Nome-Forma (nama-rupa)
O quarto nidana é nama-rupa, quer dizer «nome-e-forma». Sobre este ponto, já tivemos a ocasião de dizer que convinha precisar. Aqui, importa somente entender, de novo, o conceito, em pensando ao conjunto dos elementos, seja materiais («forma»), sejam sutis e mentais («nome»), do qual vinnana — quer dizer uma consciência individual em geral — tem necessidade por base. No plano do quarto nidana, advém o encontro da direção vertical com a direção horizontal, que conduzirá à concepção e à geração de um ser: nele, as disposições transcendentais se incorporam nos elementos de uma herança samsarica, elementos que, no caso onde a série se desenvolve em direção de um nascimento humano, utilizarão por sua vez, em grande medida, a matéria da herança biológica dos genitores.
Três fatores concorrem para o nascimento de um ser humano. O primeiro é de natureza transcendental e está relacionado com os três primeiros nidana: “ignorância”, mania e sankhara devem, em primeiro lugar, ter determinado um obscurecimento e uma corrente descendente que, através do segundo nidana, já recebeu a sua direção, e, através do terceiro, já tende para uma forma individualizada dotada de consciência do “eu”. O segundo fator, por outro lado, está ligado a forças e influências já organizadas, a uma vontade já determinada, correspondendo assim a um daqueles processos de “combustão” que constituem o samsara e dos quais já se tratou anteriormente. Essas influências e essa vontade podem ser consideradas em conjunto como uma forma de entidade sui generis, que se pode denominar “entidade samsárica” ou “entidade do desejo”. Trata-se de uma “vida” que não se esgota nos limites do indivíduo, mas que é concebida, antes, como a “vida” desta vida e que se associa às noções de “daimon”, “duplo” e “gênio”, de ka, fravashi e fylgya, etc., que se encontram em outras tradições e que, na tradição indo-ariana, já existiam, por exemplo, como o linga-sharira ou “corpo sutil” do Samkhya, ou como aquela entidade — gandharva (Pali: gandhabba) — cuja presença, segundo um texto do mais antigo cânone budista, é necessária, além dos pais, para que um nascimento ocorra. No Abhidharmakosha, isto é, no sistema teórico do Budismo, essa entidade recebe o nome de antarabhava; considera-se que possui uma existência prévia e internatal; nutrida pelo “desejo” e impelida por impulsos alimentados por outras vidas, busca manifestar-se em uma nova existência. Este é, pois, o segundo fator, já potencialmente correspondente a um “nome-e-forma” em grande parte predeterminado. No nível desse nidana — nama-rupa — dá-se o encontro do princípio obscurecido pela ignorância com o antarabhava, ou daimon samsárico, ou entidade do desejo: o primeiro, por assim dizer, une-se ao segundo, inserindo-se assim em um determinado grupo de hereditariedade samsárica.
Isto dito, convém tomar em consideração o terceiro elemento. No texto já indicado, diz-se que o olho hipersensível vê vagar o demônio, até que se apresenta para ele a ocasião de uma nova «combustão», quando apercebe a união sexual de um homem e de uma mulher que possam ser adequados como seu pai e sua mãe, ou seja, que possam apresentar-lhe uma hereditariedade correspondendo a seus fortes desejos. É então que se determina um fato, a respeito da doutrina em questão, que apresenta uma singular concordância de ideias com o que a psicanálise — apesar das deformações e exageros em todos gêneros — pressentiu em nossos dias, segundo sua teoria do libido e do complexo de Édipo ou de Electra. Com efeito, aí é falado de um desejo, que esta entidade pode conceber, seja para a futura mãe, seja para o futuro pai, e isto segundo sexo que foi o seu no curso da vida precedente, mas já extinta, — e de uma aversão correspondente para com o outro genitor. Segue-se uma identificação com a embriaguez e o desfrute do casal, por meio do qual a entidade penetra na matriz: e então se opera a concepção. Logo em seguida, se condensam ao redor dela diversas khandhas, quer dizer elementos concatenados de germinação, que se encontrarão na base do novo ser — e começa o processo fisiológico do desenvolvimento embrional, tal qual o conhece a genética contemporânea em seus aspectos exteriores, e tal qual o considera, nestas condições internas, a teoria relativa aos diversos outros nidanas, a respeito da qual nos resta ainda dizer.
Assim em última análise, se encontram presentes, no ser humano, três princípios ou entidades, aqueles mesmos que, no Samkhya, levam os nomes de karatia-çarira, linga-çarira e de sthula-çarira, e que as antigas tradições ocidentais conheceram como noûs, psyche e soma, e como mens, anima e corpus. A respeito destes últimos, convém relembra a estreita relação que concebida entre a alma, enquanto «demônio» ou «duplo», e o «gênio», enquanto «vida» e «memória» de um sangue dado e de uma camada dada: coisa que, por sua vez, remete à já indicada «via dos pais» upanixadica — pitr-yana — ao sendero que reconduz sempre ao nascimento, segundo a lei da concupiscência e do destino da existência samsarica. A «alma» (enquanto princípio distinto daquele que é propriamente espiritual), segundo a concepção originária, pertence precisamente a este plano, se funda mais ou menos com a entidade irracional que é o «demônio»: nos textos budistas da prajnaparamita, igualmente, a pessoa ou «alma» — pudgala — se confunde frequentemente com este princípio pré-formado, que assume a existência, enquanto vida de uma vida determinada, e que, desta, mantém junto os elementos, ao mesmo tempo que se mantém como uma força não ligada a eles, a qual não cessa de existir com a morte do indivíduo particular.
