A MEDITAÇÃO COMO EXPERIÊNCIA DESPROVIDA DE EGO
A meditação (zazen) pode ser repousante e agradável, segundo Dogen. Seu estado (samadhi) pode assemelhar-se a um oceano sereno e, contudo, dinâmico. Seu campo pode ser tão vasto quanto a primavera, que abrange todas as suas flores, aves e cores das montanhas. Estando na primavera, ouve-se o som de um riacho no vale ou torna-se uma flor de ameixeira rodopiando ao vento.
As descrições poéticas de Dogen podem parecer contrárias à experiência habitual de meditação. Muitas vezes somos perturbados por dor física e sonolência; a mente pode dispersar-se, e as preocupações cotidianas continuam a ocupar-nos. Pode-se sentir que se teve uma má meditação. Dogen, contudo, não demonstra interesse por essas questões específicas. Ele simplesmente fala da magnificência da meditação e afirma que é possível experimentar a luminosidade tão logo se comece a meditar.
O que se pensa experimentar na meditação pode ser diferente do que realmente se experiencia. O que, então, se experiencia? Como reconhecer a experiência profunda e aplicá-la à vida diária? Estas são algumas das questões que Dogen aborda nos ensaios apresentados neste volume.
Se se quisesse resumir o ensinamento de Dogen em uma só palavra, talvez fosse “não separação”. Na meditação, o corpo experiencia-se como não separado da mente. O sujeito torna-se não apartado do objeto.
Enquanto o pensamento está frequentemente limitado à noção de “eu”, ocupada pelo “meu” corpo, “minha” mente e “minha” situação, Dogen ensina que é possível tornar-se desprovido de ego na meditação. Então já não se está confinado pela visão de mundo autocentrada e pelo sentido dominador de posse. Somente quando se torna transparente e se permite que todas as coisas falem por si mesmas é que suas vozes podem ser ouvidas e suas formas verdadeiras podem aparecer.
À medida que o praticante se acalma e se afasta do modo habitual das atividades físicas e mentais, muitas vezes surge uma boa ideia ou mesmo, por vezes, uma percepção extraordinária durante a meditação. No entanto, isto é apenas um estágio inicial. Se se avança além dele, pode-se experimentar a dissolução da noção de eu. Dogen descreve tal experiência pessoal no momento culminante de seu estudo como “deixar cair corpo e mente”.
ALÉM DO ESPAÇO E DO TEMPO
A distância de um lugar a outro já não é concreta. Um meditante caminha sobre o cume de uma alta montanha e nada nas profundezas do oceano, tornando-se não apenas um desperto, mas também identificando-se com um espírito combativo. A pessoa que se inclina torna-se una com aquela diante de quem se inclina.
As dimensões tornam-se livres de medida. A profundidade de uma gota de orvalho é a altura da lua. O mundo inteiro encontra-se em uma partícula minúscula. O extremamente grande torna-se extremamente pequeno, e vice-versa. Eis aqui outra visão da realidade, distinta de nossa maneira habitual de ver.
Não é que a dualidade deixe de existir ou de funcionar; o pequeno continua pequeno e o grande continua grande. O corpo permanece corpo, e a mente permanece mente. Sem discernir as diferenças entre as coisas, não seria possível conduzir nem mesmo as tarefas mais simples da vida cotidiana. Contudo, na meditação, as distinções parecem dissolver-se e perder seu significado habitual. Dogen chama esse tipo de experiência não dualística de nirvana, o qual existe em cada momento da meditação.
Dogen é, talvez, o único mestre Zen do mundo antigo que elucidou em detalhe o paradoxo do tempo. Para ele, o tempo não é separado da existência: o tempo é ser.
Certamente há a passagem do tempo marcada pelo movimento do sol ou do relógio, que sempre se manifesta em uma direção — do passado ao presente, e deste ao futuro. Por outro lado, às vezes parece que o tempo voa, enquanto em outras se move lentamente ou quase cessa.
Na meditação, segundo Dogen, o tempo é multidirecional: o ontem flui para o hoje, e o hoje flui para o ontem; o hoje flui para o amanhã, e o amanhã flui para o hoje. O hoje também flui para o hoje. O tempo voa, mas não se esvai. Este momento, que inclui todos os tempos, é intemporal.
Além disso, o tempo não está apartado daquele que o experiencia: o tempo é o eu. O tempo flui em “mim”, e “eu” faço o tempo fluir. É o “eu” desprovido de ego que torna o tempo pleno e completo.
ALÉM DA VIDA E DA MORTE
O tempo é também vida. Da mesma forma, o tempo é morte. Como outros mestres Zen, Dogen formula repetidamente uma questão existencial urgente: ao perceber a brevidade da vida, é necessário esclarecer o sentido essencial da vida e da morte.
Vida e morte são frequentemente denominadas “nascimento e morte” no budismo, baseando-se na compreensão de que se nasce e morre inumeráveis vezes, momento a momento. A meditação é um modo de familiarizar-se com a vida e a morte. Ao perceber que se continua nascendo e morrendo o tempo todo, torna-se íntimo tanto da morte quanto da vida. Assim, pode-se estar mais bem preparado para o momento da partida deste mundo do que de outra forma, o que, por sua vez, reduz o medo de morrer.
Para Dogen, cada momento da vida pode ser uma experiência completa e total de viver. A vida do “eu” não é separável da vida do todo — a vida de todos os seres. Do mesmo modo, a morte é uma experiência completa e total.
