser chamado uma ressurreição, a palavra ressurreição não significando, de resto, nada mais em grego que «endireitamento».
A ressurreição metafísica, por outro lado, não corresponde a nenhuma realidade no mundo espaço-temporal. Ela é apenas uma imagem. A vida, não tendo saído do nada absoluto do qual nada pode sair, já que ele não contém nada, não retorna ao nada; mas de onde ela vem e para onde ela vai? Ela retorna ao mistério de onde ela saiu, ainda que estes termos «sair» e «retornar» sejam inadequados, pois são emprestados do mundo espaço-temporal. Este mistério não é um nada absoluto, mas um nada relativo à compreensão humana, já que o pensamento se encontra incapaz de explicar qualquer coisa fora do mundo espaço-temporal. O termo «mistério» não abrange, portanto, nenhuma entidade, mas ele quer exprimir o limite da competência do espírito humano.
Após a morte do corpo, o impulso animador, o que animou misteriosamente este corpo, não desaparece (de novo, esta imagem é emprestada do mundo espaço-temporal), ele retorna ao mistério de onde ele saiu, e que de fato ele nunca deixou completamente, pois a vida manifesta, a aparição, possui, fora de seu aspecto modal, modificável, um aspecto misterioso.
Para cada homem, qualquer que seja seu grau de sublimação ou de desvio, se realiza, pela morte real, a ressurreição metafísica, o retorno ao mistério.
As imagens metafísicas têm por objetivo sustentar a emoção diante do mistério da vida e da morte, e de despertar a fé na justeza e na justiça da vida. Se o homem toma as imagens forjadas para este efeito por realidades, não só ele não acalma sua angústia diante da vida e diante da morte, mas ele a aumenta. Na concepção dogmática da ressurreição, os dois aspectos da ressurreição não são distinguidos, mas intriquados, o que tira de cada um seu sentido verídico e leva a uma crença supersticiosa em uma ressurreição após a morte que não seria mais uma imagem simbólica mas uma realidade. Se o homem nega o alcance simbólico destas imagens, ele mata sua emoção diante da vida e da morte, ele se banaliza.
Jesus continua a falar da significação moral desta ressurreição.
O vento é o símbolo do espírito criador e animador, de seu sopro; ele é o chamado essencial. Pode-se ouvir sua voz, pode-se sentir-se chamado, pode-se «ressuscitar», endireitar-se moralmente sob o comando interior do espírito, mas «não se sabe de onde ele vem nem para onde ele vai»; mesmo aquele que é nascido do espírito «e que é ressuscitado», ignora de onde vem a organização e tudo o que existe, ele ignora onde ela retorna; ela «se abisma» no insondável mistério diante do qual se encontra o pensamento quando ele busca compreender a causa e a origem do mundo e da existência. A introdução do mistério sob sua forma impenetrável, nesta passagem que fala do problema moral, prepara a introdução da ressurreição metafísica da qual Jesus falará mais adiante.
Visto que Nicodemos ainda não chega a compreender, Jesus lhe diz:
Nicodemos continua a ignorar estas coisas e está tão perplexo que ele nem sequer faz mais perguntas, só Jesus fala:
Jesus não fala levianamente; o que ele diz, ele o sabe; o que ele atesta, ele o viu. Ele sabe o que é a ressurreição do espírito, o renascimento, ele sabe que ele é o chamado que não pode resistir ao chamado imperativo do impulso, Deus no homem. Estas coisas são contudo fáceis de compreender e Nicodemos não as compreende; como ele poderá compreender quando se tratar de as alargar para sua dimensão metafísica?
E, começando a falar das coisas do céu, da ressurreição metafísica explicada precedentemente, Jesus põe no máximo a perplexidade de Nicodemos; ele acrescenta estas palavras que, para Nicodemos, já que ele não sabe compreender senão literalmente, não podem ser senão uma enormidade, uma absurdidade inacreditável:
Só, o Filho do homem, o homem por excelência, o homem santificado, o homem inteiramente movido por seu desejo essencial, aquele que «desceu do céu», isto é, o só cuja Essência-alma é inteiramente unida com a Essência-Pai, aquele só subiu ao Céu, pode se unir à Essência-Pai, «fazer um» com o Pai, como ele o dirá mais tarde, pois aquele só, pela força excepcional do impulso simbolicamente «divino» que o anima, é suficientemente purificado; ele sublimou, dissolveu a multiplicidade de seus desejos acidentais e não vive mais que seu desejo essencial, em toda sua exigência de harmonia.
A união da Essência-alma com a Essência-Pai é uma imagem simbólica: Jesus (sua essência-alma) assume plenamente o sentido misterioso da vida (a essência-Pai). Não há mais oposição entre a exigência evolutiva e seu próprio «eu» liberado de todo egocentrismo vaidoso.
