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Festugiere Corpus Hermeticum

Nock e Festugière — CORPUS HERMETICUM


Considerada uma da melhores edições do Corpus Hermeticum, este trabalho que começa com o estabelecimento dos originais por A.D. Nock, e vem acompanhado pela tradução de A.-J. Festugière, é apresentado a seguir, conforme o plano de cada obra traduzida, da qual estaremos apresentando excertos traduzidos em português.


Antoine Faivre

A Hermetica comporta várias pequenas obras esparsas cuja coleção mais célebre, aquela que deixará uma marca permanente sobre o pensamento ocidental, é o Corpus Hermeticum, ao qual se deve juntar o Asclépio e os Fragmentos de Estobeu. O Corpus Hermeticum reúne dezessete tratados em grego redigidos nos séculos II e III. Estes tratados só se conservaram em manuscritos cujos mais antigos remontam somente ao século XIV. Catorze dentre eles serão traduzidos para o latim por Marsilio Ficino, em 1463. A Idade Média os tinha esquecido, com exceção do Asclépio. Na Renascença, Valentin Weigel, pai da Teosofia germânica — da qual Jacob Boehme é o príncipe —, cita Hermes Trismegisto mais que qualquer autor antes de sua época, o Pseudo-Dionísio, Mestre Eckhart, Platão e Agostinho de Hipona vinham em seguida. É com efeito ao mítico Hermes Trismegisto, o “três vezes grande”, que estes escritos se referem. À diferença de doutrinas sobre certos pontos análogos, como o mandeísmo, os ensinamentos marcados pelo selo deste Hermes serão recebidos pelo Ocidente moderno menos como vestígios de um “passado superado” que como uma fonte sempre disponível, viva, revificante, convidando a uma hermenêutica perpétua.

Giovanni Filoramo

Para se ter uma ideia deste processo [de vir a ser luz], considere-se o Poimandres, o tratado com o qual se abre o Corpus Hermeticum. Hermes tem inicialmente uma visão. Aparece-lhe Poimandres, o pastor de homens, o Nous arquetípico. Este Intelecto, depois de ter-lhe dirigido a palavra, muda de aspecto de repente: e neste ponto, conta Hermes, “subitamente tudo se abriu diante de mim. E eis que vejo uma visão indeterminada. Tudo se torna luz calma e alegre. E tendo-a visto, me apaixonei por ela”.

O processo cognitivo de Hermes se enxerta e se conclui em uma experiência vivida, enraizada nas dimensões profundas do sujeito. Hermes é envolvido em uma ação cognitiva, cujos protagonistas são ligados por secretas afinidades. Hermes ou melhor, o seu nous, a parte mais sublime e divina do seu ser, é a contraparte individual do Nous de Poimandres, o intelecto geral, universal. Estabelece-se assim um círculo hermenêutico, fundado na identidade entre sujeito, objeto e meio do conhecimento. Hermes pode conhecer a sua verdadeira natureza, porque ele possui aquele meio, o seu nous, momento particular do Nous geral, que lhe certifica a identidade de substância com o objeto para o qual a sua sede de conhecimento tende: o mundo das potências divinas intelectuais. A luz, então, que ele contempla, não é mais um simples meio cognitivo, mas a mesma substância do mundo divino, a luz primordial, arquetípica. Ele pode agora a conhecer em seu conteúdo. Hermes vê de fato em seu intelecto “a luz se tornar um número incalculável de potências e um mundo sem confins”. Aquilo que agora ele contempla é a mesma natureza de Deus em sua dimensão dinâmica. Porém, uma vez que o seu intelecto é na realidade parte daquele Nous divino que ele intui, que outra coisa significa tudo isto, senão que ele agora vê a sua própria natureza?

Quais sejam as etapas vitais e emocionais deste processo de regeneração espiritual o revelam dois outros tratados herméticos, idealmente conectados ao precedente, o tratado XIII sobre a regeneração e o escrito copta De ogdoade et enneade. Eles descrevem com riqueza de pormenores, que aqui devem ser omitidos, o movimento do conhecimento gnóstico em sua dimensão profunda de experiência vital. O cenário é aquele típico deste gênero de processos: o cenário externo é colocado sobre um monte, e não falta o tema da expulsão do homem velho, representado como um conjunto de dynameis ou potências negativas, às quais sucede a nova realidade espiritual. Hermes insiste, em suas admoestações ao discípulo Tat, no fato de que se chega à gnose através da reflexão. Mas trata-se de uma fase, ainda que indispensável, preparatória: a discussão com o mestre, a meditação, a reflexão treinam a vontade e exercitam o intelecto. Por si, porém, elas são insuficientes para conseguir o objetivo. Para isto, é preciso a intervenção externa de uma potência luminosa, que ponha em movimento uma experiência emocional profunda. Nesta fase, condensada no silêncio místico, tem lugar a regeneração. Tat sente agora pulsar em ele uma nova seiva vital. Incipit vita nova: uma vida plasticamente condensada na imagem de um homem essencial, dotado daquela consubstancialidade com o mundo divino que o gerou. Enxertando-se sobre esta nova vida, o conhecimento pode agora gnosticamente se configurar como reconhecimento da sua verdadeira essência e com isto da essência mesma do divino.


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