Finito
VIDE: Infinito, Indivíduo, Ser
Filosofia
Em todo ser concreto, este ou aquele, vige a plenitude do ser. O infinito está sempre aí no finito que nos cerca. O finito é o ser em sua determinação ou situação realizada, diretamente acessível ao pensamento. Enquanto só se atende ao modo particularizado de o ser aparecer, não se percebe o ser. O modo apenas o designa. O ser ele mesmo é um horizonte inacessível, embora sempre presente, sempre anunciado em todo ser particular.
O particular cumpre assim simultaneamente uma função positiva de dizer o que o ser é, e uma função negativa de dizer o que o ser não é. Mais diz o que não é do que o que é; e em dizendo o que não é, insinua o que possa ser, pois a negação se constitui a partir de uma explícita ou latente afirmação.
Frei Hermógenes Harada: Excertos de Ensaios de Filosofia"
A niilidade acima descrita é o que chamamos de finitude. Essa finitude é tão nada que chamá-la de limitada é atribuir-lhe demasiadamente posição de ser. E decisivo, porém, estranhar e, no estranhamento, vislumbrar o que Mestre Eckhart nos quer dizer, quando destaca essa niilidade no meio de todas as criaturas, principalmente contrastando-a com a grandeza do anjo supremo e diz (SERMÃO I): Deus é o único ser que pode se igualar a essa niilidade, portanto, pode unir-se à alma que deixou de ser e voltou a ser nada. O que há de decisivo nessa colocação? O decisivo é perceber com precisão o matiz todo próprio dessa niilidade. É que um nada assim nadificado é fraqueza, isto é, não é um mundo insensível no modo de uma imensidão vazia, ocorrente ali estendida como espaço sideral ou matéria dissolvida, mas sim um "nada" como que finura da tênue vibração do tremor da sensibilidade, como sentimento da vida. Mas, vida diz pouco, por dizer demais, pois a pura recepção, a potentia oboedientialis, se refere à vida na sua acepção a mais humana, a mais própria, a mais íntima, a que os medievais denominavam de espiritual ou divina.
Glória Ribeiro: Excertos de Ensaios de Filosofia
O ser que nos é dado por Deus é o ser limitado, finito. Ou melhor, este ser não pode ser por nós apreendido de forma plena, mas somente de forma limitada, finita. A existência humana deve ser apreendida constantemente, ou seja, estamos constantemente vindo a ser, estamos constantemente apreendendo o ser que nos é conferido por Deus. Nascemos para a possibilidade iminente da morte, esta é a nossa sina. Tudo o que fazemos, por maior ou menor importância que possua, está condenado ao fim, pois, para que uma ação possa nascer, é preciso que outra deixe de ser. Assim, estamos condenados à multiplicidade, à diversidade, a um eterno devir; condenados a sermos temporais. E mais: se tentarmos deter o fluxo em que a existência se constitui e a considerarmos em si mesma, veremos que nada nos resta. Ou melhor, este ser finito, considerado em si mesmo, é nada. Não se mantém, não permanece em si e por si mesmo. Pois para que a existência, o tempo, se realize em sua finitude, é preciso que esteja constantemente no começo, no princípio. A nossa existência acontece à medida em que se mantém numa relação de pertencimento ao ser de Deus.