Mesmo se ele mesmo, como ele o precisou a Nicodemos, não sabe de onde a vida vem, ele pode contudo repousar, desde já, no «mistério» simbolizado por Deus, pois ele venceu toda angústia diante do aspecto para sempre incognoscível da existência; e se ele venceu a angústia, é que ele assume em toda sua amplitude a exigência da vida, a harmonia.
O «céu» não é somente a alegria, recompensa do despertar da banalização, é ainda a imagem metafísica, a recompensa simbólica, o céu da «Eterna presença», a união quase perfeita do homem Jesus com a «Essência», com o sentido da vida, portanto a eliminação da distância entre a Essência-alma e a Essência-Pai. A alegria é acessível a todo homem de impulso, ao menos periodicamente. A «Eterna Presença» não é acessível senão ao santo.
Isto é uma alusão ao episódio onde Moisés dialoga com Javé. Assustado pela missão que seu impulso interior (Javé) lhe propõe, ele tenta se esquivar, pretextando uma insuficiente força de alma. Seu impulso lhe responde, com justeza, que lhe bastará «elevar a serpente no deserto». A serpente é o símbolo da vaidade em seu sentido etimologicamente profundo: o vão. O deserto é o símbolo do mundo banalizado. Moisés sente muito bem o perigo diante do qual ele vai se encontrar se ele obedece a este chamado: ele arrisca se deixar arrastar a querer dominar perversamente aqueles que ele deveria conduzir, e a justificar sua conduta como sendo o cumprimento do sentido da vida. Ele arrisca que «em sua mão», seu bastão, seu cetro recebido como marca de seu poder espiritual, não se torne uma serpente, não se torne vaidade de dominação banal. A isso, seu impulso responde: «eleva a serpente...». Sim, isso arrisca te acontecer, mas se tu és capaz de sublimar a vaidade (de elevar a serpente), então a serpente se tornará cetro entre tuas mãos, tu reencontrarás a autenticidade de teu comando.
A referência a Moisés não é fortuita; Moisés é particularmente caro ao conjunto do povo judeu; evocar seu exemplo é destinado a que Nicodemos preste particularmente atenção ao que Jesus vai dizer: da mesma forma que a vaidade pode ser sublimada, assim como Moisés o mostrou, da mesma forma «o Filho do homem deve ser elevado» no coração daqueles que compreendem sua mensagem: a esperança que ele representa deve ser assumida, ela deve se tornar o convite ao trabalho de sublimação. Este trabalho de sublimação não é nada mais que a dissolução da vaidade, e de toda esperança vã; ora, Nicodemos, como todo Judeu da época, acalenta a esperança de ver Jesus libertar o povo do jugo romano, como Moisés o arrancou do jugo egípcio. Moisés se mostrou, momentaneamente ao menos, capaz de dissolver a tentação vaidosa (ele «elevou a serpente no deserto»): Jesus, ele, não cessa de fazer este trabalho, tarefa essencial da vida; ele dirá mais tarde a seus discípulos: «É agora que o Príncipe deste mundo vai ser jogado para fora». Ora, o príncipe do mundo é o princípio que governa o mundo, a vaidade. Nicodemos é, portanto, convidado a seguir o exemplo de Jesus neste trabalho de sublimação da vaidade.
Aquele que tem fé na esperança que pode representar para todo ser humano o homem Jesus, aquele que assumirá sua proposição, terá a «vida eterna»; ele viverá, durante sua vida, segundo a eterna verdade, ele desenvolverá nele a vida essencial, como a desenvolveu, desde os tempos mais antigos, o homem que assume o sentido da vida, que prefere a morte do corpo à morte da alma.
Esta passagem, que precisa que a condição do salvamento é «que o filho do homem seja elevado», magnificado no coração do homem de fé, convite a dissolver a vaidade, não tem, portanto, nenhuma relação com a crucificação, a elevação na cruz, como o dogmatismo quis fazer crer, pois, entre a elevação da serpente e a elevação na cruz, não há nenhuma analogia real. Ainda mais que Jesus não podia ainda prever naquele momento, isto é, logo no início de sua missão, que ele seria pregado na cruz. Pôde-se construir depois uma analogia — mas que é formal — e tentar justificar a concepção dogmática do salvamento, o resgate místico pela morte na cruz. Da mesma forma que não foi pelo fato real da «elevação da serpente no deserto» que os homens foram salvos (o que não significaria estritamente nada), mas pela compreensão de que é possível ao homem dissolver a vaidade, da mesma forma a crucificação, a elevação de Jesus na cruz, não pode ser em si a condição do salvamento. A condição que traz o «salvamento», que permite escapar à morte da alma, à banalização, é de encontrar no exemplo do homem santificado a força de assumir seu próprio desejo essencial, e de se arrancar assim da banalização. A força de aceitação excepcional manifestada no momento da crucificação é no máximo um evento suscetível de reforçar a confiança na potência que a vida essencial dá. Se Jesus nunca tivesse sido crucificado, a elevação sublime de sua vida teria sido, para aqueles que compreenderam a significação essencial desta vida, uma condição suficiente para seu endireitamento interior.