Quando se vive plenamente a vida e se morre plenamente a morte, a vida não é exclusiva da morte, nem a morte é exclusiva da vida. Então, vida e morte já não são plurais, mas singulares como vida-e-morte ou nascimento-e-morte.
É o dilema da existência: todos morrem, e, contudo, evitar a morte não é solução. Quando se encara a morte de modo absoluto, a morte torna-se “além da morte”. Dogen ensina que este é o significado de “vida-e-morte” para um ser desperto.
ILUMINAÇÃO E ALÉM
O caminho Zen para ir além da barreira do dualismo é meditar em plena concentração. Isto é chamado “apenas sentar-se”.
A valiosa contribuição de Dogen para esclarecer o sentido profundo da meditação é sua introdução do conceito denominado “círculo do caminho”. Significa que cada momento da meditação abrange os quatro elementos da prática: aspiração, prática, iluminação e nirvana.
“Aspiração” é a determinação na busca da iluminação. “Prática” é o esforço necessário para atualizá-la. “Iluminação” é o despertar da verdade, o dharma. “Nirvana”, em seu caso, é o estado de serenidade profunda, em que os pensamentos e desejos dualísticos estão em repouso.
Dogen afirma que mesmo um instante de meditação de um iniciante realiza plenamente a suprema realização, quer isto seja percebido ou não. Assim, a iluminação, frequentemente considerada o objetivo, é em si o caminho. O caminho não é outro senão o próprio objetivo.
A palavra “iluminação”, tradução do termo sânscrito bodhi (literalmente, “despertar”), possui múltiplos sentidos:
Segundo os sutras Mahayana, Shakyamuni Buda disse: “Alcancei o caminho simultaneamente com todos os seres sencientes sobre a grande terra.” Isto significa que todos os seres, sencientes e não sencientes, são iluminados pela iluminação original do Buda e, portanto, portam a natureza búdica — o potencial ou as características da iluminação. Em outras palavras, aos olhos do Buda, todos são igualmente iluminados e nenhum está separado do Buda. Contudo, isto não significa, sob a perspectiva ordinária e dualista, que todos os seres tornam-se sábios e livres da ilusão.
Na explicação de Dogen sobre o “círculo do caminho”, todos os que praticam a meditação estão plenamente iluminados. A iluminação não é separada da prática; a iluminação em cada momento é idêntica à iluminação insuperável. Este aspecto pode ser denominado unidade de prática-iluminação ou prática-realização. Dogen enfatiza a prática inseparável da iluminação como a prática essencial do caminho dos despertos — o caminho búdico. A consciência da iluminação, contudo, pode não ser reconhecida por todos em todos os momentos, pois trata-se de uma experiência mais profunda do que aquela apreendida pelo intelecto.
Ao praticar a meditação, frequentemente não se percebe que já se está iluminado, e, assim, procura-se a iluminação em outro lugar que não na prática. Dogen chama essa tendência de separação de “grande ilusão”. Todavia, essa busca fornece o potencial para a “grande iluminação”, que é a fusão entre a prática-iluminação inconsciente e a compreensão consciente.
Essa iluminação pode ocorrer de modo inesperado e intenso, como uma experiência corporal e mental da não separação de todas as coisas, mais do que como uma compreensão teórica. Tais rupturas espirituais, às vezes chamadas “ver através da natureza humana” (kensho em japonês), podem trazer exuberância. Dogen cita muitas dessas histórias de “realização súbita” por antigos praticantes Zen chineses como casos de estudo (koans).
Contudo, Dogen desencoraja seus discípulos a buscarem rupturas, advertindo que tal busca se baseia na noção de separação entre prática e iluminação. Essa realização ou “alcançar o caminho” requer tempo e geralmente segue uma série de tentativas fracassadas. A esse respeito, Dogen diz: “... ainda que estejas profundamente engajado em práticas rigorosas, talvez não acertes um alvo em cem atividades. Mas, seguindo um mestre ou um sutra, poderás enfim acertar um alvo. Este acerto é devido aos cem erros do passado; é o amadurecimento de ter errado cem vezes.”
Um ser desperto, um buda, é aquele que atualiza a iluminação. Se a iluminação não é nada separada da prática, torna-se claro que todos os que praticam a meditação conforme recomendado no budismo são budas. E aqueles que experienciaram e alcançaram compreensão profunda da não separação de todas as coisas são considerados como tendo atingido o caminho.
Contudo, para Dogen, alcançar o caminho não é o objetivo final. Ele encoraja os praticantes do caminho búdico a irem além dos budas e a não deixarem vestígio algum da iluminação. Isto significa que não se deve permanecer no domínio da não dualidade.
Ir além dos limites de todas as coisas é essencial. É sabedoria, que constitui a base da compaixão. Somente quando se identifica com os outros é possível agir genuinamente com amor em relação a eles. Ao mesmo tempo, porém, por razões práticas e éticas nas atividades diárias, é necessário manter as fronteiras entre o eu e o outro. Um ser iluminado é aquele que encarna a compreensão profunda da não dualidade enquanto age em conformidade com os limites ordinários, não estando preso a nenhum dos dois domínios, mas agindo de modo livre e harmonioso.
Treasury Of The True Dharma Eye Zen. Master Dogens Shobo Genzo
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