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id da página: 11400 Edith Stein – Juan de la Cruz

Edith Stein Cruz

Edith Stein – A Ciência da Cruz


STEIN, Edith. La science de la croix. Passion d’amour de Saint Jean de la Croix. Etienne de Sainte Marie. Beauvechain: Nauwelaerts, 1998

Prefácio

As páginas que se seguem constituem um ensaio para apreender João da Cruz na unidade de seu ser, tal como ele se apresenta a nós em sua vida e em suas obras. É por isso que nos colocamos aqui a partir de um ponto de vista onde é possível colocar esta unidade ao nosso alcance. Não se trata, portanto, de uma biografia do nosso Santo, nem, aliás, de uma apresentação de sua obra que expressaria toda a sua universalidade. Mas extraímos dos fatos de sua existência e do conteúdo de sua doutrina o que é necessário para penetrar nesta unidade.

Os testemunhos que apresentamos são detalhados e explícitos, mas depois de os termos juntado ao processo, buscamos uma explicação para eles. É precisamente aqui que o autor faz valer o que ele acredita ter apreendido das leis que regem o ser espiritual e sua vida graças ao esforço que se deu. Isto se aplica antes de tudo aos desenvolvimentos sobre o espírito, a fé e a contemplação que se intercalam, em diversos lugares, notadamente no capítulo intitulado: A alma no reino do espírito e dos espíritos. O que é dito lá sobre o eu, a liberdade e a pessoa não provém dos escritos de São João da Cruz. Encontramos nele certas apreciações a seu favor, mas desenvolvimentos deste gênero são estranhos à intenção que o anima e também à sua maneira de pensar. Foram os filósofos modernos que se propuseram pela primeira vez a tarefa de construir esta filosofia da pessoa a que se faz alusão nos trechos que acabamos de mencionar.

Quanto aos testemunhos que alegamos, os livros do Padre Bruno de Jesus Maria, O. C. D., São João da Cruz (Paris 1929), sua Vida de amor de São João da Cruz (Paris 1936), bem como Jean Baruzi, São João da Cruz e o problema da experiência mística (Paris 1931), foram para nós excelentes guias. Baruzi também nos forneceu ricas sugestões. Se ele é pouco citado apesar de sua experiência, é porque não é possível nos apoiarmos em seus ditos sem os submetermos a uma análise crítica. Tal análise ultrapassava o âmbito do assunto que havíamos nos proposto. Aquele que conhece a obra de Baruzi reencontrará os traços de sua influência, bem como os trechos que dão margem à crítica. Seu mérito incontestável permanecerá sempre o de ter colocado um zelo infatigável em descobrir as fontes e em julgar seu valor respectivo. Sua ideia a respeito do ponto em litígio é que o Cântico espiritual e a Chama Viva nos foram transmitidos em duas versões manuscritas e que as redações posteriores devem ser consideradas apócrifas. No que diz respeito à Chama Viva, a coisa é possível; para o Cântico, é verossímil. Quanto à Montanha e à Noite escura, a tradição concorda em dizer que provavelmente só possuímos redações apócrifas e mutiladas.


Doutrina da Cruz

  • A necessidade de se compreender a doutrina de São João da Cruz em suas profundezas mediante a consciência da originalidade e do caráter único de seus escritos, de sua origem e de sua destinação.

    • A elevação de São João da Cruz ao posto de Doutor da Igreja como fundamento para que se dirija a ele quem deseja ser instruído sobre os problemas místicos no âmbito da doutrina católica.
    • O reconhecimento de São João da Cruz, inclusive fora da Igreja, como um mestre no domínio do pensamento e como o mais seguro dos guias.
    • A consulta obrigatória a São João da Cruz para quem se propõe seriamente a penetrar no reino que é a vida interior.
  • A natureza não sistemática da descrição mística de São João da Cruz e o caráter prático de seu desígnio ao escrever.

    • A finalidade de São João da Cruz, ao escrever, assemelha-se à do Areopagita, que afirma: "conduzir pela mão", completando assim sua obra de diretor de almas.
    • A perda de uma parte significativa de seus escritos, incluindo composições anteriores ao seu cativeiro, anotações de instruções e a maior parte de sua correspondência.
    • A transmissão incompleta de seus quatro grandes tratados: A Subida do Monte Carmelo, A Noite Escura, A Chama Viva de Amor e O Cântico Espiritual.
  • A clareza das ideias mestras nos textos conservados de São João da Cruz, as quais, uma vez interrogadas, oferecem uma resposta satisfatória, não obstante as lacunas e os problemas textuais insolúveis.