A alusão ao mito da Redenção era aqui necessária para afastar a explicação dogmática desta passagem sobre a elevação, e da passagem seguinte, explicação segundo a qual estas duas passagens incluiriam uma profecia de Jesus sobre sua morte, em um momento onde nenhum perigo ainda se precisou — uma profecia que seria, portanto, miraculosa.
A vida e o mundo se apresentam, em sua misteriosa organização, de uma forma tão admirável que eles parecem ser o fruto de um criador animado de um amor profundo para com a criação. E eis que um homem capaz de assumir o sentido da vida, de encarnar esta misteriosa organização até nos mínimos detalhes de seu pensamento e de seus sentimentos, se tornou realidade histórica. Este homem é o filho simbólico do Criador simbólico. Ele é de fato um produto evolutivo da misteriosa organização da natureza, uma prova de que a vida pode ser vivida em sua plenitude, e por isso mesmo, uma esperança para todos os homens de atingir a plenitude, sempre relativa a seu impulso, é claro. A fé na possibilidade de uma realização essencial segundo as forças de cada um, permite encontrar o «salvamento» e de não perecer na banalização.
Um homem foi capaz de se salvar da perdição essencial, da banalização do espírito, se arrancando das convenções e das crenças dogmáticas recebidas desde a infância; de que maneira ele salva assim o mundo? Mostrando de forma evidente, seria ao preço de sua vida, que a satisfação da vida é a harmonia interior, a fidelidade às exigências do espírito, o contrário da convencionalidade do pensamento e da submissão às crenças dogmáticas.
Se, portanto, um homem pôde desenvolver a autenticidade de seu pensamento e permanecer fiel a seu impulso até na morte, ele está, em princípio, nas capacidades humanas de viver em acordo com a verdade, quaisquer que sejam as condições exteriores sofridas.
O versículo 18 parece em contradição com o início do versículo 17. Não é nada, pois se trata ali não de um julgamento exterior, proferido por um Ser real, mas de um julgamento imanente ao próprio psiquismo. O acordo consigo mesmo, com o desejo essencial de harmonização, é a única condição para não sofrer a autocondenação da culpabilidade. Assim, quem tem fé na possibilidade de viver segundo o desejo essencial e que o assume na medida de suas forças, não sofrerá o tormento de sua culpabilidade. Por outro lado, quem não tem fé neste ideal de harmonia e, por este fato, se desvia dele, é condenado por sua própria culpabilidade. Ele é «já julgado».
Não há que esperar por julgamento de um Deus real, julgamento que se passaria no momento da morte corporal ou ainda por ocasião do julgamento final, imagem que não tem, de fato, senão um sentido simbólico. O homem é julgado desde o instante onde ele se condena a passar ao lado de todas as alegrias essenciais da vida.
Assim, a fé na «essência» manifestada pela fé no homem Jesus não é a crença em um deus real, mas a certeza de que a vida tem um sentido e que este sentido é a harmonização interior. A fé na «essência» é um ato. Ela implica, para não permanecer crença morta, um trabalho intrapsíquico de dissolução das exaltações, uma liberação das convenções, mortais para a vida do espírito. Os sinópticos insistem no desapego dos bens materiais; este desapego não implica a renúncia aos desejos naturais e sensatos, o que seria uma exigência moralizante. Só os desejos exaltados e, por este fato, doentios estão em questão.
A importância concedida ao essencial libera das excessivas preocupações acidentais.
«Buscai o reino de Deus e o resto vos será dado por acréscimo».
3,19: «Tal é o julgamento: a luz veio no mundo, e os homens preferiram as trevas à luz; pois suas obras eram más.»
3,20: «Todo homem, de fato, que comete o mal odeia a luz e não vem para a luz, por medo que suas obras não sejam reprovadas.»
3,21: «Mas aquele que pratica a verdade vem para a luz, para que seja manifestado que suas obras são operadas em Deus.»
Este julgamento ao qual o homem se condena a si mesmo, por seu erro essencial, é expresso pelo ensinamento e pela vida de Jesus: a verdade esclareceu o mundo: em que consiste esta verdade? Na tomada de conhecimento da falta vital, a preferência concedida ao acidental, sob suas duas formas: gozos materiais e sexuais exaltados, submissão à estima do mundo (são estas as «obras más»). O mundo se desviou de sua falta, ele a reprimiu vaidosamente, e caiu nas «trevas» do subconsciente.
Quem é assujeitado a estas «obras más», teme a verdade capaz de lhe mostrar seu erro; ele teme por este fato o Filho do homem, que ao contrário vive segundo o sentido da vida e não teme ver suas intenções mais secretas reveladas.
Estas palavras mostram mais uma vez quanto Jesus conhecia os segredos do funcionamento psíquico. Lembramos aqui o versículo 25 do capítulo 2: «ele sabia pessoalmente o que há no homem». Lembramos ainda o convite ao trabalho introspectivo, por ocasião do episódio da mulher adúltera.