JAFFE, Richard M. (org.). Selected works of D.T. Suzuki: Volume I, Zen. Oakland, California: University of California Press, 2015
O fato de a perfeição moral não ser essencial, ou seja, não ser absolutamente necessária para a salvação, é uma das principais tônicas em todas as escolas de budismo da Terra Pura. Mesmo no budismo primitivo, a mera moralidade não era considerada suficiente para a obtenção da condição de Arhat, pois a meditação (dhyana) e a intuição espiritual (prajna) também eram fortemente inculcadas nos entes dos Bhikshus e Sramanas. A alegação mais enfática apresentada pelos devotos da Terra Pura é que somos fundamentalmente imperfeitos e, portanto, que nenhum esforço humano e sem ajuda para nos aperfeiçoarmos moralmente, se essa for a única condição para a iluminação e a libertação, jamais levará à obtenção do fim. A vontade, conforme expressa nos Votos Originais de Amida, é, portanto, absolutamente essencial para nos tirar dessa situação desesperadora. Nossos próprios esforços, chamados de jiriki (poder próprio), sempre contêm algo, por menor ou mais fraco que seja, da ideia residual do ego, e o ensinamento básico do budismo, seja qual for a forma, é que devemos nos libertar do pensamento do ego se realmente desejarmos o Nirvana ou Saṃbodhi (iluminação). Muitas vezes temos, principalmente na literatura Mahayana, que os Bodhisattvas fazem perguntas ao Buda por meio de sua graça ou poder (tathāgata-dhiṣṭhāna ou -anubhāva) e não por sua própria vontade. Se isso pode acontecer, ou seja, se o Buda tem o poder de mover os outros como ele deseja, e se os mortais comuns não são seus próprios salvadores, parece ser natural que certos budistas cheguem à conclusão de que tariki e não jiriki é a condição da salvação, e que a fé e não a moralidade é o que é absolutamente necessário para os aspirantes à Terra Pura. De qualquer forma, os professores da escola da Terra Pura olham com desconfiança para a doutrina da autossuficiência ou do si mesmo (jiriki) como a afirmação do egoísmo, e insistem fortemente no tariki, outro poder, ou na superioridade incomparável da fé e da passividade. A seguinte passagem de Tauler está de pleno acordo com a visão defendida pelos defensores da Terra Pura: "Alles das Gott von uns haben will, das ist, dass wir müssig seyen und ihn Werkmeister seyen lassen; wären wir ganz und gar müssig, so wären wir vollkommen Menschen." ["Tudo o que Deus quer de nós é que fiquemos ociosos e permitamos que ele seja o mestre artesão; se fôssemos completa e totalmente ociosos, então seríamos perfeitamente humanos" (JCD).]