Filolau, que viveu em fins do século V e começo do IV, é o chefe dos grupos neopitagóricos de Tebas, reorganizados depois da perseguição da Liga pitagórica na Magna Grécia e o incêndio da casa social em Cróton. Foi principalmente matemático, mas não abandona a especulação acerca da alma, própria da escola, e nele reaparecem, sob forma nova, os antigos temas do pitagorismo.
"Atestam também os teólogos e vates antigos que a alma, por certos castigos, está unida ao corpo e nele enterrada como em um túmulo. (Fr. 14)
"Os homens estão em uma espécie de cárcere, e não são mais que uma das propriedades dos deuses." (Fr. 15)
A oposição da alma e do corpo adquire sua forma extrema no pitagorismo: o corpo é um túmulo (soma sema), a alma está unida a ele, presa, sepultada; metáforas expressivas, que revelam uma valorização negativa do corpóreo. A alma necessita libertação, se não do corpo sensu stricto, pelo menos de suas necessidades; daí todos os ritos pitagóricos para conseguir o entusiasmo ou endeusamento, que liberta a alma: a orgia, a mania, etc. A proibição do suicídio entre os pitagóricos tinha como principal fundamento esse direito dos deuses sobre os homens, que o fragmento 15 de Diels assinala (vejam-se lá os textos).
Sobre os pitagóricos, além dos testemunhos antigos, pode-se ver: E. Frank: Plato und die sogenannten Pythagoräer (Halle, 1923); A. Delatte: Études sur littérature pythagoricienne (Paris, 1915). (Julián Marías)
Segundo certos dados, havia, na época de Pitágoras, três espécies de iniciados: os filósofos contemplativos, que eram os matemáticos; os nomotetes, aos quais cabiam a direção política e a atividade social; e uma terceira categoria, os políticos, que não haviam ainda alcançado os graus de iniciação, e que eram instrumentos para a execução dos planos que elaboravam os dirigentes.). Dessa catástrofe, haviam se salvo apenas Lysis (que é dado como autor dos "Versos Áureos") e Filolau, um dos mais famosos pitagóricos de todos os tempos, os quais, possivelmente, (e há aqui suficientes elementos a favor dessa possibilidade), nem tenham conhecido Pitágoras pessoalmente. Com eles salvaram-se alguns noviços, entre os quais se salientam os nomes de Hipócrates de Quios, que viveu depois em Atenas, Hiparco e Hípias, que, posteriormente, foram considerados traidores, por terem revelado certos segredos da ordem, merecendo a "excomunhão" da mesma. Dos seguidores próximos dessa época deve-se salientar Arquitas de Tarento.
O próprio Filolau também foi considerado por muitos pitagóricos como traidor, por haver publicado trabalhos nos quais revelava certos aspectos da filosofia de Pitágoras, e também por constar haver vendido três livros secretos a Dion, irmão de Dionísio o Antigo.
Queremos chamar a atenção do leitor para Filolau, que é, inegavelmente, um dos discípulos de maior projeção, e que, segundo os dados históricos, de mie dispomos, possivelmente tenha conhecido Pitágoras, o que dizemos com muitas reservas, mas que foi discípulo, certamente, de outros mestres, que tiveram contacto direto com o fundador da escola itálica.
Filolau foi acusado de traidor pelos pitagóricos de sua época, poi-que havia ele tornado exotéricos certos conhecimentos, que deviam permanecer guardados, ocultos, e que só deveriam ser revelados quando chegasse o memento oportuno, isto é, quando o homem merecesse, ou já tivesse alcançado um grau tão elevado, que poderia conhecê-los sem lhes causar prejuízos maiores.
É este um ponto de magna importância, repetimos, porque restaram de Filolau inúmeros fragmentos que muito nos podem guiar para um conhecimento mais exato do pensamento pitagórico, e que podem servir, ademais, para compararmos as teses que oportunamente iremos expor com as suas afirmativas. Se o pensamento de Filolau, exotericamente exposto, não se coadunasse com os ensinamentos mais secretos da ordem pitagórica, não poderíamos compreender porque lhe foi atribuída a pecha de traidor e revelador de segredos. A não ser que proviesse de discípulos que desconhecessem o verdadeiro pensamento pitagórico, e que julgaram que o que ele revelara deveria permanecer oculto. Mas, seja como for, através dos tempos, todos o-autores reconheceram nele uma autoridade incontestável. No método que obedecemos nesta obra, não iremos partir apenas de Filolau, mas, sobretudo, de outros pontos que julgamos mais seguros e irrecusáveis, sem que nos afastemos das contribuições desse grande discípulo, sempre que suas afirmativas forem coerentes com os fundamentos que teremos oportunidade de precisar. (Mário Ferreira dos Santos)
Excertos