  • A origem toledana dos escritos conservados, os quais emanam da experiência interior como sua fonte primordial.

    • A expressão da bem-aventurança e da dor de um coração provado e ferido por Deus mediante uma efusão lírica.
    • A composição das trinta primeiras estrofes do Cântico Espiritual e, possivelmente, do poema A Noite Escura durante o cativeiro.
    • A base que o poema A Noite Escura proporcionou para o escrito posterior intitulado A Subida do Monte Carmelo.
    • A comunicação dos poemas às almas de sua intimidade e a subsequent elaboração dos tratados explicativos a pedido de seus filhos e filhas espirituais.
  • A tradução da experiência mística na linguagem poética do pensador, que recorda seus estudos de filosofia e teologia.

    • A utilização parcimoniosa de termos técnicos da escolástica e o emprego abundante de imagens mais próximas da vida.
    • O alargamento das bases da experiência mediante a integração de seu conhecimento como diretor de almas e de sua penetração na vida interior dos outros.
    • A preservação da parcialidade e das falsas generalizações pela consideração da grande diversidade de vias possíveis e da delicadeza com que a graça se adapta a cada alma.
    • A Santa Escritura como fonte perene de ensinamentos sobre as leis da vida interior e confirmação segura da experiência interior.
    • A abertura proporcionada pela própria experiência para a compreensão do significado místico dos Santos Livros, incluindo os Salmos, as Parábolas de Nosso Senhor e os relatos históricos do Antigo Testamento.
  • A doutrina sobre o fim último da criação das almas humanas: a união com Deus e a oferta da plenitude de Sua vida divina já nesta vida.

    • A descrição da via que conduz a este fim como estreita, íngreme e difícil, na qual a maioria permanece a meio caminho.
    • A identificação das causas dos perigos da rota: o mundo, o Inimigo, a própria natureza, a ignorância e a falta de direção apropriada.
    • A oferta de São João da Cruz como um guia esclarecido para as almas que não compreendem o que nelas se passa.
    • A impossibilidade de São João da Cruz dizer tudo o que sabe, devendo constantemente moderar-se para não ultrapassar as exigências de seu assunto.
  • A destinação específica da obra de São João da Cruz para as almas contemplativas, sem excluir ninguém, mas reconhecendo que só pode ser compreendida por um grupo bem determinado.

    • O direcionamento primordial para os Carmelitas e as Carmelitas, cuja vocação particular é a oração interior.
    • O reconhecimento de que a graça de Deus não está ligada a um hábito religioso nem mesmo aos muros de um claustro, exemplificado pela dedicatória de A Chama Viva de Amor a uma de suas filhas espirituais no mundo.
  • A descrição do ponto crucial da jornada espiritual em que São João da Cruz toma as almas pela mão: o carrefour onde o caminho da meditação e o da contemplação se bifurcam.

    • A crise na qual as faculdades da alma – sensibilidade, imaginação, memória, razão e vontade – recusam seu serviço, tornando os exercícios espirituais um tormento e uma impressão de vazio insuportável.
    • A atração da alma por uma quietude completa, a qual, no entanto, lhe parece ociosidade e perda de tempo, caracterizando o estado em que Deus quer introduzi-la na noite escura.
  • A relação entre o símbolo da cruz, conforme o linguajar comum dos cristãos, e o símbolo predominante da noite na obra de São João da Cruz.

    • A constatação de uma certa parentela de sentido entre a cruz e a noite, embora insuficiente por si só.
    • A justificação para considerar a vida e a doutrina de São João da Cruz como uma ciência da cruz, baseada em passagens onde se fala de seu significado com insistência.
    • A centralidade do símbolo da noite, e não da cruz, em seus poemas e tratados, especialmente em A Subida do Monte Carmelo e A Noite Escura, bem como sua presença em O Cântico e A Chama Viva.
    • A indispensabilidade de se render conta exata da relação entre a cruz e a noite para se conhecer a significação da Cruz em São João da Cruz.