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id da página: 5660 Erasmo Homem Interior

Erasmo Homem Interior

Erasmo — Enchiridion

O HOMEM INTERIOR E EXTERIOR

Enchiridion, cap. IV
Podemos dizer que o homem é um animal monstruoso, sendo, como o é, composto de duas ou três partes muito diferentes entre si. Convém saber: da alma, que é quase divina, e do corpo, que é como um animal mudo. Porque na verdade, quanto ao corpo, não somente não apresentamos vantagem em relação aos brutos, como eles, em relação a nós, apresentam-na em muitos dotes do corpo. No entanto, segundo a alma, somos de maneira tão elevada capazes da divindade, tendo sido criados para gozar dela, que podemos sobrepujar os espíritos angélicos e fazermo-nos muito semelhantes a Deus. De modo que se tu não tivesses corpo, serias uma coisa divina. E se a este corpo não tivesse sido enxertada esta alma, serias como um animal.

Estas duas naturezas, tão discordes entre si, aquele mestre soberano havia muito bem feito concordes e atado com uma maravilhosa harmonia e concordância; mas a serpente inimiga da paz, deixou-as unidas entre si com tão miserável discórdia, que nem se podem separar uma da outra sem pena muito grande, nem viverem juntas sem luta contínua. E acontece a cada uma destas naturezas em relação à outra o que se costuma dizer de quem tem o lobo preso pelas orelhas: Que nem lhe é conveniente tê-lo assim preso, nem lhe é seguro soltá-lo. E cada uma delas poderia muito bem dizer à outra aquele verso gracioso do poeta: "Não posso viver contigo, ainda menos passar sem ti". Guerra tão ferrenha têm entre si, que estão sempre se agredindo, como se fossem diversas e não só uma. Porque o corpo, como é visível, tem seu deleite em coisas visíveis; como é mortal, acompanha também as coisas que são temporais; como é pesado e força para baixo, tem sempre os olhos abaixo. A alma, pelo contrário, lembrando-se de sua linhagem celestial, puxa o quanto pode para cima, contradizendo o corpo e lutando com esta carga de terra. Despreza todas as coisas que os olhos veem, porque sabe que são perecíveis; procura as que hão de durar sempre, que são as verdadeiras. Como é imortal, ama as coisas imortais. É celestial, e assim deseja as coisas celestiais. Deleita-se sempre com seu semelhante, desde que não esteja de todo embrenhada e submersa nas imundícies do corpo de tal modo, que sem nenhum embaraço degenera e desvia-se de sua natureza generosa, por haver desejado infectar-se com a má vizinhança do corpo.