Nos textos do mais antigo cânone budista (que está em pali), as coisas são frequentemente apresentadas de modo tal que o daimon ou entidade samsárica parece ser equivalente a viññana, isto é, à “consciência”, o terceiro nidana. Na realidade, como já se afirmou, as duas coisas são bastante distintas: a identificação explica-se pelo fato de que, através do que se pode denominar uma afinidade eletiva ou convergência, estabelece-se uma identificação entre a força proveniente do alto, que é arrastada para baixo pela ignorância, e essa entidade formada de desejo; tal identificação é inteiramente análoga àquela da mesma entidade com a matéria que os futuros pais oferecem para a sua nova manifestação do desejo. “Consciência”, viññana, não é o “daimon”; encontra, contudo, o “daimon” e identifica-se e une-se a ele no momento em que alcança uma de suas individualizações e encarnações; isso requer, de fato, uma força vital já especificada e o seu desejo. Assim, no composto humano existe certamente um “daimon” que é a sede de uma consciência samsárica mais do que individual e ao qual podem estar também ligados memórias, instintos e causas de origem remota, e é esta a significação da chamada alayaviññana, a “consciência-contêiner” que recebe todas as impressões, tanto conscientes quanto inconscientes, de um determinado acervo ou corrente; todavia, existe também no ser humano um princípio superior, que, entretanto, a ignorância e os asava perturbaram e obscureceram. Este é um ponto fundamental, e, se não for mantido em mente, grande parte da ascese budista permanecerá ininteligível.
Diz-se que, no momento em que o antarabhava, o daimon, entra no útero, e quando o reagrupamento e a solidificação dos elementos materiais começam em torno dele, este “morre”. Deve-se compreender com isso a cessação da continuidade da consciência, o que significa que não se recordam, de modo ordinário, estados pré-natais e pré-concepcionais, sejam eles samsáricos ou transcendentais. Trata-se de uma espécie de ruptura, pois, a partir desse ponto, estabelece-se o quarto nidana, a correlação interdependente entre consciência e a unidade psicofísica (nama-rupa) que a individualiza. Com efeito, se a consciência, viññana, deve entrar no útero materno para que o “nome-e-forma” possa originar-se, então deve haver, ao mesmo tempo, “nome-e-forma” para que a consciência possa existir.
Nos textos encontra-se a seguinte comparação para a relação existente entre os três princípios: a semente é viññana, a consciência; a terra é kamma; e a água que faz a semente crescer e tornar-se planta é a sede. Kamma, aqui, é a força já determinada pelo sankhara, que corresponde à “entidade samsárica”, na qual o princípio descendente (semente) entra e é conduzido a uma nova existência porque há desejo. Somente nos casos de “descidas” excepcionais, de natureza “fática”, de seres que, tendo removido a ignorância em certo grau, são em sua substância compostos principalmente de “iluminação” (bodhi — este é o sentido literal da expressão bodhisattva), o “veículo” que utilizam em lugar do antarabhava ou entidade do desejo é um “corpo celeste” ou “corpo de esplendor” (tusita-kaya). Nesses casos, o nascimento ocorre sem qualquer dissolução da continuidade da consciência; o indivíduo está em perfeita posse de si mesmo, é imperturbável e tem visão; e, para sua natividade, escolhe o lugar, o tempo e a mãe.
Tais concepções reduzem naturalmente as implicações da hereditariedade biológica terrena a uma importância meramente relativa. A hereditariedade é aqui considerada como algo muito mais vasto: não apenas aquilo que se herda dos antepassados, mas também aquilo que provém de si mesmo e de identificações antecedentes. Com efeito, tomando a hereditariedade em sentido amplo, apenas esta última é essencial quanto ao núcleo da personalidade humana. De um ponto de vista superior, deixar de levar em conta tal hereditariedade seria tão absurdo quanto pensar que pintos de espécies diferentes nascem apenas dos ovos, sem uma correspondente hereditariedade animal. Retomando o simbolismo do fogo: se se deseja encontrar a origem do fogo que arde em determinado tronco, seria absurdo buscar a origem do tronco na árvore de que provém, e desta na floresta a que pertence, e assim por diante — no máximo, poder-se-ia descobrir a qualidade do combustível. A origem do fogo deve, ao contrário, ser buscada na natureza do próprio fogo, e não na da madeira, traçando-se a centelha que acendeu a chama, e depois a chama de que veio a centelha, e assim sucessivamente. Do mesmo modo, a hereditariedade mais essencial e verdadeiramente “direta” de um ser não se encontra na genealogia de seus pais terrenos. Pois os seres são herdeiros e filhos da ação, e não do pai e da mãe. Além da própria hereditariedade do corpo e do soma, há a hereditariedade samsárica e, finalmente, há a hereditariedade que é o princípio “do alto” obscurecido pela “ignorância.”